“Ora et labora”, a face surpreendente da Igreja no berço do Islão

 

GIANNI VALENTE –  01/02/2019

Foto: A mesquita de Abu Dhabi dedicada a Maria, “mãe de Jesus”Daqui

Tradução: Orlando Almeida

Nos Emirados e em outros países da Península Arábica, a ordem estabelecida, de matriz islâmica, funcionou como cenário para um fenômeno singular de florescimento eclesial. E a aproximação amistosa de Francisco com os irmãos islâmicos parece estar em harmonia com a perspicácia apostólica dos bispos católicos que atuaram naquelas terras nas últimas décadas.

 

Imagem relacionadaEm Abu Dhabi, desde 2017, existe uma mesquita dedicada a Maria, a “mãe de Jesus”. Foi o príncipe Sheikh Mohammad Bin Zayed Al Nahyan (Na foto: wam.ae, vice-comandante supremo das Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos, que pediu que o lugar de culto muçulmano fosse re-intitulado com o nome de “Maryam ‘Isa umm” .

  • Uma escolha – explicou o príncipe na época – colocada em prática
  • para “consolidar os laços da humanidade entre os crentes de religiões diferentes”
  • e lembrar “os muitos pontos em comum entre o Islão e o cristianismo”.

No país da Península Arábica que o Papa Francisco se prepara para visitar,

  • a atual liderança visa convencer que
  • a tolerância inclusiva é uma característica distintiva de sua estratégia política nacional e internacional.

Há três anos, os governantes criaram o Ministério da Felicidade e da Tolerância,

  • que tem também a tarefa de “afirmar a tolerância como valor fundamental da sociedade dos Emirados Árabes Unidos”.
  • Sobre o futurístico canal de Dubai foi construída também a “Ponte da Tolerância”.

A bandeira da tolerância não é içada apenas por motivos de imagem. Serve também

  • para fornecer conteúdos ideais às políticas de rígido controle estabelecidas
  • para prevenir qualquer infiltração e contágio de cunho jihadista e “takfir”.

As mesmas políticas que em 2015

  • produziram também a lei contra crimes ligados ao ódio religioso.
  • E que também determinam o monitoramento contínuo exercido pelo governo e pelos aparatos de segurança sobre as prédicas nas mesquitas.

As diretrizes e palavras de ordem do governo produzem efeitos práticos que acabam por envolver os cristãos que vivem no país. A constituição de 1971

  • define o Islão como religião oficial
  • e a ‘Sharia’ representa a principal fonte de legislação civil.

Os cidadãos muçulmanos não podem mudar de religião. Mas ninguém jamais foi condenado pelo crime de apostasia do Islamismo. E a blasfêmia é punida com penas severas, mesmo quando ofende outras religiões não muçulmanas. Entretanto o governo continua a fornecer terrenos para a construção de igrejas e templos sikhs e hindus. Autoriza a construção de escolas cristãs, onde os estudantes recebem ensino religioso diferenciado com base na sua filiação confessional.

 

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Península arábica / blog.comshalon.org

A igreja dos trabalhadores

Nos Emirados, como em outros países da Península Arábica, a ordem estabelecida, de matriz islâmica, funcionou como um cenário paradoxal para um fenômeno singular de florescimento eclesial. Nas últimas décadas,

  • os fluxos migratórios por razões econômicas (os mesmos que na Europa parecem preocupar os autodenominados defensores da identidade europeia e das suas “raízes cristãs”)
  • fizeram confluir para os países da Península arábica milhões de cristãos em busca de trabalho.
  • Só nos Emirados vivem mais de 800 mil católicos de dezenas de nacionalidades diferentes, a começar pelos indianos e pelos filipinos.

Um cristandade multilíngue e multicolorida, que cresceu de forma espontânea, não “organizada”, sem o concurso de qualquer estratégia missionária de evangelização, surgida a partir de interesses vitais e concretos que impulsionaram e impulsionam milhões de pessoas a deixar a sua terra natal para  conseguir um salário decente

  • nos poços de petróleo,
  • na construção civil em expansão,
  • nas casas dos ricos locais,
  • ou nas redes de serviços e  de infraestrutura que crescem com o desenvolvimento econômico e financeiro da área.

O efeito – imprevisto e não procurado – é que nunca houve tantos cristãos na Península Arábica (depois de séculos de ausência que se seguiram ao primeiro, empolgante avanço missionário, realizado pela antiga Igreja do Oriente, de raiz nestoriana).

A multifacetada realidade católica nos Emirados Árabes Unidos – tal como em outros países da Península Arábica – vive e cresce pelas suas dinâmicas próprias – em primeiro lugar as sacramentais – que constituem a única, autêntica fonte de toda a experiência eclesial.

