2019: Uma Igreja com antigos e novos desafios

Frei Bento Domingues  – 

Foto: SONY DSC

Entre mulheres e homens, jovens e adultos, não há falta de vocações nas comunidades católicas para que toda a Igreja responda à sua missão. Falta, entre outras decisões, alterar o seu estatuto actual.

Não cabe na cabeça de ninguém que as comunidades cristãs europeias não possam gerar os serviços de que precisam. Criam-se obstáculos canónicos, como se fossem divinos, para não resolver o que pode ser resolvido sem drama.

 

 

1. Diz-se que este Papa devia estar caladinho acerca de economia e política para as quais não tem nem competência reconhecida nem mandato divino ou humano. A economia e a política do Estado do Vaticano não têm dimensão para merecerem qualquer relevância a nível mundial. As referências a escândalos financeiros da banca vaticana tiveram muito eco na opinião pública por que manchavam uma instituição que devia dedicar-se à promoção da virtude, da santidade, da justiça, mas nunca à corrupção.

A atribuição da responsabilidade da pedofilia clerical ao actual Pontífice Romano é a cruz que os seus inimigos lhe puseram aos ombros para não terem de se confrontar com as reformas que ele procurou e procura introduzir na Igreja, a todos os níveis.

Outros acusam-no de não enfrentar a questão mais fácil de resolver e a mais urgente: a abertura dos ministérios ordenados a homens casados e a mulheres.

Quanto aos homens casados, diz-se na Igreja Católica que não há questões teológicas que impeçam a sua ordenação, mas continua-se a recusá-la.

Dado o crescente e activo papel das mulheres no mundo contemporâneo, as religiões que não souberem acolher as suas capacidades de serviço e liderança vão pagar caro a sua miopia.

Afirma-se com frequência, no seio do catolicismo, que existem problemas de carácter doutrinal quanto ao acesso das mulheres ao sacramento da Ordem: a Igreja não se julga autorizada a modificar uma omissão ancestral baseada no silêncio do Novo Testamento (NT). Nunca, porém, se coibiu de tomar posição sobre assuntos, até de ordem dogmática, de que o NT não fala explicitamente. Pano para mangas.

Seja como for, a situação dos ministérios ordenados na Igreja Católica está envenenada por um problema básico de catequese que condiciona todos os outros: o mau uso da palavra Igreja. Apesar de todos os esforços, sobretudo depois do Vaticano II, para não confundir essa designação com a hierarquia eclesiástica, essa confusão tem resistido a todos os esforços de esclarecimento.

 

2. A Igreja Católica é o conjunto dos católicos com serviços hierarquizados para tornar visível e concreta a missão de Cristo no mundo e para alimentar a vida interna das comunidades.

Não há um baptismo para homens e outro para mulheres, como já escrevi várias vezes. É ele que significa e realiza o começo do que é fundamental no cristianismo. Tudo o resto é para ajudar este caminho.

Enquanto isto não entrar na consciência, no vocabulário e na prática eclesial, continuaremos a não entender nem a missão da Igreja nem o papel e as modalidades dos ministérios ordenados de que precisa.

Sem ter isto em conta, não é possível compreender a resistência que existe, na hierarquia, para modificar o actual regime dos ministérios ordenados na Igreja. Continuaremos no absurdo: exige-se a certas comunidades religiosas a celebração diária da Eucaristia, quando, em muitos países, já não há padres para o exercício pastoral das paróquias e movimentos. A própria distribuição do clero não pode ser muito consequente porque não tem clero para distribuir.

Os padres também envelhecem e morrem. Na Europa, os que se apresentam como candidatos já nem como remendos conseguem responder às urgências!

O ridículo da questão é o seguinte: entre mulheres e homens, jovens e adultos, não há falta de vocações nas comunidades católicas para que toda a Igreja responda à sua missão. Falta, entre outras decisões, alterar o seu estatuto actual. Não cabe na cabeça de ninguém que as comunidades cristãs europeias não possam gerar os serviços de que precisam. Criam-se obstáculos canónicos, como se fossem divinos, para não resolver o que pode ser resolvido sem drama.

O grande teólogo dominicano, o flamengo Edward Schillebeeckx, sofreu três processos romanos acerca da sua teologia. O último foi sobre os ministérios eclesiais (1984). Com palavras mansas, o cardeal Ratzinger deu por encerrado o debate sem qualquer condenação, mas depois publicou no L’ Osservatore romano uma nota dedicada ao povo cristão. Nela declara que para a Congregação da Doutrina da Fé subsistem na posição do teólogo referido alguns pontos de desacordo sobre a Doutrina Oficial da Igreja. Não diz, porém, que a sua doutrina esteja em oposição com a fé. Não foi elegante este processo, mas levou Schillebeeckx à seguinte conclusão: moveram-me três processos. Não fui condenado em nenhum. Era um teólogo feliz[i].

Schillebeeckx morreu, Ratzinger está vivo e vigilante. Não é fácil para o Papa Francisco proceder à revisão desse processo. Vai sendo tempo de convocar teólogas e teólogos para retomarem uma questão clamorosa que só por artifícios pode ser abafada. É um desafio a assumir nos próximos anos, a começar em 2019.

 

3. Regressemos ao ponto 1. Dir-se-á, e é verdade, que a problemática até aqui abordada refere-se a questões de funcionamento interno da Igreja, mas esta não existe para si mesma. Não pode ser auto-referente. Deve renascer continuamente para a missão.

O Vaticano II (1962-1965) não quis cingir-se a questões de funcionamento interno. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes é sobre a Igreja no mundo contemporâneo, não é sobre a Igreja nas sacristias actuais.

Afirma literalmente: as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.

Não interessa, neste momento, analisar a história dos seus ziguezagues desde há 50 anos. O Papa Francisco resolveu apresentar o programa do seu pontificado – O Evangelho da Alegria (EG) – em linha recta com um Concílio em que não tinha participado. Por essa razão, ligou a questão do anúncio do Evangelho com um novo olhar sobre a economia e a política actuais, sabendo que ia causar problemas.

«Se alguém se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a dum inimigo nem a dum opositor. A mim interessa-me apenas procurar que, quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra[ii]».

Notas: 

[1] Edward Schillebeeckx, Je suis un théologien  heureux, Cerf, Paris, 1995, pp 67-7
[2] EG 208

 

 

 Frei Bento Domingues, O.P.

Fonte: https://www.publico.pt/2018/12/30/sociedade/opiniao/2019-igreja-antigos-novos-desafios-1855962

 

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