Lideranças temem ação orquestrada contra terras indígenas

(Dois artigos)

Deutsche Welle – 18 Janeiro 2019

Foto: Mulheres Uru-Eu-Wau-Wau em 1985. Relatos sobre existência dos índios datam do início do século XX, mas só em 1976 as primeiras aldeias foram localizadas / Jesco von Puttkamer

 Desde o início do ano, duas terras indígenas foram alvo de invasões, e povo indígena foi atacado a tiros. Para lideranças, políticas do novo governo estimulam esse tipo de ação.

A reportagem é publicada por Deutsche Welle, 17-01-2019.

 

No caminho entre a cidade e uma das aldeias dentro da Terra Indígena Uru-eu-wau-wau, em Rondônia, um acampamento clandestino está em construção. Mais de 40 pessoas invadiram o terreno nos últimos dias, derrubaram árvores na área protegida e repetem aos indígenas: “Não vamos tirar o pé daqui”,conta Awapu Uru-eu-wau-wau.

Uma das lideranças indígenas locais, Awapu chegou nesta segunda-feira (14/01) a Porto Velho, capital do estado, para buscar ajuda. “Os invasores dizem que o novo presidente ganhou e que agora está tudo liberado”,disse à DW Brasil.

“Eles dizem que não veremos mais árvores em pé, que vão plantar soja e capim”, complementou. Segundo ele, o desmatamento em curso desde a semana passada é um dos maiores já vistos no local.

Questionado, o Ministério da Agricultura – que passou a ser responsável pela demarcação de terras indígenas após a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência – respondeu que “não se implantou nenhuma ‘nova política de demarcação‘”.

“O uso de terra indígena para atividades comerciais por terceiros, mesmo em parceria, é hoje proibido. Até eventuais iniciativas econômicas da União, previstas na Constituição, dependem de regulamentação no Congresso. A questão excede, portanto, a competência da Funai e do Ministério da Agricultura”, diz a resposta enviada por e-mail.

Para Sonia Guajajara, presidente da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil(Apib), a invasão na Terra Indígena Uru-eu-wau-wau faz parte de uma ação orquestrada – e crescente – em todo o país.

“Está acontecendo de forma articulada e orientada pelos invasores, que estão ligados aos grandes produtores rurais e à especulação imobiliária”, disse à DW Brasil.

Desde o início do ano, foram registradas invasões na Terra Indígena Arara, no Pará, e um ataque a tiros contra os guarani mbya, da comunidade Ponta do Arado, em Porto Alegre (RS).

Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que também acompanha o cenário, manifestou preocupação em relação ao ataque.

“Segundo o cacique (dos guarani mbya), os agressores afirmaram que, com o novo governo, eles têm agora poder de polícia para defender as propriedades. Há um estímulo no âmbito da política para que esse tipo de ação se desenvolva”,

comentou Roberto Liebgott, do Cimi na região sul do país.

Silhueta de Índio com cocar

Silhueta de indígena com cocarSilhueta de Índio com cocar. Alguns povos indígenas ainda vivem isolados / Pictures Allliance/ AP Photo- E. Peres

No Maranhão, invasores expulsos da Terra Indígena Awá-Guajá numa grande ação comandada por órgãos federais em 2014 se organizam para voltar às terras indígenas. Uma carta direcionada às famílias “atingidas pela Funai”circulou amplamente por São João do Caru como convite para um encontro, que aconteceu domingo passado.

“Por enquanto, estamos sem ter com quem conversar no governo”,

comenta Sonia Guajajara sobre a ausência de diálogo com a Fundação Nacional do Indio (Funai).

“O órgão criado para cuidar das causas indígenas perdeu completamente a autonomia. Esse governo quer destruir os direitos dos povos indígenas”, diz.

Desde que Bolsonaro assumiu, a Funai não tem se manifestado publicamente sobre os últimos conflitos. O Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, ao qual a Funai deve ser vinculada após decreto presidencial, informou à DW Brasil que o órgão “ainda está na estrutura do Ministério da Justiça”.

Para o Ministério da Justiça, por outro lado, o órgão já não está mais sob a pasta:

“A Funai faz parte, agora, do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos”,

respondeu a assessoria de comunicação ao questionamento da DW Brasil.

Enquanto isso, em RondôniaAwapu teme um embate. “Está muito perigoso para os moradores da aldeia mais próxima de onde os grileiros invadiram.”

Com mais de 1 milhão de hectares, a Terra Indígena Uru-eu-wau-wau foi reconhecida oficialmente em 1991 e segue sendo a maior área de Floresta Amazônicapreservada que restou no estado. No local, ainda há povos indígenas que escolheram viver em isolamento.

Segundo Awapu, invasões do território sempre existiram.

“São grileirosmadeireirosgarimpeiros… Mas desta vez está diferente. A invasão é mais organizada e maior”, relata.

“Viemos à cidade pedir ajuda para FunaiIbamaMinistério Público. Acreditamos que a lei para os indígenas ainda existe. E nós ainda estamos aqui”, afirmou.