Com as paróquias – poucas em número e, por isso, quase sempre superlotadas – compartilhadas por comunidades com diferentes línguas e ritos,

  • e onde a cada Páscoa e a cada Natal se administram centenas de milhares de comunhões;
  • com milhares de batismos todos os anos;
  • com dezenas de milhares de jovens que se preparam para os sacramentos nas aulas de catecismo;
  • com as escolas que contribuem para aumentar a generalizada estima e simpatia pela comunidade cristã.

Em outubro de 2014, os bispos católicos latinos das regiões árabes, reunidos nos Emirados para sua assembleia anual, descreveram em tons vibrantes, no seu documento final, os “milhões de trabalhadores estrangeiros em busca de trabalho e dignidade”, que ao colocar as suas competências e suas energias a serviço da construção dos seus países adotivos, “cooperam para o bem-estar dos habitantes”. Ao mesmo tempo, os bispos pediram naquela ocasião aos imigrados cristãos que “respeitem a cultura e as tradições dos países que os acolhem”.

Respeito e condescendência

São precisamente

  • o respeito do contexto dado e a discrição
  • as características distintivas de muitas comunidades eclesiais dos Emirados e do resto da Península Arábica.

Muitos cristãos vivem a sua fé no meio de dificuldades e sacrifícios diários. Não tomam atitudes de antagonismo ou de reivindicação, diante dos pequenos e grandes condicionamentos que precisam enfrentar. Eles sabem

  • que, devido à proibição legal, não devem procurar converter os muçulmanos.
  • E que as igrejas não podem ter sinos a tocar nem exibir a cruz sobre o teto.

Do mesmo modo os líderes das comunidades católicas sempre compartilharam e adotaram a mesma abordagem realista e não antagônica em relação à ordem estabelecida de cariz islâmico. Tiveram de usar muita paciência para obter as licenças para construir novos locais de culto.

 

Mons. Paul Hinder e Mons. Camilo Ballin, vigários apostólicos na Península arábica. Foto: Daqui

Ao contrário dos propagandistas que no Ocidente exigem que     as relações com governos islâmicos sejam reguladas segundo o princípio da reciprocidade – ‘do ut des’ (autorizo uma mesquita para vocês, se vocês autorizarem uma igreja para mim) –  o bispo capuchinho Paul Hinder, atual vigário apostólico do sul da Arábia, já dizia há muito tempo que “insistir na reciprocidade em sentido matemático não funciona”.

E o seu predecessor Bernardo Gremoli, que ficou por quase trinta anos à frente do Vicariato Apostólico da Arábia, também insistia

  • que era necessário ser realistas.
  • E que não era o caso de fazer finca-pé para exigir reciprocidade em questões marginais.

A discrição e a preocupação em evitar braços de ferro com a ordem islâmica estabelecida garantiram muitas vezes aos católicos e aos seus bispos a condescendência e a simpatia de muitas autoridades políticas.

  • Desde há décadas, em toda a península arábica, as igrejas têm sido construídas em terrenos colocados à disposição pelos governantes.
  • Os cristãos das Igrejas históricas que vivem naquela região podem crescer e prosperar, porque não são percebidos como um componente hostil e agressivo em relação à comunidade islâmica majoritária.

A sua experiência do cristianismo real parece estar a anos-luz de distância das tentativas grotescas de

  • apresentar o conflito com o Islão como evidência
  • e conotação de uma identidade cristã sólida e coerente.

Eles vivenciam exatamente o contrário: atestam que é precisamente o desejo de viver na fé dos apóstolos que torna possível adaptar-se às circunstâncias, e suportá-las quando elas são desfavoráveis ​​ou provocam fadiga, na esperança de tempos melhores.

O papa Francisco vai aos Emirados Árabes Unidos, apresentando-se como Pontífice “amigo do Islão”. A sua abordagem aparece em sintonia total com a perspicácia pastoral dos bispos católicos que atuaram nessas terras nas últimas décadas. A que até agora funcionou como um fator propício para facilitar a vida e também o crescimento das comunidades cristãs no berço do Islão. E poder fazer ali também

“pedidos, orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens, pelos reis e por todos os que detêm a autoridade, afim de que levemos uma vida calma e serena, com toda a piedade e dignidade” (São Paulo, Primeira Carta a Timóteo).

 

 

GIANNI VALENTE

Fonte: https://www.lastampa.it/2019/02/01/vaticaninsider/ora-et-labora-il-volto-sorprendente-della-chiesa-nella-culla-dellislam-r6vMOQhc6VIAkMCYfXZl3O/pagina.html

 

 

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