O que motivaria espionagem à Igreja Católica?

Robson Sávio Reis Souza
Imagem:  Brasil247
Um dos assuntos mais comentados nesse segundo final de semana de fevereiro é a reportagem do Estadão sobre as ações do Planalto para “combater o clero de esquerda”.

Segundo apurou o jornal paulista, o governo Bolsonaro

  • pretende conter o que considera “um avanço da Igreja Católica na liderança da oposição,
  • no vácuo da derrota e perda de protagonismo dos partidos de esquerda”.

 

 

Um alerta da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e dos comandos militares relatam

  • recentes encontros de cardeais brasileiros com o Papa Francisco, no Vaticano,
  • para discutir a realização do Sínodo sobre Amazônia,
  • que reunirá em Roma, em outubro, bispos de todos os continentes.

O debate irá abordar

  • a situação de povos indígenas,
  • mudanças climáticas provocadas por desmatamento
  • e a questões ligadas aos quilombolas e às comunidades tradicionais amazônicas.

Ainda segundo a reportagem, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), comandado pelo General Heleno, também monitora o clero e lideranças católicas através de informações do Comando Militar da Amazônia e do Comando Militar do Norte.

Será mesmo que o Sínodo da Amazônia é a razão da arapongagem oficial à Igreja Católica?

Vejamos:

1. A Igreja Católica e a Ditadura Militar:

Como é sabido,

  • apesar de ter apoiado o golpe militar de 1964,
  • a igreja católica foi a instituição que veio a ocupar o lugar de protagonismo
  • nas denúncias contra as barbaridades praticadas durante da ditadura.

Foram vários os bispos e lideranças católicos que tomaram dianteira na luta contra a regime militar. Uma das figuras mais emblemáticas

  • para a repercussão internacional das graves violações aos direitos humanos praticadas no período
  • foi o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara,
  • que viajou o mundo inteiro à época denunciando os horrores da ditadura.

A partir de 1968, auge da tortura com o AI 5, as peregrinações do arcebispo renderam-lhe quase duas dezenas de títulos de doutor honoris causa em universidades nos Estados Unidos e na Europa. As viagens ao exterior daquele que era chamado de “arcebispo vermelho” pelos militares eram cobertas com atenção pela imprensa internacional. Na França, por exemplo,

  • Dom Helder participava de debates transmitidos ao vivo pela TV.
  • O arcebispo escancarou para o mundo o que ocorria nos porões da ditadura.

Dom Helder foi perseguido de várias formas.

  • O Padre Antônio Henrique, amigo pessoal e assessor da Pastoral da Juventude,
  • foi sequestrado em maio de 1969, torturado e morto na madrugada do dia 27
  • por um grupo do Comando de Caça aos Comunistas e por agentes da polícia civil de Pernambuco.

O crime do Padre Antônio Henrique Pereira Neto foi oficialmente esclarecido pela Comissão da Verdade de Pernambuco. Como conclusão da investigação,

  • a morte do padre foi considerada um crime político,
  • contrariando as várias versões oficiais defendidas na época,
  • de que teria sido um homicídio comum, até relacionado a drogas ou passional.
  • Os detalhes foram apresentados no relatório do Volume 2, do Caderno da Memória e Verdade da Comissão, em 2017.

Segundo a Comissão da Verdade de Pernambuco, a morte foi uma forma utilizada por membros da ditadura militar para coibir as atitudes libertadoras de Dom Hélder Câmara.

Os militares sabem muito bem que,

  • apesar da Igreja Católica ter perdido influência política nos últimos tempos,
  • a instituição ainda goza de muita credibilidade
  • e, além de grande capilaridade no país,
  • poderá reeditar, no plano internacional, denúncias de violações de direitos que venham a ser institucionalizadas pelo governo atual.

Portanto, o enquadramento do episcopado nesse início de governo pode ser uma forma de dar um recado à CNBB, haja vista a experiência pretérita.

