Ordenação de mulheres: um início de conversa

 

Henrique Raposo – 06/03/2019

Imagem: Jesus aparece a Madalena / elmundodelanotiicia

Ordenação de mulheres. Os sectores ditos tradicionalistas gritam contra a ideia, alegando a imutabilidade da Igreja. Esquecem um pormenor: a Igreja não é Deus; Deus é imutável, a Igreja não.

A Igreja é uma pedra, sim, mas é uma pedra rolante, que vai rolando ao longo da história num compasso lento. É lenta, mas muda. Se a memória não me falha, o celibato só foi imposto como obrigatório no século XII. A Igreja que aparece nos livros de Dante não é a mesma que a nossa.

A Igreja é uma estrutura humana, não é Deus. O direito canónico não é a voz de Deus, é uma negociação entre uma estrutura de homens e o Evangelho.
Os sectores que reagem a qualquer mudança dizem ainda que a ordenação de mulheres não foi ordenada por Jesus no Evangelho. Pois bem:
  • Jesus também não contestou a escravatura.
  • Jesus também não ordenou o celibato. De resto, o celibato não tem validade bíblica. Ou melhor, pode ser feito um argumento bíblico a favor do celibato, mas não existe uma ordem expressa para o celibato.
  • Ademais, a vivência dos Doze é normal. Pedro e os outros têm mulheres e sogras.
  • Eram pastores no sentido moral do termo, não padres.

O que é conservar o essencial? Uma regra eclesiástica da Idade Média ou a essência bíblica?

Do ponto de vista bíblico,
  • faz mais sentido defender a ordenação de mulheres
  • do que impor o celibato aos seguidores.

Não existem referências à obrigatoriedade do celibato, existem inúmeras passagens que colocam a mulher no centro. Se repararem,

  • Jesus dá sempre razão às mulheres que aparecem.
  • No Evangelho, a norma parece ser esta: a mulher tem sempre razão contra homens, contra fariseus, contra multidões.

A mulher, que surge sempre a partir da obscuridade doméstica, é iluminada por Jesus naqueles momentos públicos. A mulher invisível ganha através de Jesus uma luz que os doutores da lei não têm. Depois,

  • no momento decisivo na cruz,
  • são elas que não desistem,
  • são sobretudo elas que ficam.

Quando José de Arimateia coloca o corpo do Senhor no sepulcro, são elas que vêem, são elas que reportam.

  • Eles não estão, fugiram.
  • Maria, Madalena e Salomé ficam e observam na hora mais difícil.
“Maria de Magdala e Maria, mãe de José, observaram onde o depositaram. Passado o sábado, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé comprara perfumes para ir embalsamá-lo” (Mc 15, 47; Mc 16, 1).
Em novo momento decisivo, Jesus aparece pela primeira vez a uma mulher, Maria Madalena.
“Disse-lhe Jesus, Maria! Ela aproximando-se, exclamou em hebraico, Rabbuni – que quer dizer Mestre” (Jo 20, 16).
O curioso é que, a seguir, os onze não querem acreditar em Madalena. Ela é uma mulher e, portanto, desprezam o anúncio por ela feito, Ele ressuscitou. Além disso, estão com medo e recusam ouvir a boa nova. Madalena é o novo Caleb e os onze são como as tribos que recusaram acreditar na terra prometida.
  • No momento decisivo,
  • são as mulheres que não desistem.
  • São eles que reúnem as tropas.
O Evangelho não é o Alcorão, não é um conjunto de alíneas obrigatórias. No Evangelho,
  • nem Jesus nem São Paulo negam a escravatura.
  • Quer isto dizer que não devemos condenar a escravatura?
  • Claro que não.

A cristandade, porém, demorou mais de milénio e meio até começar a debater a fundo a escravatura, que, como se sabe, só foi ilegalizada no século XIX, mil e novecentos anos depois da semente deixada por São Paulo:

“Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3, 28)
Não há escravo nem livre. Não há homem e mulher. Lá chegaremos. A pedra é rolante.
Imagem relacionada
Henrique Raposo, em Rádio Renascença

 

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