“Os senhores se tornaram os assassinos das almas, os assassinos da fé”

 

CINCO TESTEMUNHOS ENCHEM DE VERGONHA E LÁGRIMAS A REUNIÃO DE CÚPULA CONTRA A PEDOFILIA

 

Jesus Bastante, 21 de fevereiro de 2019. Foto: Periodista Digital – Tradução: Orlando Almeida

Os sobreviventes exigem justiça da Igreja: “Se quisermos salvar a Igreja, os perpetradores devem ser punidos”

Toda vez que eu tinha um e que ele sabia disso, ele me batia. E essa era a condição para que ele pudesse me ajudar financeiramente. Ele me dava tudo o que eu queria quando eu aceitava as relações sexuais. Caso contrário, ele me batia”

 

 

“A primeira coisa que fizeram foi tratar-me como mentiroso, virar as costas e dizer que eu e outros éramos inimigos da Igreja.

Os 190 participantes do encontro anti-abusos do Vaticano

  • abaixavam a cabeça,
  • alguns esboçavam lágrimas,
  • outros não sabiam onde meter-se.

Francisco, profundamente comovido, ouvia com os olhos fechados, em atitude de oração.

O primeiro dia da cúpula convocada pelo Papa

  • teve como protagonistas absolutos as vítimas
  • e os seus testemunhos.

Cinco delas, quatro homens e uma mulher,

  • falaram num vídeo (embora os bispos escutassem apenas o som de suas vozes) brutal,
  • devastador,
  • que mostra claramente que ainda há muito a ser feito.

Video insertado

 EWTN Español@EWTNespanol – O  se dirige aos bispos do mundo na inauguração do Encontro sobre a proteção de menores, que começou no dia 21 de fevereiro em Roma.

Um homem latino-americano, uma mulher africana e três outros homens da Europa Oriental, da Ásia e dos Estados Unidos
  • foram debulhando, um por um,
  • as suas experiências de abusos,
  • a falta de resposta dos bispos,
  • a dupla vitimização que sofriam
  • e encheram de vergonha os rostos dos participantes.

“Os senhores se tornaram os assassinos das almas, os assassinos da fé”, cravou um dos sobreviventes. 

  • Se retornarem às suas casas sem que nada tenha mudado, 
  • não devem continuar a fazer parte da Igreja Católica.

 

Estes são, na íntegra, os cinco testemunhos da infâmia.

Primeiro testemunho

Antes de tudo, quero agradecer à Comissão por me permitir dirigir-me aos senhores hoje, e ao Santo Padre por todo o apoio e ajuda que nos deu nestes últimos tempos.

Pedem-me que fale sobre a dor do abuso sexual. É sabido por todos que o abuso sexual deixa uma tremenda sequela para todas as pessoas. Acho que não vale a pena continuar falando sobre isso, porque as sequelas são óbvias, em todos os aspectos, e ficam para toda a vida.

Eu gostaria mais de falar como católico, do que aconteceu comigo e do que gostaria de dizer aos bispos. Para uma pessoa como católica, a coisa mais difícil é poder falar sobre abuso sexual, mas uma vez que alguém se atreve a contar, no nosso caso por exemplo eu, a primeira coisa que pensei foi: estou me dirigindo  à Santa Madre Igreja , onde vão me ouvir e vão me respeitar.

A primeira coisa que fizeram foi

  • tratar-me como mentiroso,
  • virar as costas
  • e dizer que eu e outros éramos inimigos da Igreja.

Eu sei que estão aí conversando, sobre como terminar e como recomeçar e como reparar todo este dano.

Primeiro, perdões falsos, perdões forçados já não funcionam. As vítimas, é preciso acreditar nelas, respeitá-las, cuidar delas e repará-las.

  • É preciso dar reparação às vítimas,
  • é preciso estar com elas,
  • é preciso  acreditar nelas,
  • é preciso acompanhá-las.

Os senhores são os médicos das almas e, no entanto, com exceções, transformaram-se, em alguns casos, nos assassinos das almas, nos assassinos da fé.

Que contradição mais espantosa. Eu me pergunto o que estará pensando Jesus, o que estará pensando Maria, quando vê os seus próprios pastores serem aqueles que atraiçoam as ovelhas? Peço-lhes, por favor, que cooperem com a justiça, que tenha um cuidado especial com as vítimas.

