“Este Papa está suportando a resistência do clericalismo fanático, que não suporta a transparência”. Artigo de José María Castillo

Foto: IHU – Fotos públicas

“O que teria que preocupar a todos nós são, sobretudo, os silêncios da Igreja. Os silêncios do clero. E os silêncios daqueles que dizem que somos crentes em Cristo”.

A reflexão é de José María Castillo, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 14-01-2019. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

No relato da paixão e morte de Jesus, o Evangelho de João recorda um episódio tão humilhante quanto eloquente: a primeira bofetada que um guarda deu em Jesus, na frente do sumo sacerdote Anás (Jo 18, 22). Por que semelhante desprezo ali e naquele momento?

Simplesmente porque Jesus disse àquele personagem sagrado que ele tinha “falado ao mundo com liberdade” e que não havia “dito nada às escondidas” (Jo 18, 20). Aqui é importante notar que o texto grego do Evangelho não usa a palavra “liberdade”, mas o termo “parrhesia”, que significa exatamente “liberdade para dizer tudo” e sem se calar (“pán”, “résis”).

Está claro: Jesus não suportava os segredos e as ocultações. Na mesma medida em que o tribunal sagrado não suportava a liberdade daqueles que dizem toda a verdade, sem se calar, mesmo que isso lhes custe o cargo e a própria dignidade. E (se for necessário) até a própria vida.

Se a Igreja fosse fiel a essa conduta de Jesus, sem dúvida alguma, teria que suportar, não uma, mas muitas bofetadas. Muito mais do que já suportou.

Foi o que disse o próprio Jesus (Mt 10, 16, 32 par). Além disso, Jesus chegou a dizer:

“Chegará um tempo quando quem vos matar pensará oferecer culto a Deus” (Jo 16, 2).

Sem dúvida,

“a experiência religiosa de todos nós não é mais confiável, porque nos remete à falsa religião” (REUTER, T. El Dios falsificado. Madrid: Trotta, 2011, p. 228).

O que quero dizer com isto?

Muito simples:

  • acredita em Deus quem não se cala diante do sofrimento daqueles que são pior tratados pela vida e pelos poderes públicos,
  • independente da cor que forem,
  • estejam à direita, no centro ou à esquerda.

Posto isso, o que teria que preocupar a todos nós são, sobretudo, os silêncios da Igreja.

  • Os silêncios do clero.
  • E os silêncios daqueles que dizem que somos crentes em Cristo.
  • Silêncios em tantas coisas que clamam ao céu.
  • Mas agora mesmo – e acima de tudo – em dois assuntos de enorme gravidade e urgência.

 

*  A começar pelo silêncio diante de tantos e tantos escândalos clericais de “homens da Igreja”que abusaram de crianças e adolescentes. Abusos criminosos que as autoridades eclesiásticas ocultaram. Porque era uma determinação que vinha do Vaticano, para que o prestígio da Igreja não fosse prejudicado.

Teve que vir o Papa Francisco, que “tirou o manto”, para que se saiba tudo e se faça justiça. O mais sofrido e preocupante

  • é o que este Papa precisa suportar,
  • pela resistência do clericalismo fanático,
  • que não suporta a transparência que desvelou a falta de vergonha de não poucos setores do mundo clerical.

E para terminar, o outro silêncio preocupante que estamos vivendo na Espanha e em outros países da Europa e da América.

  • Refiro-me ao silêncio de bispos e do clero em geral,
  • que inexplicavelmente se calam diante dos políticos e governantes
  • que, com suas decisões, são responsáveis pelo sofrimento de milhares e milhares de criaturas inocentes,
  • ao mesmo tempo que permitem e incentivam a concentração do capital mundial, cada vez mais, nas mãos de menos pessoas.

No Evangelho ficou claro que Jesus

  • não suportava o sofrimento dos pobres, doentes, marginalizados e estrangeiros.
  • Como também não suportava o desprezo ou a desigualdade das mulheres.

As preocupações da nossa Igreja e dos nossos bispos coincidem com as de Jesus?

Mais uma vez fica claro que falar com liberdade é muito perigoso.

 

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.José Maria Castillo

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/586044-este-papa-esta-suportando-a-resistencia-do-clericalismo-fanatico-que-nao-suporta-a-transparencia

 

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