Escravos da religião: inspeções no Brasil revelam o lado negro dos cultos

As vítimas não tinham jornada de trabalho estabelecida e não recebiam nenhuma remuneração pelas atividades. Eles trabalhavam em troca de casa e comida.

Fabio Teixeira – 21/02/2019 – Tradução: Orlando Almeida

Foto: As vítimas não tinham jornada de trabalho estabelecida e não recebiam nenhuma remuneração pelas atividades. Eles trabalhavam em troca de casa e comida. / Divulgação – Daqui

Inspetores do trabalho disseram que o trabalho para a Traduzindo o Verbo

  • não poderia ser considerado voluntário
  • porque os líderes estavam se enriquecendo
  • com o trabalho de seguidores que eram mantidos na pobreza.

 

 

RIO DE JANEIRO (Thomson Reuters Foundation) – Depois de quatro anos de silêncio, Ronaldo Soares recebeu uma mensagem de texto surpreendente da sua filha distante, num dia em dezembro passado.

  • “Ajude-me a sair daqui, por favor”, escreveu a jovem de 19 anos, membro de uma seita no Brasil, depois de roubar um telefone de outro membro da igreja onde ela era mantida em   escravidão doméstica.
  • “Eu quero sair daqui, pai. Quero falar com você, mas eles não me deixam”, dizia o texto da filha de Soares, que acompanhou a mãe em 2014 para se juntar à Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia – uma comunidade religiosa sediada em uma fazenda em Brasília.

Após preencher um boletim de ocorrência policial, Soares dirigiu por 600 km até à fazenda, recuperou a filha e voltou para casa.

A mulher, que recusou um pedido de entrevista, é mais uma vítima de abuso nas mãos de uma seita no Brasil – onde uma série de casos está sendo investigada pelas autoridades e provocando debates sobre onde terminam as práticas religiosas e começa a escravidão moderna.

As autoridades brasileiras têm como alvo a exploração do trabalho dentro das seitas, e no ano passado

  • encontraram 565 supostos escravos ligados a uma igreja – a Igreja Cristã Traduzindo o Verbo
  • que trabalhavam sob suas ordens em fazendas, fábricas e restaurantes de três estados.

Os dados sobre o número de pessoas que são escravizadas ou resgatadas da escravidão nas seitas religiosas brasileiras são escassos, mas o trabalho forçado é frequente em certos grupos, segundo ex-membros, policiais especialistas em religião entrevistados pela Fundação Thomson Reuters.

Seguidores das seitas que são explorados, mas não se veem como vítimas, são o maior obstáculo que as autoridades enfrentam quando instruem os  casos, de acordo com inspetores do trabalho e promotores.

“Essa é uma das grandes dificuldades para deter os empreendimentos criminosos (das seitas)”, disse Marcelo Campos, um inspetor do trabalho de Minas Gerais, que investiga a Traduzindo o Verbo, há anos.

  • Traduzindo o Verbo negou que os seus membros sejam mantidos como escravos,
  • enquanto a Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia recusou-se a comentar.
  • Duas outras igrejas acusadas de exploração, incluindo uma nos Estados Unidos, negaram todas estas denúncias.

 

A entrada do Ministério Evangélico Comunidade Rhema, um grupo religioso, em S. Paulo, Brasil 14 de fevereiro de 2019. Thomson Reuters Foundation/Fabio Texeira

 

MANIPULAÇÃO

Existem milhares de denominações de Cristianismo no Brasil – a quinta maior nação do mundo, com 210 milhões de pessoas – oferecendo variadas interpretações da Bíblia para todos os gostos.

Embora algumas religiões possam parecer incomuns, o que separa uma seita de uma religião legítima

  • não é seu conjunto de crenças,
  • mas o abuso de seus membros,

disse Rick Alan Ross, diretor executivo do Cult Education Institute, uma organização sem fins lucrativos dos EUA, de Nova Jersey.

  • (A escravidão moderna em seitas globalmente) existe muito mais do que imaginamos”, disse Ross.
  • “É bizarro, mas é verdade”. “Tem tudo a ver com isolamento e controle. 
  • Se você pode controlar o que (as pessoas) leem, veem e ouvem, você controla a mente delas”.

