Uma entrevista especial com o teólogo Fernando Ilídio sobre a Igreja e os seus Leigos.

«O clero mais jovem… pela linguagem ou pela vestimenta, cria uma estrutura que decide por caminhar separada do mundo»

 

Fernando Silva – O Cantinho da Teologia®, 02/01/2019

Fernando Ilídio é dos mais promissores teólogos católicos da novíssima geração. Com 39 anos, é formado em Teologia pelo Centro de Cultura Católica do Porto, onde concluiu os três anos do curso básico. Pesquisador, e Fundador do CDT (Cantinho da Teologia).

Foi Acólito, Ministro da Comunhão, participou como representante do grupo de acólitos de Matosinhos, no Concelho Pastoral Paroquial, fez parte do grupo de CPM (Preparação para o Matrimonio) , foi membro da equipa Pastoral Vocacional, formador do Grupo de Acólitos da Paróquia de Matosinhos e membro da equipa de Liturgia.

Nesta entrevista, ele foi contundente e realista:
«os leigos devem afastar-se deste modelo estrutural e buscar novos caminhos, novas maneiras de viver a fé, dentro do chamado que é próprio da sua vocação, que é o mundo secular e as grandes causas da humanidade. Aqui está a vocação e a missão dos leigos! Ai devem ser sal e luz. Sujeitos da história. É onde os leigos, como Igreja que são, podem oferecer o seu testemunho e o seu serviço concreto. Observo que as ações do Papa Francisco também vão por aí.»
Mostrou-se profundamente alinhado com o papa Francisco, quando afirma que:
«o clericalismo é uma doença que impede a Igreja de ser serviço e, com isso, inibe as demais vocações, sobretudo os leigos, de assumirem o seu papel, a sua missão dentro do corpo eclesial, e também na sociedade. O clericalismo traz e vive de uma imagem de Igreja que se quer garantir por si mesma, sem abertura ao novo e que busca sempre o poder, que quer estar acima, que vive ‘à parte’ e agarra-se nas estruturas, na dureza das tradições, no enrijecimento da doutrina, na dominação de uma letra sem espírito e num autoritarismo eclesiástico/hierárquico doente.»
No momento em que Francisco abre a Igreja, os resultados dos anos de domínio conservador estão à vista:
«O clero mais jovem, que se satisfaz em formalismos, panos e paramentos riquíssimos (até medievais) e em ritos antigos, carregados na rigidez, ou camuflados de aspectos modernos, em alguns casos, mas muito distante da simplicidade do Evangelho, o que é lamentável. Seja pela linguagem ou pela vestimenta, cria-se uma estrutura que decide por caminhar separada do mundo, distante dos problemas e com a sustentação de um ar superior».

Segundo Ilídio, pode-se constatar que a Igreja, infelizmente, continua impermeável aos leigos:

«Numa carta ao Cardeal Marc Ouellet, em 2016, o Papa Francisco recorda que desde o Concílio Vaticano II se falou muito sobre a ‘hora dos leigos’, mas para o papa esta hora ainda está longe de se concretizar. Para Francisco, e aqui para nós que nos unimos a ele, as causas são várias, mas a passividade é por culpa do próprio laicado, é um fato, mas também das estruturas, que não formam e não permitem um espaço favorável, onde leigos e leigas possam exercer criticamente e com maturidade a sua vocação.»

O caminho, aponta o teólogo, é retomar a originalidade do cristianismo:

«Se na resposta da Igreja antiga precisou se falar que não há escravos ou livres, homens ou mulheres, mas todos são um em Cristo Jesus, deveríamos trazer esta máxima para hoje, como uma definição basilar, para que não haja mais clero ou leigos, mas para que todos possamos ser uma só Igreja n’Ele.»

Superar a contradição profunda que ainda persiste entre o laicado e a estrutura:

«como é ser leigo, sujeito eclesial, numa Igreja clericalizada? Impossível! É necessário romper com isto!»

