Na visita a Emirados Árabes, Papa Francisco fala à ‘periferia’ católica

Um milhão de fiéis no país da Península Arábica são estrangeiros; monarquia não autoriza proselitismo religioso fora do Islã

Visita do Papa agitou comunidade católica nos Emirados Árabes, formada principalmente por indianos e filipinos que trabalham no país Foto: Richard Furst

Richard Furst, especial para O Globo – 04/02/2019

Foto: Richard Furst – Visita do Papa agitou comunidade católica nos Emirados Árabes, formada principalmente por indianos e filipinos que trabalham no país.

— A fraternidade humana exige de nós, representantes das religiões, o dever de banir qualquer nuance de aprovação da palavra guerra — disse o Papa Francisco. —  Em nome de Deus, é necessário condenar sem hesitação toda forma de violência, porque usar o nome de Deus para justificar o ódio e a violência contra o irmão é uma grave profanação.

 

ABU DHABI — Nos corredores de um dos mais luxuosos hotéis do mundo, caminha cabisbaixo Sebouh Sarkissian, de 73 anos. Ele chama a atenção porque usa uma túnica diferente de todos os outros que estão ali. Parece estar longe de toda a movimentação de turistas que disputam a melhor foto em frente às pedras de mármore, num lugar privilegiado no litoral de Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos , que recebe o Papa Francisco numa visita histórica.

Sarkissian entra em um salão no subsolo onde conversam líderes religiosos:

  • rabinos,
  • padres,
  • imãs
  • e monges budistas.

Ali, ele é um a mais: Sebouh Sarkissan é o arcebispo da igreja ortodoxa armênia em Teerã, no Irã, e veio participar pela terceira vez do encontro inter-religioso “Fraternidade Humana”, em Abu Dhabi.

— Num lugar onde as pessoas vêm para destacar tanto o consumismo, se depender de nós aqui reunidos, vamos mostrar que as religiões podem ter espaço em todos os lugares. Precisamos da força do Papa Francisco, nesta visita que já tem efeitos econômicos, políticos e religiosos de forte impacto para os países árabes e para Roma — pontuou o arcebispo.

 

Arcebispo armênio do Irã, Sebouh Sarkissian Foto: Richard Furst

Arcebispo armênio do Irã, Sebouh Sarkissian.  Foto: Richard Furst

Em seu discurso desta segunda, o Papa pediu o fim das guerras no Oriente Médio, cujas “consequências nefastas” são visíveis atualmente “no Iêmen, na Síria, no Iraque e na Líbia”.

— A fraternidade humana exige de nós, representantes das religiões, o dever de banir qualquer nuance de aprovação da palavra guerra — disse. —  Em nome de Deus, é necessário condenar sem hesitação toda forma de violência, porque usar o nome de Deus para justificar o ódio e a violência contra o irmão é uma grave profanação.

Os Emirados fazem parte, junto com a Arábia Saudita, da coalizão que interveio no Iêmen em 2015 em favor de um governo aliado deposto pelos rebeldes pró-Irã houthis.

A vinda do chefe da Igreja Católica a Abu Dhabi tem poder simbólico mais forte do que a viagem a outros países muçulmanos, como
  • a Turquia em 2014,
  • o Azerbaijão em 2016,
  • o Egito em 2017
  • e o Marrocos, que o Papa Francisco visitará em 30 e 31 de março.

Isso porque os Emirados reúnem os dois elementos por que Francisco tem se mostrado atraído:

  • o diálogo religioso
  • e as visitas às “periferias” da fé católica.

Nesse caso,

  • não por ser um país à margem do desenvolvimento global,
  • mas por reunir uma comunidade católica importante, formada por trabalhadores estrangeiros.

O território árabe de 10 milhões de habitantes, que se tornou independente do Reino Unido em 1971, tem uma das rendas per capita mais elevadas do mundo. As principais cidades, Abu Dhabi e Dubai, ostentam a riqueza do país, baseada na produção de petróleo.

  • Seus 1 milhão de católicos, ou 10%  da população,
  • vêm em sua maioria das Filipinas e da Índia,
  • e, pela legislação local, devem deixar o país ao se aposentarem.

— A vida não é fácil para mim aqui. Primeiro, porque estou longe da minha família; depois, porque temos que trabalhar muitas horas para conseguir dinheiro. Agora vem uma felicidade de encontrar o Papa e rezar por momentos melhores

afirma, enquanto espera na fila para buscar um ingresso da missa que será celebrada pelo Pontífice nesta terça-feira, no Estádio Zayed Sport City, em Abu Dhabi.

Sem proselitismo

Ibrahim Isaac Sidrak, patriarca copta-Católico do Egito (à esquerda), e Camillo Ballin, vigário apostólico da Arábia do Norte Foto: Richard Furst
Ibrahim Isaac Sidrak, patriarca copta-Católico do Egito (à esquerda), e Camillo Ballin, comboniano italiano, vigário apostólico da Arábia do Norte – Foto: Richard Furst

 

As nove igrejas católicas dos Emirados têm sinos. Mas eles não tocam.

  • Apesar de ser permitida a construção, templos cristãos, hindus ou budistas
  • não podem ter simbologia religiosa nas fachadas.

Embora o Estado

  • afirme publicamente um compromisso com a liberdade religiosa individual,
  • na legislação do país, que tem entre suas fontes a lei islâmica (sharia),
  • somente os muçulmanos têm direito ao proselitismo.

Proíbe-se a apostasia dos muçulmanos ou sua mudança de religião.

— Agora, a visita papal não é apenas aos Emirados, mas para o mundo. Francisco constrói um momento novo para o diálogo entre cristãos e muçulmanos ao quebrar esta barreira e vir até nós —

diz Maqsoud Kruse, que tem dupla cidadania emirati e alemã e coordena pesquisas nos Emirados contra o extremismo religioso.

 

Maqsoud Kruse, Diretor Executivo do Hedayah, o Centro Internacional de Excelência para Combater o Extremismo Violento, desde a fundação, em dezembro de 2012 Foto: Richard Furst
Maqsoud Kruse, Diretor Executivo do Hedayah, o Centro Internacional de Excelência para Combater o Extremismo Violento, desde a fundação, em dezembro de 2012. Foto: Richard Furst

A missa deverá ser a única chance de a população ver o Papa durante a visita, nem que seja de longe. Os demais encontros serão fechados, e o pontífice só deve usar o papa-móvel nos arredores do estádio onde a missa será celebrada, na terça-feira, para um público estimado em 135 mil pessoas. Os outros trajetos têm sido feitos de van ou num carro popular, escolhidos por Francisco.

— Eu tinha a curiosidade de vê-lo de perto, mas não consegui ingresso para a missa. Mas já está sendo curioso ver alguns momentos da visita pelos telões, como o momento da chegada com danças tradicionais e o abraço entre diferentes religiosos —

diz um jovem indiano que veio até a praça em frente ao estádio onde a missa será rezada.

Os ingressos para a missa foram distribuídos nas igrejas dos Emirados, e a comunidade católica teve preferência. Outro momento  importante da visita acontece na  tarde desta segunda-feira, quando Francisco se reúne com os membros do Conselho Muçulmano de Anciãos na Grande Mesquita de Abu Dhabi, que acomoda até 40 mil pessoas.

 

 

Richard Furst

Fonte: https://oglobo.globo.com/mundo/na-visita-emirados-arabes-papa-francisco-fala-periferia-catolica-23426445

 

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