 

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Vatican News

@vaticannews_it

. . Primeiro briefing no Augustinianum, dedicadoao Encontro sobre a Proteção dos Menores. Entre os temas tratados: a proximidade com as vítimas, o “road-map” suggerido pelo Papa Francisco e “o empenho do coração”  dos bispos. https://www.vaticannews.va/it/vaticano/news/2019-02/briefing-incontro-protezione-minori-ascolto-concretezza-vatiab.html 

 

Segundo testemunho

Pergunta. – Que foi o que mais te feriu na tua vida?

Resposta. – Desde quando tinha quinze anos mantinha relações sexuais com um sacerdote. Isso durou treze anos seguidos. Fiquei grávida três vezes, ele me obrigou a abortar três vezes. Simplesmente porque ele não queria preservativo nem outro método contraceptivo.

No começo eu tinha tanta confiança nele que não sabia que ele poderia abusar de mim. Eu tinha medo dele.

  • E toda vez que eu me negava a ter relações com ele,  ele me batia. Ele me espancava.
  • E como eu dependia totalmente dele economicamente, sofri todas as suas humilhações.
  • E tínhamos essas relações tanto na sua casa na aldeia, como no centro de acolhimento diocesano.
  • E nessa relação, eu não tinha o direito de ter um namorado.

Toda a vez que eu tinha um e ele sabia disso, me espancava. E era essa a condição para que ele pudesse me ajudar economicamente. Ele dava-me tudo o que eu queria quando eu aceitava as relações sexuais. Caso contrário, ele me batia.

D.- Como você assumiu todas essas feridas e como se sente neste momento?

Eu sinto que tenho uma vida arruinada. Eu sofri tais humilhações nesta relação, que não sei o que me reserva o futuro. Isso faz com que eu seja muito prudente nos meus relacionamentos atualmente.

D.- Que mensagem você gostaria de enviar aos bispos?

Deve ser dito que amar sinceramente é amar de graça.

  • Quando você ama alguém, pensa no futuro deles, pensa no bem-estar deles.
  • A pessoa não é abusada dessa maneira.
  • E deve ser dito que os sacerdotes, religiosos, têm os meios para ajudar e também têm os meios para destruir.
  • Eles devem se comportar de maneira responsável, como pessoas sensatas.

D.- Muito obrigado, a sua contribuição será muito, muito significativa para o encontro dos Bispos. Mais uma vez obrigado.

 

Terceiro testemunho

 Tenho 53 anos, sou um sacerdote religioso. Este ano é o 25º aniversário da minha ordenação. Estou agradecido a Deus. O que me feriu? Feriu-me conhecer um sacerdote. Quando eu era adolescente, depois da confissão, eu ia até ao padre para que me ensinasse a ler as Escrituras durante a missa, e ele tocava as minhas partes íntimas.

  • Passei uma noite na sua cama. Isso me magoou profundamente.
  • A outra coisa que me magoou foi o bispo a quem, depois de muitos anos como adulto, contei o que havia acontecido.
  • Fui  falar com ele junto com o meu provincial. Primeiro escrevi uma carta ao bispo, seis meses depois de uma entrevista com o sacerdote.

O bispo não me respondeu e depois de seis meses escrevi ao núncio. O núncio reagiu mostrando compreensão.

  • Então encontrei-me com o bispo
  • e ele me atacou sem tentar  entender-me ,
  • e isso me magoou.

Por um lado o sacerdote e pelo outro esse bispo que…

O que sinto? Sinto-me mal, porque

  • nem esse sacerdote nem o bispo responderam à minha carta,
  • e já se passaram oito anos e ele também não respondeu.

O que eu gostaria de dizer aos bispos?

  • Que eles escutem estas pessoas, que aprendam a escutar as pessoas que falam.
  • Eu queria que alguém me escutasse,
  • que soubesse quem é esse homem, esse sacerdote e o que ele faz.

Perdoo de todo o coração a esse sacerdote e ao bispo.

Dou graças a Deus pela Igreja, estou agradecido por estar na Igreja. Eu tenho muitos amigos sacerdotes que me ajudaram.

