Desenvoltura de vice Mourão desperta a ira de evangélicos

Líderes de igrejas e parlamentares querem que Bolsonaro desautorize o vice no episódio da transferência da embaixada do Brasil em Israel

Vice presidente Hamilton Mourão
Pedro Venceslau e Valmar Hupsel – 10 fev 2019
Foto: Vice presidente Hamilton Mourão Adriano Machado / Reuters

O discurso independente e a desenvoltura do vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) desgastaram a relação do Palácio do Planalto com o setor evangélico, considerado fundamental na eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Nos últimos dias, líderes de igrejas que durante a campanha apoiaram explicitamente o candidato do PSL e representantes do segmento no Congresso expuseram a insatisfação com o vice, principalmente após ele se manifestar contra a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

 

As lideranças religiosas e parlamentares da bancada evangélica pretendem pressionar o presidente para que ele desautorize publicamente o vice – Bolsonaro permanece internado em São Paulo se recuperando da cirurgia para a reconstrução do trânsito intestinal.

Na condição de presidente em exercício, Mourão recebeu no último dia 28 o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, e defendeu a posição que contraria manifestações anteriores do próprio Bolsonaro.

  • Com 108 deputados e 10 senadores na atual Legislatura,
  • a Frente Parlamentar Evangélica,
  • que tem uma atuação historicamente coesa em defesa de suas bandeiras,
  • terá um peso decisivo para a agenda do governo no Congresso Nacional.

“Vamos cobrar (do Bolsonaro) o cumprimento daquilo que foi tratado. Se o Mourão está a serviço de algum grupo de interesse contrário a que isso aconteça, tenho convicção que ele perdeu essa queda de braço. Mourão é um poeta calado. Sempre que abre a boca cria um problema para o governo”,

disse ao Estado o deputado Sóstenes Cavalcante (DEMRJ), principal porta-voz da Frente. O deputado deve assumir a presidência do grupo nos próximos dias. O atual presidente, deputado Hidekazu Takayama (PSCPR), não se reelegeu.

Os evangélicos ficaram também incomodados com o vice

  • por causa de uma entrevista na qual ele defendeu que o aborto é uma escolha da mulher.
  • O ponto central das queixas, contudo, é a questão da mudança da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém.

“Esse foi um compromisso de campanha do presidente da República com nosso seguimento. Nós não pedimos muitas coisas a ele, mas essa foi uma delas”,

disse Sóstenes.

Por que o Mourão, sabendo das bandeiras do Bolsonaro, não se manifestou antes da eleição? É uma coisa feia esconder suas convicções. Faltou protocolo e ética no exercício da função dele. Mourão está fazendo campanha para 2022, mas a ala conservadora não vota nele nunca”,

disse ao Estado o pastor Silas Malafaia, líder da igreja evangélica Vitória em Cristo e presidente do Conselho dos Pastores do Brasil.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconheceu Jerusalém capital de Israel em dezembro de 2017. Cinco meses depois, a embaixada norte-americana foi transferida para lá. Para o bispo e presidente do Ministério Sara Nossa Terra, Robson Rodovalho, a mudança da embaixada “facilitaria muito” a viagem de brasileiros a Israel e estimularia a ampliação da oferta de voos.

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Fachada da embaixada do Brasil em Tel Aviv, Israel – Jack Guez – 28.out.2018/AFP

Os contrários à mudança

  • alertam para os potenciais prejuízos para as exportações brasileiras para países árabes,
  • que estão entre os principais importadores de carne bovina e de frango do País.

O Brasil pode também receber pressão da comunidade internacional. Para a ONU, o status de Jerusalém deve ser decidido em negociações de paz.

  • “Quando o Bolsonaro se recuperar, vamos marcar uma audiência com ele.
  • A ideia é levar uma carta deixando claro nossa insatisfação.
  • Hoje, o Mourão é uma instituição e deveria guardar as opiniões para ela”,

disse o deputado federal Filipe Barros (PSLPR). Na semana passada, outros parlamentares usaram a tribuna da Casa para criticar publicamente o vice.

 

Forças Armadas

Segundo fontes do primeiro escalão das Forças Armadas ouvidas pelo Estado,

  • Mourão age de forma “coerente” com o pensamento dos militares,
  • especialmente quando faz críticas à política externa
  • e sinaliza que a prioridade do governo
  • deve ser a agenda econômica, e não a de costumes.

Ao desautorizar o chanceler Ernesto Araújo sobre a oferta de uma base no Brasil para os EUA, Mourão reproduziu a linha de pensamento dominante nas Forças Armadas, que contam com sete quadros no primeiro escalão e representam um dos pilares da administração.

Procurada, a assessoria do vice disse que ele não iria se manifestar.

 

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Pedro Venceslau e Valmar Hupsel

Fonte: https://www.terra.com.br/noticias/desenvoltura-de-mourao-desperta-a-ira-de-evangelicos,dc6794eddfbe224a4c3210c42673fd46ag6tj9cj.html

 

 

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