Porém, como ocorrera durante a ditadura,

  • para além dos bispos,
  • milhares de sacerdotes, religiosas, religiosos e leigos católicos
  • atuam nas bases da sociedade
  • e agem diferente dos neopentecostais católicos da atualidade.

Esses líderes não estão dispostos a ficarem somente louvando a Jesus enquanto a violência e as violações aos direitos humanos país assombram o país afora.

2. O “perigoso comunista” Papa Francisco:

É de conhecimento geral que o Papa Francisco é um oponente ferrenho de pelo menos dois dos principais motes do governo Bolsonaro:

  • o ultraliberalismo
  • e o menosprezo aos segmentos mais vulneráveis da sociedade,
  • aqui inclusos indígenas e comunidades tradicionais.

Francisco, honrando aquele que lhe empresta o nome, é um defensor radical da natureza. Na encíclica “Laudato si’, sobre o cuidado da Casa Comum”, de 2015, o Papa Francisco

  • critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável
  • e faz um apelo à mudança e à unificação global das ações
  • para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas.

Sobre o aquecimento global, por exemplo, escreveu o Papa:

“A humanidade é chamada a reconhecer a necessidade de mudanças de estilo de vida, produção e consumo, a fim de combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou agravam”.

No ano passado, o Papa aprovou e mandou divulgar um documento sobre questões financeiras sob o título de

“Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro”.

Trata-se de

  • um estudo recheado de análises técnicas,
  • que é um verdadeiro petardo sobre a forma como o sistema financeiro neoliberal
  • está escravizando o mundo e e promovendo uma das maiores concentrações de renda da história do capitalismo.

Por diversas vezes Francisco tem demonstrado e denunciado o domínio de uma “economia que mata” e exclui.

  • Denuncia governos submissos à ditadura do capital
  • e que colocam os seres humanos, principalmente os que chama de“descartáveis” em segundo plano.

Em relação ao Brasil, o Pontífice deu vários sinais de discordância

  • de políticas neoliberais tomadas durante o governo Temer,
  • sem contar sua posição contrária aos “golpes brandos” que aconteceram na América Latina,
  • incluso o impeachment de Dilma Rousseff.

É óbvio que os generais sabem que

  • o Papa Francisco acompanha a muito tempo a situação política e social brasileira
  • e, apesar de não interferir diretamente nos assuntos domésticos,
  • tem sinalizado ao episcopado nacional que a igreja tem lado:
  • dos pobres e dos excluídos; na defesa dos direitos humanos e da dignidade humana; na defesa da natureza.

Ademais, grupos bolsonaristas em redes sociais e na mídia empresarial não cansam de acusar Francisco de comunista. E, como o fantasma do comunismo à brasileira virou um grande problema para setores do atual governo, nada melhor que criar condições para se tentar atacar e deslegitimar o pontífice (alvo de ataques, inclusive, de setores ultraconservadores da Igreja Católica).

Certamente, sob Francisco, o apoio da Igreja

  • aos indígenas,
  • às comunidades tradicionais
  • e à preservação do meio ambiente
  • serão reafirmados no Sínodo.

Gostem ou não os generais brasileiros.

 

3. A velha política do inimigo interno:

Mas, talvez,

  • a principal questão que está por detrás da arapongagem da Igreja Católica
  • seja a reedição da velha política de perseguição aos “inimigos internos”,
  • tão cara a segmentos das Forças Armadas desde a década de 1960.

Trata-se da “doutrina da segurança nacional”.

Por incrível que possa parecer, essa política urdida durante a ditadura militar fez com que os órgãos de inteligência brasileiros, sempre ligados às Forças Armadas, desenvolvessem uma metodologia de monitoramento, vigilância e repressão a

  • movimentos sociais,
  • eclesiais,
  • partidos de esquerda
  • e organizações não-governamentais

em detrimento de cuidar da espionagem internacional que atenta contra a soberania do país.

