No Kerala  o protesto pacífico das ‘sufragistas’, ao mesmo  tempo  que começa a campanha eleitoral

 

PAOLO AFFATATO – Roma – 04/01/2019

Tradução: Orlando Almeida

Foto: No Kerala, o protesto pacífico das “sufragistas” pela igualdade, ao mesmo tempo que começa a campanha eleitoral  / AFP.

Uma corrente humana de cinco milhões de mulheres exige o direito à igualdade e à oração num templo hindu e põe em foco a instrumentalização de questões religiosas na sociedade. 

Entretanto, a nação prepara-se para as eleições gerais de maio de 2019

 

 

Foram chamadas “sufragistas”. E os comentaristas indianos mais agudos e aculturados, para explicar o protesto pacífico e civil das mulheres indianas no Kerala, até trouxeram à baila  Giovannino Guareschi, relembrando as brigas entre Peppone e Don Camillo.  Isso tudo para demonstrar que, na questão que agita o Estado do sudoeste da Índia – que ganhou destaque nacional devido à corrente humana de cinco milhões de mulheres que quiseram reafirmar o direito à igualdade e à oração num templo hindu – o elemento central é a relação entre política e religião, entre as leis do Estado e os preceitos da fé.

Tudo isso num contexto como o da Índia, onde o entrelaçamento e a manipulação de questões relacionadas à religião pesou muito nos últimos vinte anos, para os bons resultados eleitorais do Partido Bharatiya Janata (BJP), partido nacionalista da direita hindu, hoje no governo da União com o primeiro-ministro Narendra Modi.

Não menos importante, além da necessária visão geral sobre a relação entre fé e política, sobre a laicidade do Estado e sobre como as garantias e os direitos constitucionais podem e devem ser respeitados, há o fator-chave das iminentes eleições gerais, a ser realizadas na Índia em maio de 2019: incontornável prisma através do qual avaliar o episódio que ocorreu no templo hindu de Sabarimala.

Pela primeira vez na história, duas mulheres de 40 anos (e outras as seguirão) galgaram o muro de cerca e rezaram no sancta sanctorum do templo que, por antiga prescrição hinduista, era reservado apenas aos homens . Para fazer um voto à divindade Ayyappa, venerada naquele lugar, os peregrinos seguem, de fato, um ritual prévio de purificação de 41 dias. Esta prática, por si só, exclui as mulheres em idade fértil (entre 10 e 50 anos):

  • a ocorrência da menstruação,
  • de acordo com crenças antigas e milenares, aliás transversais a muitas religiões,
  • é uma fase da vida onde a mulher é considerada impura.

Com uma abordagem decididamente mais moderna e legitimamente laica, a Suprema Corte da Índia, em abril de 2018, declarou:

“A menstruação é porventura um instrumento para medir a pureza das mulheres?  Como se mede, então, a pureza dos homens? Aplicando o preceito constitucional, de acordo com a Carta de 1950, que garante paridade e igualdade de gênero na democracia indiana, a Suprema Corte sancionou em setembro passado a inconstitucionalidade da proibição que, durante centenas de anos, impediu o acesso das mulheres ao templo”. 

A simples, até mesmo previsível aplicação da lei

  • desencadeou protestos generalizados, instigados por líderes e grupos fundamentalistas hindus,
  • que se reuniram diante do Parlamento do Estado de Kerala (o único na Índia, aliás, a aplicar a prontamente a sentença),
  • contestando o chefe do governo Pinarayi Vijayan
  • e provocando uma violência nas ruas que paralisou várias cidades por dois dias, levando à prisão de 700 manifestantes. 

O caso de Kerala, que agora ocupa o centro do debate nacional, traz para o centro do cenário o confronto, às vezes duro e raivoso, que caracterizou como um fio vermelho os cinco anos do governo de Narendra Modi:

  • confronto entre os que promovem uma posição especial de relevo para o hinduísmo e as práticas hindus na sociedade indiana,
  • e os que desejam a supremacia da Constituição para regular a vida civil, protegendo o caráter laico e pluralista da nação.

Os analistas mais atentos não deixam de apontar que essa linha de ruptura entre tradição e modernidade no subcontinente precede de muito o advento do governo do BJP.

Todavia

  • a fratura, atenuada durante as décadas de governo do Partido do Congresso,
  • com a irresistível ascensão dos nacionalistas e a sua tendência natural de agradar uma ideologia de tipo identitário, o hindutva (ou ‘ induidade’, que prega ‘a Índia para os hindus’),
  • tem se alargado e às vezes parece irremediável.

Note-se que, recentemente, após anos de declínio inexorável, o glorioso Partido do Congresso – liderado pelos herdeiros da dinastia Gandhi, hoje pelo seu último rebento, Rahul – teve êxito no esforço desesperado de tirar do BJP o governo de três Estados situados no coração da nação, Chhattisgarh , Rajastan e Madhya Pradesh, fazendo renascer as esperanças de disputar as eleições gerais.

Num clima político e social claramente inflamado,

  • os cristãos indianos, presentes e ativos especialmente no Kerala, onde constituem 20% da população em comparação com um percentual de quase 2,5% a nível nacional,
  • sempre rejeitaram as manobras e as políticas tendentes a polarizar a sociedade com base na religião (o chamado ‘comunitarismo’), bem usado pelos nacionalistas para aumentar o consenso político.

Os fiéis indianos têm confiado, mesmo numa temporada marcada por violências e intimidações crescentes, “na maioria silenciosa do povo indiano” que, segundo Abraham Shariff, veterano jornalista, “vai dar uma lição àqueles que fazem política usando a fé para cálculos egoístas ou jogando com os sentimentos religiosos do povo”.

“Alguns líderes nacionalistas acreditaram que foram eleitos para sempre. O nosso é um país democrático. Temos eleições a cada cinco anos. As pessoas não podem ser enganadas por muito tempo”, diz A.C. Michel, leigo cristão e ativista dos direitos humanos. A campanha eleitoral começou.

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Paolo Affatato


https: https://www.lastampa.it/2019/01/04/vaticaninsider/in-kerala-la-protesta-pacificadelle-suffragette-per-luguaglianza-mentre-inizia-la-campagna-elettorale-pG6fkMkq8wRuJsg9m3rrzO/pagina.html

 

 

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