Um famoso curandeiro espiritual brasileiro – João Teixeira de Faria – foi acusado em dezembro de estupro e de agressão sexual depois de denúncias de centenas de mulheres que disseram que ele tinha abusado delas enquanto buscavam orientação espiritual ou cura psíquica.

Faria, conhecido como “João de Deus”, tornou-se uma celebridade depois que seus métodos de cura foram mostrados no programa de televisão de Oprah Winfrey em 2013 e atraiu milhares de brasileiros e estrangeiros ao seu centro de fé em Abadiânia, uma cidade do estado de Goiás.

No Ministério Evangélico Comunidade Rhema, um grupo religioso de Franco da Rocha, em São Paulo, os seguidores eram pressionados a “se abrirem” acerca dos seus medos e vergonha, disse Daniel – um ex-membro.

“Eles usam os seus medos contra você, se você não fizer o que lhe é dito”,

disse ele, recusando-se a dar o seu nome por medo de represálias. Ele trabalhou durante anos por pouco ou nenhum pagamento vendendo pinturas numa loja da qual um dos proprietários era um dos líderes da Rhema – um pastor.

 

ABUSADO NO EXTERIOR

Rodrigo, outro ex-membro, também disse que os funcionários da loja poderiam ficar meses ou anos sem receber compensação.

Mais de duas décadas desde que foi criado,

  • o Rhema1 enviou vários jovens para a Word of Faith Fellowship (WFF),
  • uma igreja norte-americana sediada na Carolina do Norte,

disse o Ministério Público do Trabalho em São Paulo, que investigou a seita brasileira.

Rodrigo foi um deles. Ele não era esperado apenas para orar e estudar mas para, forçado, fazer um trabalho árduo numa marmoraria.

“Uma vez eu disse a um irmão que esse trabalho não era apropriado para um ser humano”, disse ele, acrescentando que fora punido por reclamar.

Rodrigo recusou-se a dar o seu verdadeiro nome porque toda a sua família faz parte do Rhema. Ele saiu quando completou 18 anos, cinco anos atrás.

O WFF negou as denúncias de tráfico e trabalho forçado.

“Ninguém é forçado a trabalhar contra a sua vontade”,

disse um advogado da Igreja dos EUA num email.

“Em 2018, um tribunal do trabalho brasileiro de São Paulo examinou essas denúncias ou similares (contra Rhema). A Rhema brasileira (e, por consequência, a WFF) foi absolvida”.

O Departamento de Investigações do Estado da Carolina do Norte tem uma investigação em aberto sobre a WFF e “teve muitos casos com eles”, disse o porta-voz Gerald Thomas, sem fornecer mais detalhes.

O Ministério Público Federal do Brasil disse que Rhema ainda está sob investigação criminal relacionada ao inquérito sobre abuso de trabalho.

Um advogado de Rhema negou as reivindicações de seus antigos membros.

  • “Uma pessoa que está sendo escravizada não retorna a um lugar por 15, 20 anos”, disse o advogado Jonatas Granieri.
  • “Esta (investigação federal) é uma perseguição que a Bíblia … (e) Jesus nos disse que aconteceria nos últimos dias”.

 

Resultado de imagem para grupo religioso Traduzindo o Verbo. 

 Ministério do Trabalho começa a ouvir trabalhadores de restaurante ligado a seita – G1 – Globo

 

VÍTIMA OU SEGUIDOR?

  • Dias depois de Soares ter recuperado a sua filha em dezembro,
  • a polícia foi à fazenda e encontrou duas mulheres trancadas numa casa.
  • Eles resgataram uma, mas a outra disse que estava livre e permaneceu lá.

“Ela estava claramente intimidada… Mas ela é maior de idade e disse isso na frente de pessoas, então não havia nada que pudéssemos fazer”, disse Vander Braga, o oficial de polícia que liderou a operação de resgate.

Um advogado da Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia recusou-se a comentar.

Em casos envolvendo religião,

  • é difícil para os promotores asserir a distinção entre trabalho forçado e trabalho voluntário,
  • segundo o procurador do trabalho Geraldo Emediato de Souza.

