“Igreja vê com muito sofrimento este momento triste do Brasil”. Entrevista com D. Roque Paloschi

 REPAM – 21/01/2019 – Foto: Manifestação indígena /José Cruz, Agência Brasil

Confirmando as previsões, o ano de 2019 iniciou apresentando uma realidade desafiadora aos povos tradicionais do Brasil. Menos de 20 dias após o novo governo assumir o Executivo Federal, se espalham pelo país ataques e invasões de territórios dos povos indígenas, quilombolas e camponeses. As dificuldades também são resultados de medidas tomadas pelo governo desde a remodelagem da máquina administrativa.

A reportagem foi publicada por Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, 17-01-2019.

 

O arcebispo de Porto Velho/RO e presidente do Conselho Indigenista Missionário/CIMI, dom Roque Paloschi, afirmou que a Igreja vê com muito sofrimento este momento triste do Brasil. O prelado manifestou preocupação com o cenário político do Brasil e questionou o juramento de fidelidade à constituição federal feito pelo presidente da República Jair Bolsonaro.

O cenário político atual do Brasil é muito preocupante, pois,

  • o atual presidente, Jair Bolsonaro, com suas assessorias, as suas equipes,
  • está infringindo e desrespeitando totalmente a Constituição Federal do Brasil e de toda a esperança dos pobres deste país.

Ele jurou fidelidade à constituição, mas estamos vendo os direitos dos pobres sendo atacados”, denunciou.

 

Se por um lado a ONU declara o 2019 como o Ano Internacional das Línguas Indígenas, o governo brasileiro esvaziou o principal órgão de defesa e cuidado permanente dos índios.

  • Responsável até o dia 31 de dezembro por realizar os estudos de identificação e delimitação de terras, além de promover a fiscalização e proteção das áreas demarcadas,
  • a Fundação Nacional do Índio/FUNAI, foi transferida do Ministério da Justiça para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos
  • e perdeu a atribuição, agora nas mãos do Ministério da Agricultura, comandado por ruralistas.

 

Dom Roque, à esquerda (Foto: REPAM)

 

“É muito fácil atacar e retirar os direitos dos pobresquero ver o senhor Jair Bolsonaro enfrentar as grandes corporações e desmontar essa mamata que tem sido para os grandes grupos econômicos, os banqueiros e assim por diante, pelas mineradoras, pelas construtoras pelo agronegócio, desafia dom Roque.

O arcebispo de Porto Velho ainda recorda que o presidente havia dito após ser eleito e em outras ocasiões, como em sua diplomação no Tribunal Superior Eleitoral e nas redes sociais, que seria escravo da constituição:

“Um escravo da constituição,

  • respeita a constituição,
  • respeita o direito dos pobres,
  • não promove o esbulho de suas terras,
  • a violência contra eles incentivando o ódio”.

Violência, invasões e ameaças

E foi justamente o discurso que

“incitava o ódio e acirrava o preconceito e a violência contra as minorias étnicas, sejam os povos indígenas, quilombolas e outras”

a motivação para o aumento na violência e ataques armados contra povos indígenas e suas comunidades, quilombolas e outros povos tradicionais.

“Aumentaram as invasões a territórios indígenas de Norte a Sul do Brasil, de Leste a Oeste, do Caburaí ao Chuí, bem como um discurso que promove a iminência de genocídio dos povos indígenas, sobretudo os povos isolados que são ameaçados na sua integridade física”, lamenta dom Roque Paloschi.

 

Foto: www.survivalinternational.org

 

Para o presidente do CIMI, é “uma verdadeira vergonha o que o governo vem fazendo”, ignorando a norma constitucional que garante nos artigos 231 e 232 os direitos dos povos originários. Para dom Roque,

  • a decisão de reestruturar o governo esvaziando os órgãos que atuam com os povos indígenas,
  • entregando-o aos ruralistas

serviu para

“desencadear um intenso processo de esbulho das terras indígenas já demarcadas e entregá-las à inciativa privada do país e de grupos estrangeiros, além de inviabilizar as demarcações em curso e futuras das terras em estudo”.