 

Deutsche Welle

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/586154-liderancas-temem-acao-orquestrada-contra-terras-indigenas

Leia mais:

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II

Organização criminosa invade Terras Indígenas em Rondônia

Picadão de 25 km. aberto pelos invasores de terras indígenas dos Uru-Eu-Wau-Wau / Foto Kanindé

Rondônia: índios atacados em nome de Bolsonaro. Encorajados por declarações do presidente, dezenas de bandidos invadem território dos Uru-Eu-Wau-Wau e prometem matar quem resistir. Confinado a sua aldeia, grupo pede socorro 

Gerson Neto – 17 Janeiro 2019

 Uma organização criminosa sediada no município de JaruRondônia, está organizando invasões a terras indígenas.
  • Seu objetivo é a grilagem das terras para ocupação por colonos brancos,
  • inspirados por declarações do presidente Jair Bolsonaro.

No dia 11 de janeiro último, um grupo de 40 homens invadiram a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, no município de Governador Jorge Teixeira, na região central de Rondônia, próximo a aldeia conhecida como Linha 623, às margens do Rio Campanito.

A reportagem é de Gerson Neto, membro do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, enviada ao IHU.

 

Awapu Wau Wau a caminho do local invadido pelos grileiros | Foto: Kanindé

Os invasores abriram um picadão de cerca de 25 quilômetros, com o objetivo de dar acesso às terras. Segundo Boatuto Wau-Wau, liderança indígena do povo Uru-Eu-Wau-Wau, um homem conhecido com o Davi, respondeu à solicitação para que saíssem da Terra Indígena da seguinte maneira:

“não ia sair porque o Bolsonaro ganhou e não tinha nenhum órgão para ir lá defender os índios”.

Disse ainda que

“se a gente continuasse a pedir pra sair, eles sabiam onde a gente morava e iam lá matar até as crianças pra gente ver como dói”, disse Boatuto Wau Wau. Os indígenas gravaram um vídeo com parte da conversa com os invasores. Veja abaixo:

Awapu Wau-Wau, presidente da Associação Jupaú, que também estava presente durante a conversa com Davi relatou que os invasores disseram que “nós não tem direito a mais nada na nossa terra por causa do presidente que ganhou. Que nós vamos viver igual eles vivem lá fora (nas cidades).” E acrescentou: “Eles estão muito confiantes.”

Ao terminar de abrir o picadão os invasores deixaram a área prometendo voltar com mais 200 pessoas para tomar posse. Os líderes da aldeia Linha 623 se socorreram na Associação de Defesa Étnico-ambiental Kanindé, que enviou a coordenadora Ivaneide Bandeira para área invadida. As lideranças Uru-Eu-Wau-Wau se dividiram, uma parte voltou para as suas aldeias com medo de ataques a suas famílias. Outros acompanharam a Ong Kanindé para buscar apoio das autoridades em Porto Velho.

Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau foi homologada ainda no governo de Fernando Collor, em 1991. A Funai iniciou o contato com esse povo apenas em 1980. Antes disso sua história é de muito conflito com brancos invasores. Apesar da demarcação ehomologação das terras, elas continuaram a ser invadidas.

 

Juruna Uru-Eu-Wau-Wau e sua família dentro da área invadida | Foto: Kanindé

 

Além dos Uru-Eu-Wau-Wau, os Karipuna, no norte do estado, tem sofrido ataques semelhantes provenientes do mesmo grupo criminoso. Ali os conflitos já estão em um estágio mais grave. Em janeiro de 2017, madeireiros e grileiros incendiaram o posto de vigilância da Funai para intimidar os índios e a instituição. Em setembro do mesmo ano perseguiram um carro com missionários do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e lideranças indígenas por 30 quilômetros com o objetivo de assustar e intimidar.

De 2017 até agora já foram registrados 5 boletins de ocorrência na polícia por ameaças aos indígenas e aos missionários do CIMI. A fiscalização dos parques e Terras Indígenas está paralisada desde primeiro de janeiro, com isso grileiros aumentaram sua presença na área. O antigo Posto da Funai incendiado serve de base para o trabalho deles. Desde a semana passada pode-se ouvir os tratores dos madeireiros e grileiros trabalhando para desmatar a floresta.

Alguns dos invasores conseguiram registros falsos no Cadastro Ambiental Rural, cedido pela Secretaria de Meio Ambiente de Rondônia e um dos documentos que comprovam posse de áreas devolutas a fim de dar entrada na regularização fundiária. Isso para áreas situadas em uma Terra Indígena homologada.

 

Picadão aberto pelos invasores na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau | Foto: Kanindé

Por causa da presença dos madeireiros e grileiros, os indígenas estão constantemente ameaçados de morte. “Eles ficam sem poder andar pelo território por medo dos invasores. Não podem caçar e estão confinados em suas aldeias”, relata um agente do CIMI que pediu para não ser identificado.

Onde antes havia a floresta e o território do Povo Karipuna hoje já pode-se ver um início de ocupação se estabelecendo, com plantações de macaxeira e banana. Os líderes da invasão não se identificam pelos nomes, mas seus apelidos ecoam: JiraiaBaleadoBodãoPreto e Polaco.

 

 

Gerson Neto

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/586134-organizacao-criminosa-invade-terras-indigenas-em-rondonia

 

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