Souza

  • está processando a Traduzindo o Verbo num caso civil de mais de 50 milhões de reais (13,5 milhões de dólares)
  • por supostos abusos trabalhistas em 2013,
  • quando cerca de 150 trabalhadores foram identificados pelos funcionários
  • como estando em condições de escravidão em fazendas ligadas à igreja.

“Nós temos relatos de abusos trabalhistas nas fazendas deles desde 2005”, disse ele.

 

Durante a incursão de um dia inteiro na Traduzindo o Verbo no ano passado,

  • que identificou 565 pessoas em situação de escravidão,
  • nenhuma das supostas vítimas pediu para ser resgatada,
  • disse um relatório dos inspetores do trabalho sobre a operação que envolveu cerca de 200 funcionários do governo.

Um advogado da igreja, que agora está sob investigação por suspeita de manter seus seguidores em condições de escravidão, destacou o fato de que nenhum de seus membros falou de abusos.

“Não parece estranho… que entre todas as operações… nenhum ‘escravo’ tenha sido resgatado?”, disse Raimundo Oliveira da Costa, o advogado da Traduzindo o Verbo. Ele se recusou a comentar mais sobre denúncias específicas contra a igreja.

 

Foto: Polícia Federal cumpriu 22 mandados de prisão preventiva – Daqui

Inspetores do trabalho disseram que o trabalho para a Traduzindo o Verbo

  • não poderia ser considerado voluntário
  • porque os líderes estavam se enriquecendo
  • com o trabalho de seguidores que eram mantidos na pobreza.

Um relatório dos inspetores do trabalho sobre a operação de 2018 disse que

  • os pastores da igreja convidavam os pobres,
  • incluindo dependentes de drogas em recuperação,
  • para morar em casas compartilhadas em vários locais de São Paulo.

Esses seguidores eram pressionados a doar os seus bens e a trabalhar para empresas ligadas à igreja, segundo o relatório.

Em pelo menos 67 casos,

  • os membros da Traduzindo o Verbo eram oficialmente demitidos,
  • mas ainda assim forçados a trabalhar para a igreja
  • embora não recebendo indenizações de desemprego,

disseram os inspetores do trabalho.

Investigadores disseram que o esquema fraudou o sistema previdenciário brasileiro em cerca de 240.000 reais (64.830 dólares).

 

CICATRIZES DURADOURAS

Soares ainda não sabe falar como falar com a filha sobre o que aconteceu a seita. Por enquanto, ele dá espaço para ela.

“Eu vejo que ela não está normal, mas eu não quero entrar em detalhes”, disse ele. “Estou esperando por justiça”.

Rodrigo ainda está bravo com o abuso que sofreu quando era menor, como ser socado no estômago até vomitar “demônios”.

Para ele, era normal, algo que todos experimentavam.

Foi preciso conhecer pessoas de fora da seita para perceber que a sua religião era abusiva – uma história comum entre várias vítimas entrevistadas pela Fundação Thomson Reuters.

Rodrigo não odeia os seus pais, ele os vê como vítimas. Às vezes, ele deseja poder voltar no tempo e retornar ao culto – encorajado pela sua visão atual das práticas deles.

“Eu gostaria de poder voltar lá (para Rhema) com o conhecimento que tenho hoje. Eu iria mostrar a eles, os filhos da puta”.

 

Reportagem de Fabio Teixeira, Reportagem Adicional de Ellen Wulfhorst em Nova York, Edição de Kieran Guilbert. Por favor, credite à Thomson Reuters Foundation, o braço de caridade da Thomson Reuters, que cobre notícias humanitárias, direitos das mulheres e LGBT +, tráfico humano, direitos de propriedade e mudanças climáticas. Visite www.trust.org

 

1 Rhema (ῥῆμα) – palavra.

 

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Fabio Teixeira

 

Fontes: https://www.reuters.com/article/us-brazil-religion-trafficking-insight/slaves-to-religion-brazil-raids-expose-dark-side-of-cults-idUSKCN1QA0JJ

 

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