«Pio XII não podia parar os trens, mas devia excomungar os nazistas»

Marcello Pezzetti, o historiador (e diretor do nascente museu da Shoah em Roma) que encontrou a primeira câmara de gás de Birkenau: «Na Farnesina sabiam do extermínio»

Marcello Pezzetti

 

de Stefano Lorenzetto – 11/03/2019 – Na Foto: Marcello Pezzetti / 

Tradução: Orlando Almeida

Esteve no campo de extermínio de Auschwitz mais de 250 vezes, muitas vezes durante meses, e volta lá com muita frequência. Foi ele que recuperou a primeira câmara de gás de Birkenau: sobre ela vivia uma família de camponeses poloneses que não sabiam que cultivavam o jardim sobre fossas comuns. “No passado eu dormia na Kommandantur1 de Rudolf Höss, o criador dos ‘chuveiros’ e dos fornos, enforcado em 1947 ao lado do crematório”. E não tinha pesadelos? “Não, apenas uma sensação de desforra”.

Marcello Pezzetti, diretor do nascente Museu da Shoah, em Roma, é o historiador mais importante do Holocausto italiano, o único que entrevistou todos os 105 judeus que retornaram dos campos de concentração. Agora, com sua companheira alemã Sara Berger, que também é estudiosa de história, encontrou um conjunto de documentos escondido na Farnesina2.

 

São documentos da diplomacia italiana, redigidos entre 1938 e 1943, relativos às perseguições raciais.

  • Anotações para o Duce,
  • telegramas
  • e notas confidenciais,

agora reproduzidas no ensaio Solo il dovere oltre il dovere [Só o dever além do dever] (editor Gangemi).

Delas se depreende que nas embaixadas e nos consulados, bem como no Palazzo Venezia e no Palazzo Chigi, então sede do Ministério das Relações Exteriores, todos sabiam tudo do ‘‘Endlösung der Judenfrage”,  a ‘solução final’ da questão hebraica. Por exemplo, Roberto Venturini, cônsul em Skopje, no ‘telespresso’ [comunicação oficial] 417/92 de 16 de março de 1943,  descreve a sorte de 5.000 deportados dos quais “se pode dizer que já só têm os olhos para chorar” à mercê dos guardas que “utilizam sob qualquer pretexto com sádica energia os chicotes com que estão equipados”.

 

Corajoso, o cônsul Venturini.

“Sim. Ele anota que ‘a eliminação dos israelitas da Macedônia teria sido solicitada pela Alemanha por razões militares’ e denuncia ‘o mais absoluto desprezo do mais elementar princípio humanitário’. Graças a Venturini reconstruí a história de Susanna Pardo”.

Quem era?

«Uma mulher italiana que foi morar em Bitolj com o seu marido David, um judeu iugoslavo. Aimée Pardo, residente em Milão, no número 1 de Corso Vercelli, escreveu ao cônsul para ter notícias da sua irmã e da sobrinha Esperance, de apenas um ano de idade. Agora eu sei que elas foram as únicas duas compatriotas mortas em Treblinka.  Nenhuma outra pessoa deportada da Itália desapareceu naquele campo”.

Conseguiu comunicar isso a alguém?

“A Silvana, outra irmã de Susanna, que eu descobri em Milão. Ela deu-me as fotografias delas e as últimas cartas”.

 

Stefano Lorenzetto

Afundar as mãos nesta tragédia sem fim não lhe tira a vontade de viver?

“Pelo contrário, isso me fortalece. Os sobreviventes ensinaram-me que à morte em massa se responde de uma única maneira: com a vida, aproveitando-a o mais possível. Quer uma prova? Aos 61 anos, tornei-me pai de Samuel. Acabou de fazer 4 anos.  A minha outra filha, Vanina, que tem 46 anos e trabalha para a ONU em Tel Aviv, quando criança, ia comigo a Auschwitz. Eu pagava uma babá para brincar com ela  de  trenó sobre a  neve enquanto eu procurava as provas do extermínio. Você  não tem ideia de quantos documentos eu escondi nas suas calcinhas”.

 Nas calcinhas?