Ou seja,

  • ao invés de utilizar recursos de espionagem e contraespionagem para proteger o país da cobiça internacional,
  • ainda mais em tempos de neocolonialismo norteamericano
  • e do incremento das máfias internacionais corporativas mundo afora,
  • os órgãos de inteligência, inclusive depois da redemocratização,

continuaram com a velha política de caça aos inimigos internos, base inclusive da política de segurança pública brasileira até os nossos dias…

Essa situação ficou evidente no debate havido entre o general Heleno e a ex-presidenta Dilma Rousseff no início de janeiro passado.

Como se sabe, ao assumir o cargo de ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o mesmo general Augusto Heleno disse que

  • a ex-presidente Dilma Rousseff destruiu o sistema de inteligência no país
  • e que o governo de Jair Bolsonaro terá um “trabalho penoso” pela frente:
  • “Esse sistema foi recuperado pelo general Etchegoyen e foi derretido pela senhora Rousseff, que não acreditava em inteligência”,

declarou Heleno, na solenidade de transmissão de cargo.

Na sequência a ex-presidenta explicitou a velha política que sempre direcionou os serviços de inteligência brasileiros.

Em suas contas nas redes sociais Dilma escreveu:

“De fato, durante meu mandato,

  • tive várias situações de manifesta ineficácia do GSI e do sistema de inteligência a ele articulado.
  • Houve falha, por exemplo, ao não detectar e impedir o grampo feito ilegalmente no meu gabinete, em março de 2016 – sem autorização do Supremo Tribunal Federal –,
  • quando foi captado e divulgado meu diálogo com Luiz Inácio Lula da Silva, às vésperas dele ser nomeado para a Casa Civil.

O caso mais grave, entretanto, ocorreu em 2013, por ocasião da espionagem feita

  • em meu gabinete,
  • no avião presidencial
  • e na Petrobras

pela National Security Agency (NSA), a agência de inteligência dos EUA.

Os setores da inteligência brasileira

  • não só desconheciam que a interferência vinha ocorrendo há tempo – só souberam após o caso Snowden –
  • como sequer sabiam os meios necessários para bloqueá-la.
  • Nem mesmo sabiam o que havia sido captado pela NSA nos referidos grampos.

Uma “inteligência” ligada à Presidência da República que não tem

  • conhecimento,
  • capacidade
  • e tecnologia

para enfrentar a moderna espionagem cibernética não é crível.

Na verdade, a própria defesa da soberania do país

  • exige que nela não se acredite
  • para que se possa tomar todas as medidas necessárias para torná-la efetiva e contemporânea.”

Portanto, a “inteligência” da Abin e do GSI ao que tudo indica continuou preocupada com os “inimigos internos”.

E, atualmente, enquanto

  • o país se transforma numa republiqueta vassala dos Estados Unidos;
  • nossas reservas petrolíferas e minerais são abocanhadas por multinacionais;
  • nossas empresas de tecnologia, com a Embraer, “voam” para o Norte

e a Amazônia vai sendo preparada para a invasão externa de ianques à caça

  • de metais preciosos
  • e de uma incalculável biodiversidade,
  • sem contar a fúria predatória do agronegócio nacional que não tem ética, nem pudor,

a “inteligência” continua à caça dos “perigosíssimos” inimigos internos.

Como se pode perceber,

  • o sínodo da Amazônia pode se constituir como mais uma justificativa para a espionagem da sociedade civil,
  • sob o pretexto de vigilância do clero “esquerdopata”.

Afinal, até medida provisória, a de número 870/2019, já foi enviada ao Congresso para vigiar organizações não-governamentais. Há “inimigos”pra todo lado…

Ao que tudo indica, esse conjunto de ações são uma reedição da velha política da caça ao inimigo interno. Com o Supremo, com tudo, diga-se de passagem…

 

Robson Sávio Reis Souza

Fonte: https://www.brasil247.com/pt/colunistas/robsonsavioreissouza/383424/O-que-motivaria-espionagem-%C3%A0-Igreja-Cat%C3%B3lica.htm

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