 

Quarto testemunho

Olá! Aprecio esta aproximação com os sobreviventes do abuso sexual do clero e estou feliz em participar deste projeto.

O que mais me magoou? Ao refletir sobre esta questão,

  • penso na totalidade… na plena realização da perda total da inocência da minha juventude e como isso me afetou hoje em dia.
  • Ainda há dor nos meus relacionamentos familiares. Ainda há dor com os meus irmãos. Ainda tenho dor.

Os meus pais ainda carregam a dor pela

  • disfunção, a traição, a manipulação que este homem mau, que era o nosso sacerdote católico nessa época,
  • nos fez, à minha família e a mim.
  • Então isso é o que mais me machucou e o que carrego comigo hoje.

Agora estou bem porque

  • encontrei esperança e cura
  • ao contar a minha história, ao compartilhar a minha história
  • com a minha família, minha esposa e meus filhos – minha família extensa –
  • os meus amigos,
  • e porque posso fazer isso, sinto-me mais confortável comigo mesmo e por como posso ser eu mesmo.

E finalmente o que eu quero dizer aos bispos – creio que é uma excelente pergunta:

  • Eu pediria aos bispos liderança.
  • Liderança, visão e coragem.
  • É isso o que eu respondo, é o que espero ver.

Tenho uma experiência pessoal de liderança e como isso me afetou pessoalmente.

Uma das minhas melhores lembranças do cardeal Francis George

  • é quando ele falou das dificuldades dos seus colegas padres que tinham cometido abusos.
  • E considerei que essas palavras, vindas de um homem na sua posição, embora deva ter sido muito difícil para ele dizê-las,  
  • eram  a coisa certa e apropriada para se dizer.

Eu pensei que isso era liderança naquela época e acho que é liderança agora. E pensei que

  • se ele podia pôr-se a si mesmo  lá fora e dar o exemplo,
  • então eu poderia pôr-me a mim mesmo lá fora,
  • e acho que outros sobreviventes e outros católicos e pessoas de fé
  • podem sair e pôr-se a trabalhar para conseguir uma solução,
  • e trabalhar para curar, e trabalhar por uma Igreja melhor.

É assim que  respondemos à liderança, olhamos para os nossos bispos em busca de liderança, pediria aos bispos que mostrem liderança. Obrigado.

 

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Foto: o grupo ECA se manifesta em Roma, durante A REUNIÃO DE CÚPULA CONTRA A PEDOFILIA –   Daqui – ECA Ending Clergy Abuse @ENDCLERGYABUSE

 

Quinto testemunho

Fui assediado sexualmente durante muito tempo, mais de cem vezes, e esse assédio sexual criou-me  traumas e lembranças durante toda a minha vida.

É difícil viver a vida, é difícil estar com as pessoas, relacionar-se  com as pessoas. Carreguei com esta atitude na minha família, com os meus amigos e até com Deus.

  • Toda vez que falei com os Provinciais e com os Superiores Maiores,
  • todos encobriram praticamente todas as questões,
  • encobriram os autores
  • e isso, às vezes, me mata.

Estou há muito tempo nesta batalha… e a maioria dos Superiores, por razões de amizade, são incapazes de detê-lo.

  • Peço aos Provinciais, aos Superiores Maiores e aos Bispos
  • que participam desta audiência que realizem ações firmes
  • que realmente coloquem o perpetrador no seu lugar.

Se queremos salvar a Igreja, os perpetradores devem ser castigados.

Vou pedir aos Bispos

  • que sejam claros nesta questão,
  • porque esta é uma das bombas-relógio que estão acontecendo na Igreja da Ásia.
  • Se querem salvar a Igreja, temos que agir juntos e fazer com que os perpetradores se deem por vencidos.

A amizade não deve prevalecer aqui, mas sim a ação, porque isto destruirá todas as nossas gerações de crianças. Como Jesus sempre disse, precisamos ser como crianças, não ser abusadores sexuais de crianças.

 

 

Jesús Bastante

 

https://www.periodistadigital.com/religion/vaticano/2019/02/21/testimonios-religion-iglesia-victimas-cumbre-antiabusos-vaticano-dolor-verguenza-lagrimas-soluciones-obispos-papa.shtml

 

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