Guaidó voltou a Caracas sem problemas

A oposição criou o drama, mas o governo absteve-se de qualquer ação contra o autoproclamado presidente

 

António Rodrigues

Internacional
Foto: Volta de Guaidó a Caracas / RONALDO SCHEMIDT / AFP

Juan Guaidó regressou à Venezuela e não foi preso. A oposição tinha alertado para a possibilidade de as autoridades deterem o autoproclamado presidente interino quando voltasse ao país, depois de ter violado a ordem do Tribunal Supremo de se ausentar. Quem afinal estava à espera de Guaidó era uma multidão de apoiantes e vários embaixadores acreditados em Caracas.

“Entrámos na Venezuela como cidadãos livres, que ninguém diga o contrário”, disse à chegada, aos jornalistas, o presidente interino reconhecido por mais de 50 países. Minutos mais tarde, na Praça de Las Mercedes, em Caracas, falando à multidão, sublinhou: “Estamos muito mais fortes do que nunca.”

 

 

Guaidó estava fora da Venezuela desde o dia 22 de fevereiro, tendo aproveitado para fazer um périplo por vários países que apoiam a sua causa, como Colômbia, Brasil, Argentina, Paraguai e Equador.

“Regresso para fortalecer a pressão interna que permita libertar o nosso país”, sublinhou Guaidó, que manteve a forma de regresso à Venezuela sob segredo até ao último momento (chegou num avião proveniente do Panamá) para evitar a ação judicial: o Tribunal Supremo da Venezuela emitiu uma ordem a proibi-lo explicitamente de sair do país, algo que Guaidó violou a 22 de fevereiro quando atravessou uma ponte fronteiriça com a Colômbia para liderar a entrada da ajuda humanitária, proveniente sobretudo dos EUA, que foi impedida de entrar pelo governo de Nicolás Maduro.

  • Momentos depois de o autoproclamado presidente ter posto os pés de novo em solo venezuelano, o vice-presidente dos Estados Unidos publicava no Twitter uma advertência explícita ao executivo venezuelano:

“Qualquer ameaça, violência ou intimidação contra ele não será tolerada e será respondida rapidamente.”

  • Já John Bolton, o conselheiro nacional de segurança norte-americano, avisara no domingo que se Guaidó fosse impedido de regressar ou fosse detido, haveria uma resposta firme de Washington.

À chegada, numa manifestação na Praça Alfredo Sadel, Guaidó

  • apelou a uma nova mobilização contra o governo no próximo sábado
  • e voltou a instigar os militares a desertarem:

“As forças armadas, de que mais estarão à espera? Já viram como mais de 700 oficiais estão do lado da Constituição e andam por aí uns cínicos a dizer que é pouco”, referiu.

  • Maduro não tinha reagido ainda ao regresso de Guaidó na altura da escrita deste texto, mas a vice-presidente da Venezuela deixou no ar a ideia de que as autoridades se reservam o direito de tomar medidas contra o autoproclamado presidente.

“O seu comportamento, as suas atividades serão cuidadosamente analisadas pelas instituições do Estado”, disse Delcy Rodríguez.

“O governo venezuelano possui instituições sólidas e sustentáveis. Tudo isto está contemplado na nossa legislação penal e está contemplado também em tudo o que tem que ver com o marco jurídico das nossas instituições. Dessa maneira, as instituições venezuelanas continuarão a preservar o Estado de direito no país”,

acrescentou a vice-presidente numa entrevista ao canal de televisão russo RT.

Delcy Rodríguez encontrou-se no domingo com a presidente da câmara alta do parlamento russo, Valentina Matviyenko, que lhe transmitiu a preocupação de Moscovo quanto à possibilidade de uma intervenção militar dos EUA na Venezuela. Os russos “estão muito preocupados” com a possibilidade de Washington recorrer

“a qualquer tipo de provocação para gerar derramamento de sangue e arranjar uma razão e um pretexto para intervir na Venezuela”,

afirmou a política, citada pela agência TASS.

A vice-presidente venezuelana tem-se desdobrado em contactos com o governo russo nos últimos dias, nomeadamente com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, com quem acordou transferir a sede europeia da empresa pública de petróleos venezuelana, a PDVSA, de Lisboa para Moscovo.

Delcy Rodríguez refere que a decisão se prende com o facto de o espaço da União Europeia

“não dar garantia de respeito” pelos ativos da Venezuela – “países intolerantes que estão a despojar a Venezuela dos seus ativos”,

incluindo Portugal.

 

 

António Rodrigues

 

António Rodrigues

antoniorodrigues@newsplex.pt

 

Fonte: vhttps://sol.sapo.pt/artigo/648839/guaido-voltou-a-caracas-sem-problemas#

 

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