O Vaticano ocultou a pedofilia do fundador dos Legionários de Cristo durante  63 anos

O prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada reconhece que a sede pontifícia tinha, desde 1943, documentos sobre a conduta de Marcial Maciel

 Marcial Maciel

JUAN G. BEDOYA – Madrid,  2 jan 2019 

Tradução: Orlando Almeida

Foto: João Paulo II e Marcial Maciel no Vaticano em 30.11.04 – Tony Gentile/ Reuters

“A longa amizade e a intransponível proteção dada por João Paulo II ao pedófilo, drogado, corrupto e corruptor Pe. Marcial Degollado Maciel, impedindo o cardeal Ratzinger de o processar, é um assunto mal resolvido no Vaticano. Além de gerar muitas dúvidas sobre a política das canonizações. Inclusive sobre a apressada canonização desse papa, a toque de caixa, efetivada, ao que tudo indica,  pela grande pressão das poderosas Opus Dei, Legionários de Cristo, Foccolarini e Caminho Neocatecumenal.

Quem não lembra dos cartazes “Santo Subito” (Santo Já!), “espontâneos” espalhados pela praça de S. Pedro no dia do funeral de JP II?

Por que João Paulo II, perante tantas e tão graves acusações, não fez nada e não deixou fazer nada contra esse padre criminoso?” 

 

Eis o Artigo

Resultado de imagem para Cardeal João Braz de AvizCard. João Braz de Aviz / Gazeta Online

O prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, o Cardeal João Braz de Aviz, reconhece agora que o Vaticano tinha, desde 1943, documentos sobre a pedofilia  do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. O religioso foi investigado entre 1956 e 1959.

“Quem o encobriu era uma máfia, eles não eram Igreja”, disse o cardeal ao ser entrevistado pela revista católica Vida Nueva. João Braz esteve em Madrid há um mês para encerrar a assembleia geral da Confederação Espanhola de Religiosos (Confer).

“Tenho a impressão de que as denúncias de abusos crescerão, porque só estamos apenas no início. Levamos  70 anos encobrindo,  e isso foi um grande erro”, afirma.

Os Legionários de Cristo renascem das suas cinzas, com uma nova estrutura, após 12 anos de expiação e 10 desde a morte do seu fundador,

  • o padre Marcial Maciel,
  • amigo de vários papas
  • e o maior predador sexual na história recente da Igreja.

Apresentado durante anos por João Paulo II

  • como um apóstolo da juventude
  • e mimado por inúmeros bispos e cardeais, muitos deles espanhóis,

Bento XVI lhe impôs, em 2006, meses após a morte do pontífice polonês,

  • que se retirasse para o México pelo resto de sua vida ,
  • dedicando-se  “à penitência e à oração”.

Morreu sem pedir perdão dois anos mais tarde, quando uma comissão de inquérito

  • já havia desvelado sem qualquer tipo de dúvida, inequivocamente,
  • as suas atividades criminosas
  • e uma vida de crápula tolerada pelo Vaticano.

O jornal EL PAÍS publicou em 2006 que o fundador legionário tinha sido investigado entre outubro de 1956 e fevereiro 1959 por ordem do cardeal Alfredo Ottaviani, então o grande inquisidor romano.

  • Maciel tinha estudado na Pontifícia Universidade de Comillas, então com sede na Cantábria,
  • de onde foi expulso com alguns dos  seus colegas
  • sem que os jesuítas tenham tomado medidas adicionais.

A inspeção do Vaticano foi supervisionada pelo claretiano basco e futuro cardeal Arcadio Larraona.

Durante esse tempo,

  • Maciel foi suspenso como superior geral,
  • e expulso de Roma.

Larraona enviou os seus inspetores ao seminário de Ontaneda, entre outros centros.

  • Isso não resolveu nada
  • e Maciel voltou ao de antes, com mais poder.

Ratzinger

  • também não fez nada em 1999,
  • apesar das evidências depositadas na sua mesa de presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, o Santo Ofício da Inquisição do passado.

