Origem e futuro comuns

A jornada do judaísmo ao longo da caminhada do diálogo com os católicos 

Norbert Hofmann – 16/01/2019 – Foto: Osservatore romano

 Tradução: Orlando Almeida

O Dia do Judaísmo, que a Igreja católica na Itália celebra em 17 de janeiro, é um sinal de quanto é importante para a Igreja oferecer aos cristãos a oportunidade de recordar com gratidão as raízes judaicas da sua fé, e de tomar consciência do diálogo em curso com o judaísmo atualmente.

Além da Itália, o dia do judaísmo também é celebrado em 17 de janeiro na Polônia, na Áustria e na Holanda, por iniciativa das respectivas conferências episcopais. O dia é uma boa ocasião para ilustrar os eventos mais significativos que ocorreram recentemente no diálogo judaico-católico.

 

Este diálogo é e continua sendo, por sua natureza, algo vivo, dinâmico e inacabado. Trata-se de uma relação entre judeus e cristãos que se está progressivamente intensificando, de uma amizade comum que cresce passo a passo, diante da face de Deus. Quando os políticos se encontram a portas fechadas, frequentemente os jornalistas curiosos esperam descobrir algo fora do comum, ávidos por novidades.  Eles sabem que público e leitores estão interessados em sensações e especulações, em tudo o que desperta reações fortes.

Mas quando judeus e cristãos se reúnem para conversar,

  • não há fundamentalmente nada de novo e extraordinário
  • porque se trata principalmente de cultivar relações e de aprofundar amizades,
  • mesmo quando se detêm sobre um tema específico a ser analisado.

Em última análise, confiança e confiabilidade não podem ser medidas com um critério objetivo nas relações: podemos apenas observar os efeitos externos destas atitudes internas. Obviamente, nas amizades, há também eventos e viagens sugestivas, tempos de maior tensão ou de debate acalorado, assim como momentos serenos de compreensão harmoniosa. As relações intensas não estão isentas, por vezes, de conflitos, mal-entendidos, incongruências. Não faltam altos e baixos,  passos para diante e passos para trás, mas no final continua-se  juntos no caminho iniciado e continua-se a conversar, para avançar.

O diálogo judaico-cristão não é diferente de qualquer relacionamento vivo e vibrante. Judeus e cristãos dependem uns dos outros, unidos por uma mesma origem que os marca até hoje e por um rico patrimônio espiritual, que deveria ser lembrado e valorizado sempre mais também no diálogo.

Esta premissa pode ser detectada já na declaração Nostra Aetate (no. 4) do Concílio Vaticano II, que afirma: “Sendo assim tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e judeus, este sagrado Concílio quer promover e recomendar o mútuo entendimento e estima entre eles , que se alcançam  sobretudo com os estudos bíblicos e teológicos e com um diálogo fraterno”.  Nostra Aetate (no. 4), aprovada e promulgada pelo Concílio em  28 de outubro de 1965, é, por assim dizer, o sinal de partida e a “Magna Charta” do diálogo sistemático entre a Igreja católica e o judaísmo.

De maneira explícita, o texto evidencia, num contexto teológico, que o cristianismo tem raízes judaicas e nasceu e se desenvolveu a partir delas. À luz de Nostra Aetate (No.4), o documento fundador do diálogo judaico-católico, lembramos a seguir os eventos mais importantes de uma amizade que se aprofundou ao longo do tempo.

Para dar ao diálogo bases sólidas do ponto de vista institucional, em 22 de outubro de 1974, o papa Paulo VI estabeleceu a Comissão de Relações Religiosas com o Judaísmo, cuja tarefa é traduzir na realidade concreta Nostra Aetate (No. 4). A comissão é responsável pela organização de encontros e conferências com os parceiros judeus, mas também pela promoção, dentro da Igreja católica, do diálogo com o judaísmo através de iniciativas específicas.