“Nos países do Leste Europeu ainda está em vigor uma regra:  não se pode levar para fora nada que seja anterior a 1945. Fui preso umas dez vezes na Polônia, Alemanha Oriental, Checoslováquia e URSS. Uma vez junto com Shlomo Venezia e a sua esposa Marika. Ele foi um dos últimos Sonderkommando2 de Auschwitz-Birkenau, quase todos eliminados pela SS. Ele tinha a tarefa de tirar das câmaras de gás os corpos dos judeus eliminados com Zyklon B”.

 Conheci Venezia. Dois gigantes.

“Shlomo me faz muita falta. Prenderam-nos na Polônia porque ele comprou um velho yad, o apontador em forma de mãozinha usado na leitura da Torá”.

Eu pensava que os comunistas fossem amigos dos judeus.

(Ri). “Não creio, não mesmo. Houve uma época em que eles pareciam uma garantia contra a volta do anti-semitismo. Depois as ilusões acabaram. Além disso, o bolchevismo foi, com o capitalismo, um pretexto  perfeito para outras perseguições”.

O historiador David Irving afirma que as câmaras de gás são uma invenção.

“Delírios de um negacionista pluri-condenado. Encontrei os projetos da Topf und Söhne em Erfurt, a empresa que construiu os sistemas de ventilação para arejar as câmaras de gás após cada massacre. Com os desenhos dos engenheiros Kurt Prüfer e Karl Schultze, as planimetrias, as fotos. Documentos em que se fala de ‘Gaskammer’4“.

 

Foto da internet / Reprodução

 

O que Pio XII poderia ter feito, e ao invés não fez,  para impedir a Shoah?

“Excomungar o nazismo”.

Liliana Segre disse-me: “Poderia colocar-se na frente do comboio de 18 vagões de gado que em 1943 transportou os 1.024 judeus capturados no gueto de Roma para Auschwitz, incluindo mais de 200 crianças”.

“Não se pode esperar isto de um papa. São gestos corajosos, de filme”.

Por que em 1944, o Grande Rabino de Jerusalém, Isaac Herzog, declarou: “O povo de Israel nunca esquecerá o que Pio XII e os seus ilustres delegados estão fazendo pelos nossos desaventurados  irmãos e irmãs na hora mais trágica”?

“Porque era verdade, embora oficialmente o papa calasse. Entrevistei a irmã Emerenziana, 94 anos, que em 16 de outubro de 1943 abriu aos judeus as portas do instituto São José de Chambéry. ‘Não tínhamos indicações sobre o que fazer, mas eles estavam em perigo’, disse-me ela. Foi assim que ela salvou Lia Levi, de 11 anos, a futura escritora”.

A ‘noite dos cristais’ é de 1938, e no entanto vi uma lista telefônica de Berlim de 1941, com uma vistosa suástica na capa. Ao lado dos números do Partido Nacional Socialista, dos ministérios, da SS, da Gestapo, da Wehrmacht e da Luftwaffe, há uma seção Judische com sinagogas, escolas e hospitais judeus. Como é possível?

“Sabe qual é a cidade alemã onde se escondeu e salvou o maior número de israelitas? Berlim. Até à Conferência de Wannsee de janeiro de 1942, que elaborou a ‘solução final’, não se sabia o que fazer com os Mischlinge, os alemães de sangue misto. Nem todos os alemães concordavam com a sua supressão. Friedrich Bosshammer, o único nazista condenado por ter deportado para Auschwitz maioria dos judeus italianos, teve  sentença de prisão perpétua apenas por ter agido por iniciativa própria na deportação dos mestiços”.

 O senhor foi consultor de ‘La vita è bella’.

“Roberto Benigni procurou-me. Eu expliquei-lhe a Shoah e levei os sobreviventes para o set de filmagem”.

Mas pode-se rir da Shoah?

“Não. Mas pode-se rir ‘na’ Shoah. Como demonstrou Romeo Salmonì, no qual Benigni se inspirou. Foi a sua auto-ironia que o salvou do extermínio”.

O senhor também colaborou com «Rua Alguem, 5555», lançado com o título de ‘My father’.