As denúncias de suas incontáveis ​​vítimas, às quais se juntaram mais tarde as das mulheres com quem o padre Maciel teve filhos, tornaram-se mais fortes até se tornarem insuportáveis ​​para o Vaticano.

  • Ninguém tomou medidas.
  • Não se processa um amigo do papa“,
  • argumentaram os que deveriam intervir, em primeiro lugar o cardeal Josep Ratzinger, hoje Papa emérito.

Maciel também era seu amigo, além de confessor do Papa polonês em várias ocasiões. “Eles esperavam que Deus os tirasse do atoleiro com a morte de João Paulo II ou do acusado”, disse em 1999 uma de suas vítimas e denunciante, Alejandro Espinosa, que teve a infelicidade de ser a presa preferida do fundador dos Legionários no frio do casarão do seminário de Ontaneda (Cantábria).

Marcial Maciel Degollado (Cotija, Estado de Michoacán, México, 1920-2008),

  • passava por santo
  • até que vários seminaristas por ele abusados se juntaram para reclamar desesperadamente perante o Vaticano.

“É um guia eficaz da juventude”, dizia de Maciel João Paulo II quando as denúncias já eram públicas.

  • Apenas uma semana antes de Ratzinger notificar a abertura de uma investigação,
  • o célebre fundador festejou os seus 60 anos de sacerdócio
  • num ato coma presença do Papa e do seu secretário de Estado, cardeal Angelo Sodano.

Maciel chegou à Espanha no final dos anos 40 do século passado para expandir a sua fundação, protegido pelo então ministro das Relações Exteriores do ditador Francisco Franco, o democrata-cristão Alberto Martin Artajo. Vinha com o aval do Papa Pio XII, que o recebeu em 1941*, para simplesmente fundar, com apenas 21 anos, os Legionários de Cristo e o Regnum Christi, inicialmente com o nome de Missionários do Sagrado Coração e de Nossa Senhora das Dores.

Ricardo Blázquez, o cardeal arcebispo de Valladolid e presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE),

  • foi um dos cinco inspetores encarregados em 2010 por Bento XVI de depurar a organização,
  • na qual outros pedófilos fizeram carreira junto com o fundador.

Algumas das vítimas acreditaram na época que

  • o Papa eliminaria os Legionários tal como funcionavam então,
  • para refundá-los com outro carisma.

Assim o declarou ao jornal EL PAÍS  o sacerdote Félix Alarcón, ex-dirigente dos Legionários em vários países, e ele próprio vítima de abusos  quando era criança.

  • “O Vaticano recebeu 240 documentos que evidenciavam que a situação era conhecida muito antes que se reconhecesse que era conhecida.
  • A nossa denuncia é de 1988, e enquanto o cardeal Ratzinger era cardeal, passavam  uns aos outros esta terrível batata quente, sem tomar nenhuma medida. Eu acho que a Legião, tal como nós a entendíamos, deveria ser eliminada “, declarou ele na sua casa em Madri.

Havia um precedente,

  • com o Vaticano na primeira linha em termos de culpa e de penitência
  • por encobrir uma rede de pedófilos nas Escolas Pias do aragonês S. José de Calasanz,
  • fundador da Ordem dos Clérigos Regulares Pobres , agora conhecidos como Escolápios.

Um dos pedófilos,

  • o padre Stefano Cherubini,
  • tinha tal poder de que se tornou superior da ordem, afastando o fundador.

Os escolápios foram punidos com a extinção e Calasanz morreu aos 91 anos em Roma, ainda em desgraça. Oito anos depois, a congregação foi reabilitada. O escândalo não impediu que Calasanz fosse elevado aos altares. Em 1948 foi declarado patrono universal das Escolas Cristãs por Pio XII.