A comissão publicou até agora quatro documentos que, com base na Nostra aetate (No.4), devem servir como diretrizes para o diálogo judaico-católico. Entre os tópicos abordados, refletiu-se sobre a forma como o judaísmo é representado na Igreja católica no ensino e na pregação, sobre a Shoah e sobre questões teológicas que surgiram ao longo das décadas. Os documentos elaborados são dirigidos principalmente aos interlocutores católicos para fornecer orientações úteis para fortalecer o diálogo.

Mas quem são exatamente os parceiros judaicos do diálogo entre a Comissão para as relações religiosas e o judaísmo? A pergunta é justificada, porque o judaísmo, em princípio, não é hierarquicamente estruturado, apresenta tendências e facetas muito diferentes, não é organizado de maneira uniforme no mundo todo.

Depois do concílio Vaticano II, o Vaticano convidou o mundo judaico a criar uma organização única que assumisse a tarefa de conduzir o diálogo com a Igreja católica. As organizações judaicas mais importantes, então sediadas principalmente nos Estados Unidos, fundaram em 1970 uma organização, o International Jewish Committee on Interreligious Consultations (Ijcic).

O próprio fato de que várias organizações judaicas, muitas vezes em competição umas com as outras, se sentem em torno da mesma mesa para conversar com os cristãos é considerado hoje por alguns judeus como um evento extraordinário, quase milagroso, tornado possível pelo Vaticano. O Ijcic é agora o parceiro judaico oficial da Comissão para as relações religiosas com o judaísmo. Até o momento, foram organizadas vinte e três conferências internacionais em várias partes do mundo; a última aconteceu em abril de 2016 em Varsóvia, ao passo que a próxima está prevista para maio de 2019, em Roma.

Este é o primeiro diálogo institucionalizado da comissão do Vaticano, mas em junho de 2002 foi estabelecido um segundo com o Grande Rabinato de Israel, como resultado da visita do Papa João

Paulo II à Terra Santa em março de 2000.

  • Desde então, todos os anos são realizados encontros em Jerusalém ou em Roma.
  • Ao todo, foram organizados dezesseis, num ambiente geralmente descontraído e amigável.

Com o tempo, estes dois diálogos institucionalizados criaram relações sólidas, até mesmo amizades profundas, capazes de resistir aos contragolpes. Nas duas últimas décadas, houve apenas dois momentos de maior tensão, que todavia foram enfrentados e superados.

  • O primeiro aconteceu em fevereiro de 2008, devido à reformulação da oração da Sexta-Feira Santa para o rito extraordinário;
  • o segundo em janeiro de 2009, devido à revogação da excomunhão do bispo Williamson, da Fraternidade de São Pio X, que tinha demonstrado posições negacionistas em relação ao Holocausto.

Foi possível desarmar, num curto espaço de tempo, estas duas difíceis situações graças às boas relações que existem entre as nossas duas comunidades. Acima de tudo, em caso de dificuldades, é essencial procurar um confronto franco e esclarecedor para resolver quaisquer mal-entendidos.

No diálogo com o judaísmo, o Papa desempenha um papel fundamental com os estímulos que pode oferecer com a sua figura e a sua atuação. Encontrá-lo pessoalmente é importante também para os nossos interlocutores judeus. De fato, um diálogo entre a Igreja católica e o judaísmo não seria possível sem estes encontros.

  • Já João XXIII e Paulo VI haviam feito gestos claros de aproximação e de reconciliação;
  • mas o verdadeiro “quebra-gelo” foi João Paulo II, que desde a infância conhecia  os círculos judaicos de Wadowice e tinha muitos amigos judeus.

Ele foi o primeiro papa da história

  • a rezar em Auschwitz-Birkenau pelas vítimas da Shoah,
  • a visitar a sinagoga de Roma
  • e a abraçar o rabino-chefe,
  • a fazer uma visita oficial a Israel e orar em Jerusalém, junto ao Muro das Lamentações.