Na opinião de Ilídio, muitos processos posteriores ao Concílio Vaticano II tentaram de certa forma revogar a abertura aos leigos:

«Por exemplo: o que significa ser discípulo missionário, hoje? Será que há alguma mudança?… Por certo que não. Raras exceções. Continuamos com as mesmas estruturas e linhas de ação, seguimos com os mesmos planos e projetos pastorais, a mesma insistência na formação clerical dos nossos seminaristas e na pouca valorização da formação laical (…).»

Consequente com a reflexão desenvolvida, foi taxativo:

«Sem a ação dos leigos não há uma ação de Igreja em saída.”

3 comments to Uma entrevista especial com o teólogo Fernando Ilídio sobre a Igreja e os seus Leigos.

  • Ricardo Pereira

    Senhores,

    Sou leigo católico atuante há 25 anos, teólogo, empresário, advogado, casado e tenho 3 filhos. Já fui coordenador de CPP e CAEP, já coordenei várias pastorais na minha paróquia e na Diocese. Sou leitor assíduo do site de sua instituição.

    Vários assuntos me apetecem e me instigam por uma Igreja Católica diferenciada, simples, orante, profética e radical no sentido de viver Jesus Cristo de forma integral.

    Porém, tenho algumas dúvidas. No aspecto teológico, já entendi a argumentação sobre a extinção do celibato na vida dos sacerdotes e dos religiosos. Contudo, pergunto:

    Se fossem alterar as leis eclesiásticas, como seria isto, em relação a administração das paróquias, das dioceses, das conferencias episcopais e da Santa Sé na vida financeira, nas pastorais/ serviços, movimentos (seriam extintos ou expulsos, tendo em vista que não aceitam diálogo?), conselhos comunitários, paroquiais, diocesanos, conferencias episcopais, de pastoral e econômico?
    A Santa Sé deixaria de ser Estado e entregaria tudo ao mundo ou venderia seus móveis e imóveis?
    Sobre os padres sendo casados teriam casas da Igreja ou pessoais? tabela fixa das côngruas, ajuda de custos (combustivel, cursos, retiros e outros)? como seriam apresentadas e colocadas as famílias perante as atividades paroquiais? a figura de pároco entraria em extinção?
    Os seminários existiriam ou seria concurso com perfis definidos e técnicos?
    As irmãs religiosas, monjas e freiras poderiam se casar e ter bens de forma legalizada?
    Como acabar com a paralisia pastoral dos padres ou ativismo infrutífero para somente trabalhar sem fruto espiritual, somente igreja fora da casinha? no formato que está em relação a disponibilidade dos padres para atender as pessoas em geral sem distinção e evangelizar como pai espiritual em ensinar e educar verdadeiramente?
    Terão férias?
    Os meios de comunicação ficarão nas mãos de quem? Leigos?
    Acabaríamos com as congregações que mais dividem do que agregam? Unidos para enriquecer e esquecer do carisma do fundador.
    As mulheres sendo ordenadas como seria equilibrado entre os homens ordenados no que tange ao poder?
    Nos trabalhos profissionais que realizo, sou cobrado e tenho que atingir metas com compromisso e liberdade. Na vida consagrada e clerical, não tem isso. Quem seria supervisor verdadeiramente, sem estar de complô ministerial e subverter o compromisso?
    Quanto aos homossexuais seriam feitos casamentos na Igreja tanto de padres como de leigos?
    Pergunto tudo isso, pois vivi muitas situações e sempre quis uma mudança radical prática, pois teorias e explanações de planejamento sem execução já estou cheio…

    Responda-me na liberdade, como se tivesse o poder neste momento de mudar isso imediatamente.

    Agradeço pela oportunidade de expor.

    Aguardo sua resposta.

    Nada mais a declarar.

    Ricardo Pereira

    União Paulista – SP

  • oscar varela

    Bravo!
    Estamos nos aproximando de verdadeiras questões da realidade do caminho humano.
    Obrigado!

  • Fernando Ilídio

    Obrigado pela partilha desta excelente entrevista! Em resposta a questão colocada pelo Sr Ricardo Pereira, penso que não se trata da extinção do celibato mas da opção de não ser celibatario e abrir assim o sacerdócio aos leigos, que na minha opinião iria ser benéfico não só na ação pastoral como logística e administrativa.

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