“Estamos sentindo essa ação do governo para justamente inviabilizar a esperança dos povos indígenas”, afirma ao recordar os ataques às comunidades desde o início do ano.

Dom Roque cita as investidas de invasão e ataques

Também sofrem com esta realidade os aliados à causa dos povos tradicionais e camponeses com ameaças de perseguição por parte de integrantes do governo.

Também já foram noticiadas tentativas de invasões nas terras indígenas

  • Awá-Guajá, em São João do Caru/MA,
  • e Marãiwatsédé,
  • localizada nos municípios mato-grossenses de Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia e São Félix do Araguaia.

Diante das circunstâncias, buscam-se integrar forças para resistir. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil/Apib convidou entidades para entrarem na campanha “Sangue Indígena: nenhuma gota mais”.

A iniciativa visa reunir diversas atividades organizadas pelo movimento indígena e seus apoiadores, com o objetivo de mobilizar a sociedade pelos direitos dos povos originários do país, inclusive com a hashtag #JaneiroVermelho.

 

(Foto: Divulgação – APIB)

Segundo a Apib, a

“disputa pela terra aliada à histórica falta de governança nessas regiões resultam em ​mazelas que se firmam como cicatrizes no coração da maior floresta tropical do mundo”, a Amazônia.

  • “Essa conjuntura vem permitindo que diferentes aspectos da legislação ambiental sejam flexibilizados ou reinterpretados, reduzindo a proteção dos nossos ecossistemas e minando direitos constitucionais dos povos indígenas e comunidades locais”, denunciam.

A Igreja ao lado dos pequenos

“A Igreja vê com muito sofrimento este momento triste do Brasil, porque nos povos indígenas – e estudos comprovam isso – tem muito grupos que viviam aqui há mais de 11 mil anos. Invadimos a sua casa e vamos tirando o direito deles viverem”, afirma dom Roque.

E as invasões e restrições à possibilidade do bem-viver dos povos tradicionais muitas vezes estão sob a égide da lei:

“A lei permite, mas quem  faz essas leis?”,

questiona o bispo, justificando a postura da Igreja em denunciar a

 “truculência” e a “barbárie”do governo de Jair Bolsonaro, “que desrespeita a carta magna desse país, a Constituição Federal.

Dom Roque conclama as pessoas de boa vontade a unirem-se aos povos indígenas, quilombolas e demais minorias do país neste momento de “extrema ameaça aos direitos garantidos constitucionalmente”.

“Não percamos a esperança! Não percamos a esperança! Quanto mais difícil é o tempo, mais forte deve ser a nossa esperança. O papa Francisco, [na exortação apostólica]

A alegria do Evangelho,nos diz:

Não deixemos que nos roubem a esperança”.E Jesus já nos acenou:o Reino de Deus sofre com a violência dos tiranos’”.

Dom Roque ainda ressalta que as comunidades indígenas têm se firmado na convicção de que já são 518 anos de resistência: “Não é um presidente que vai tirar o direito da gente”.

A presidência da REPAM também se pronunciou diante da escalada de violência. Em nota, por ocasião do ataque a um grupo de camponeses em Colniza/MT, afirmou que não é possível ficar indiferente à situação de conflitos que tem se agravado na Amazônia,

“a partir do fortalecimento de ideias persecutórias aos camponeses, indígenas e outros povos tradicionais. O que resulta em ataques covardes, desrespeito ao meio ambiente e indiferença estatal”.

Em Roraima, Pastorais Sociais uniram-se a outros grupos de articulação social em um ato contra

“os governos que representam apenas interesses de banqueiros e empresários, impondo à classe trabalhadora indígena e não indígena um programa de governo de retirada de direitos”.

Nesta quinta-quinta feira, participam de ato no parlatório da praça do Centro Cívico da capital Boa Vista.

 

Imagem relacionada

REPAM

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/586188-dom-roque-igreja-ve-com-muito-sofrimento-este-momento-triste-do-brasil

 

 

 

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