“Charlton Heston apareceu com o diretor Egidio Eronico para fazer o papel de Josef Mengele, o Doutor Morte de Auschwitz. O filme é centrado sobre o filho único dele, que vai visitá-lo pela primeira vez em Manaus, na Amazônia. Eu pude conhecê-lo. É um caso humano. Chama-se Rolf Mengele, vive numa pequena aldeia na fronteira franco-alemã entre Estrasburgo e Stuttgart. O pai dele era obcecado por pesquisas sobre gêmeos.

Matava-os dois a dois com injeções de fenol no coração para comparar as reações enquanto morriam. Conheço bem as duas irmãs Bucci, que escaparam dessas experiências malucas. Depois da guerra, a esposa de Mengele morou em Merano. Ele fugiu para a América do Sul com a cunhada. Simon Wiesenthal, o caçador de criminosos que conseguiu capturar na Argentina Adolf Eichmann, depois enforcado em Israel, revelou-me que em duas ocasiões esteve prestes a capturar Mengele, a primeira vez num hotel de Milão, a segundo no Alto Adige”.

Como se explica que os sobreviventes da Shoah tenham ficado calados por tanto tempo?

“As razões são mais de uma. Porque se sentiam culpados por ainda estarem vivos. Porque acreditavam que a sociedade não queria saber disso. Porque pensavam ter delegado o testemunho a Primo Levi, que no entanto nunca esteve em Birkenau. Porque queriam proteger seus filhos de uma dor enorme. Mas não fizeram o que era bom para eles, longe disso. Eles só entenderam isso nos anos 90, com os netos. Infelizmente, nessas alturas, subiu no carro um monte de gente que transformou a memória numa profissão”.

Uma suspeita que poderia atingir o senhor.

“Você diz? Quando em 1997, com o diretor Ruggero Gabbai e Liliana Picciotto, levei os sobreviventes em visita a Auschwitz, para girar o filme Memoria, eu não tinha uma lira. Uma senhora rica perguntou-me: ‘Falta-lhe alguma coisa?’ Sim, os 35 milhões para pagar a viagem, respondi. No dia seguinte ela trouxe-os para mim. A primeira vez que entrevistei Shlomo Venezia, o operador e a câmera foram emprestados pel a vaticanista  do Tg5, Marina Ricci Buttiglione, irmã de Rocco, o ex-ministro”.

Desapareceram os sumérios, os acadianos, os babilônios, os hititas, os assírios, os egípcios, os fenícios, os persas. Os israelitas são o único povo da antiguidade que chegou até nós. Como se explica?

“Explica-se assim: conservaram a sua identidade ao longo dos séculos. Eles integraram-se sem nunca se deixarem  assimilar”.

É justo investigar por difamação e ódio racial o senador do M5S  Elio Lannutti  que citou os Protocolos dos Sábios de Sião para denunciar que as finanças mundiais seriam controladas pelos judeus?

“Sinto pena dele. Isso dá a medida do estado de saúde da sociedade. É um termômetro. Significa que a Itália não está bem, está com febre”.

Teme a volta do anti-semitismo?

“O anti-semitismo nunca acabará. É um rio cárstico. Não se vê, mas por baixo ele existe”.

Não gostaria de fugir de Auschwitz?

“Quando me perguntam por que entrei lá, não entendo a pergunta. Não se pode não entrar lá. E não se pode sair de lá”.

 

 

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Stefano Lorenzetto

Fonte: https://www.corriere.it/cronache/19_marzo_08/pio-xii-non-poteva-fermare-treni-ma-doveva-scomunicare-nazisti-shoah-marcello-pezzetti-f3dfc742-41dc-11e9-883c-bdbf2f5b2942.shtml?refresh_ce-cp

 

 

Notas:

1 Kommandantur – sede do comando do campo.

2 Farnesina –sede do Ministério das relações exteriores da Itália, em Roma.

3 Sonderkommando (unidade especial) – designação de pessoas, geralmente de origem judaica, que eram obrigadas a colaborar nas atividades de extermínio.

4 Gaskammer – câmaras de gás.

 

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