Esses gestos eram inovadores, eloquentes, promissores. As imagens desses encontros deram a volta ao mundo e estimularam significativamente o diálogo.

Os pontífices sucessivos, Bento XVI e Francisco, seguiram o exemplo de João Paulo II, cada um com o seu próprio estilo e a própria personalidade.

Basta mencionar dois eventos, a título de exemplo.

  • Enquanto, diante do Muro das Lamentações, o idoso João Paulo II, apoiado na sua bengala, se recolhia meditativamente em oração,
  • Francisco trocava um abraço com um amigo judeu e com um amigo muçulmano de Buenos Aires;
  • enquanto em Auschwitz-Birkenau, Bento XVI fez um profundo discurso teológico,
  • Francisco permaneceu em silêncio sem proferir uma única palavra.

Todos os três papas mostraram um grande interesse pelo diálogo com o judaísmo, e todos os três procuraram, à sua maneira pessoal, promover o diálogo e dar a ele um renovado impulso. Segundo a visão judaica, uma tradição estabelece-se quando alguma coisa acontece três vezes. Temos então bons motivos para esperar que a tradição iniciada pelos três papas seja levada adiante pelos seus sucessores.

Durante o encontro com a comunidade judaica em Mainz, em 17 de novembro de 1980, João Paulo II afirmou:

“Judeus e cristãos, como filhos de Abraão, são chamados a ser uma bênção para o mundo (cfr. Gn, 12, 2ss), na medida em que se empenhem juntos pela paz e pela justiça entre todos os homens e povos, e o façam em plenitude e profundidade, como o próprio Deus as pensou para nós, e com  disponibilidade aos sacrifícios, que este elevado intento pode exigir”.

  • O objetivo, compartilhado por judeus e cristãos, de trabalhar juntos pela justiça e pela paz no mundo baseia-se no patrimônio espiritual comum, que por sua vez tem sua raiz na revelação divina.
  • Ambas as comunidades acreditam que Deus se dirigiu e se revelou aos homens com a sua palavra, mostrando-lhes como viver no relacionamento correto com Ele e com o próximo.
  • Judeus e cristãos agem com base num código comum no que diz respeito às suas posições morais e éticas.

O papa Bento XVI, a respeito dos dez mandamentos que judeus e cristãos devem respeitar e pôr em prática observa:

“O Decálogo – as ‘dez  palavras’ ou dez mandamentos (cfr. Êxodo , 20, 1-17; Deuteronômio 5, 1-21) – que vem da Torá de Moisés, constitui a tocha da ética, da esperança e do diálogo, estrela polar da fé e da moral do povo de Deus, e ilumina e orienta também o caminho dos cristãos . Representa um farol e uma norma de vida na justiça e no amor,  um “grande código” para toda a humanidade” (Discurso na sinagoga de Roma, em 17 de janeiro de 2010).

Judeus e cristãos, tendo o mesmo fundamento, estão indissociavelmente unidos. O papa Francisco usou a esse respeito uma imagem eloquente:

“Todos pertencemos a uma única família, a família de Deus, Que nos acompanha e nos protege como seu povo” (Discurso na sinagoga de Roma, em 17 de janeiro de 2016).

E já que judeus e cristãos têm uma origem comum, eles têm juntos um futuro comum no diálogo. Lado a lado, eles estão caminhando juntos para o Messias que vem, embora os cristãos acreditem que Ele já esteve aqui antes, e O conheçam. A pequena anedota a seguir foi contada pelo alemão Martin Buber, filósofo da religião. Quando o Messias chegar, vão lhe perguntar se é a primeira ou a segunda vez que ele vem; e Buber diz:

“Então eu gostaria de estar muito perto dele e de lhe sussurrar no ouvido: não responda!”.

 

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Pe. Norbert Hofmann

Secretário da Comissão de Relações Religiosas com o Judaísmo

http://www.osservatoreromano.va/it/news/origine-e-futuro-comuni

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