O Cardeal Marx acusa o Vaticano: destruídos dossiês sobre padres pedófilos, abolir o segredo pontifício

 Pela primeira vez um Cardeal denuncia publicamente a administração central da Santa Sé acusando-a de ter destruídos dossiês sobre padres pedófilos.
Sob alguns aspectos, é um “segredo de polichinelo” que na manhã do último sábado foi revelado pelo cardeal alemão Reinhard Marx, membro da C9 (o conselho que ajuda Papa Francisco a reformar a cúria) e relator no encontro sobre os abusos que se realizou no Vaticano.
A apresentação feita por ele colou em foco dois pontos principais da justiça do Vaticano, a falta de transparência e a falta de rastreabilidade nos processos canônicos contra os padres abusadores.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada por Il Messaggero, 23-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

“Os abusos sexuais contra crianças e jovens são em razoável medida devidos ao abuso de poder no âmbito da administração. A esse respeito – disse Marx – a administração não contribuiu para cumprir a missão da Igreja, mas, pelo contrário, a obscureceu, desacreditou e a tornou impossível. Os dossiês que poderiam ter documentado as terríveis ações e indicado o nome dos responsáveis foram destruídos ou nem mesmo criados. Em vez dos culpados, as vítimas foram repreendidas e o silêncio foi imposto a elas.

  • As práticas e os procedimentos estabelecidos para julgar os crimes foram deliberadamente desatendidos ou, aliás, apagados ou desconsiderados. 
  • Os direitos das vítimas foram, de fato, pisoteados e deixados a critério dos indivíduos.

São todos eventos em flagrante contradição com o que a Igreja deveria representar.

A maneira em que a administração da Igreja foi estruturada e executada

  • não tem contribuído para unir toda a humanidade
  • e aproximar mais os homens de Deus,
  • mas, ao contrário, violou tais objetivos.”

O cardeal explicou que os procedimentos administrativos só se tornam transparentes se forem

  • “compreensíveis e rastreáveis,
  • quem fez o quê, quando, porquê e para quê,
  • e o que foi decidido, rejeitado ou atribuído.

Assim, as pessoas que dispõem de uma administração transparente

  • podem trazer à luz erros e equívocos nas ações administrativas
  • e se defender contra tais ações.

Podem tornar, de forma vinculante, seu ponto de vista conhecido, e saber que será levado em conta.

As pessoas que buscam a administração

não devem se confrontar com uma estrutura de poder anônima, incompreensível,

mas podem exercer um controle autodeterminado sobre as práticas administrativas.

Sua análise se refere ao fato que

  • às vítimas – nos processos canônicos –
  • não é dada oportunidade de testemunhar em tribunal,
  • não são informados dos resultados do processo
  • e as sentenças permanecem secretas para o público. Marx acrescentou: “Não há alternativas à rastreabilidade e à transparência”.

Por fim, último ponto sobre o qual a assembleia dentro da cúpula sobre os abusos pareceria dividida, diz respeito à revogação do segredo pontifício sobre os processos.

“Qualquer objeção com base no segredo pontifício seria relevante apenas se pudessem ser indicados os motivos pelos quais o segredo pontifício deveria ser aplicado à repressão de crimes relativos aos abusos de menores. No atual estado das coisas, eu não tenho conhecimento de nenhum desses motivos”.

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Gianfranca Soldati

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/586934-o-cardeal-marx-acusa-o-vaticano-destruidos-dossies-sobre-padres-pedofilos-abolir-o-segredo-pontificio

 

 

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