 

O MOVIMENTO CRESCE 3% NA SUA TRAVESSIA  DESERTO

  • O conhecimento público dos escândalos de pedofilia entre os Legionários de Cristo, até então um dos grandes movimentos do novo catolicismo,
  • foi o que levou o Vaticano a impor, finalmente, a “tolerância zero”,
  • a palavra de ordem com que o cardeal alemão Ratzinger conquistou o pontificado.

Não o levaram a sério e ele acabou renunciando ao cargo, num gesto sem precedentes em séculos.

A punição a Marcial Maciel e à sua organização foi rigorosa, embora sem chegar à extinção. Entre outras exigências, além da proscrição do fundador, os Legionários

  • teriam de deixar de festejar as diversas efemérides de Maciel;
  • teriam de deixar  de chamá-lo “nosso pai” e ignorar o seu nome em público;
  • eliminar dos seus centros todas as fotografias em que esteja sozinho ou com João Paulo II,
  • e parar de vender os seus livros.

Houve uma exceção por respeito à “liberdade pessoal”: que quisesse conservar “de forma privada” alguma fotografia do fundador, ler os seus escritos ou ouvir as suas palestras, poderia fazê-lo, mas discretamente.

Com este longo processo de purificação e limpeza, e eliminados os colaboradores mais próximos de Maciel, o Vaticano acaba de dar a sua aprovação aos novos estatutos da Legião, que é reconhecida “canonicamente como Sociedade de Vida Apostólica de Direito Pontifício” e como “uma federação formada e governada colegiadamente entre os Legionários de Cristo, as Consagrados e os Leigos Consagrados, com voto consultivo dos leigos, que se associarão individualmente à Federação”.

O seu órgão de  governo será chamado  Conselho diretivo.

Longe de perder associados, durante a crise a Legião cresceu uns 3%. Hoje são 21.300 membros seculares,

  • 526 consagradas,
  • 63 leigos consagrados,
  • 1.537 Legionários de Cristo
  • e 11.584 membros adolescentes numa organização chamada ECYD [Encuentros, Convicciones y Decisiones].

Na sua obra  educacional

  • 154 colégios,
  • 5 academias internacionais,
  • 14 universidades civis e 4 eclesiásticas,

são formados 176.000 alunos.

Na Espanha, eles administram

  • o santuário diocesano de Nossa Senhora de Sonsoles em Ávila
  • e têm seminários em Ontaneda (Cantabria) e Moncada (Valencia).

Também mantêm

  • a Universidade Francisco de Vitoria, em Pozuelo (Madri);
  • a rede de colégios Everest y Cumbres;
  • a organização Highlands;
  • a cadeia de centros Mano Amiga
  • e a agência de notícias Zenit.

Nota do tradutor:

 * O autor da matéria parece ter-se equivocado. Segundo os sites dos Legionários e do ‘Regnum Dei’, 1941 foi o ano da fundação; o encontro de Marcial com Pio XII só aconteceu em 1946.

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Juan Bedoya

https://elpais.com/sociedad/2018/12/31/actualidad/1546256111_595163.html

 

 

 

 

LEIA MAIS: 

(In:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/520311-eu-tenho-um-filho-me-demito-o-ultimo-escandalo-dos-legionarios-de-cristo)

 

2 comments to O Vaticano ocultou a pedofilia do fundador dos Legionários de Cristo durante  63 anos

  • Evaldo Tartas

    A postura do papa João Paulo II nesse caso foi um erro imperdoável. Mesmo assim foi elevado às honras nos alteres da Igreja em tempo recorde. A atitude desse papa diante de um caso tão escandaloso deveria ter sido levada em consideração no processo de beatificação e canonização. Quem sou eu para duvidar das boas intenções de JP II, mas o ditado popular diz “dize-me com quem andas e direi quem és”.

  • osvaldo costa

    Após a leitura do artigo, só nos ( excluídos do ministério ) resta pedir aos santos Calasanz, Maciel, João Paulo II e outros orações e perdão pela nossa ousadia por constituir uma família pelo sacramento do matrimônio.

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