Famintos e já com pouco a perder

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FERNANDO SOUSA – Dezembro 2018

Foto: Caravana de migrantes

Lusa/Lusi Villalobos 

São milhares e vão a caminho dos Estados Unidos, empurrados pela miséria. Sabem que não vão ser bem recebidos.

Mas mesmo assim caminham, e caminham, homens, mulheres e crianças, já com pouco a perder.

 

 

 O que se tem dito dos milhares que vêm procurando a Europa à procura de paz e comida é o que se pode dizer também dos que estão a atravessar o México na mira das mesmas coisas. É o infeliz Natal dos hondurenhos que se fartaram da miséria e foram à procura da Esperança onde acham que ela mora – nos Estados Unidos.

Foi uma coisa repentina, e não foi: se bem que organizada em circunstâncias mal esclarecidas, e através do Facebook, é o resultado da violência, da pobreza e da instabilidade que devasta os países do istmo americano, neste caso as Honduras. E qualquer destas mazelas conduz às outras.

A «marcha da fome», como lhe chamou o escritor peruano Vargas Llosa, começou no dia 13 de Outubro, uma quarta-feira igual a qualquer outra, em San Pedro Sula. E logo aqui se começa a perceber alguma coisa: a capital do departamento Cortés recebeu em 2015 um dos mais trágicos títulos que uma comunidade pode ver atribuída – o da cidade mais perigosa do mundo, com 112 homicídios por 100 mil habitantes, isto para uma população de pouco mais de um milhão.

 

Fome

E aliada à violência anda frequentemente a falta de quase tudo – ou mesmo tudo. Seis em cada dez pessoas vivem ali na pobreza e quatro na extrema pobreza, algumas nem comem uma vez por dia. O número de deserdados chega aos cinco milhões. E ainda assim as companhias de luz, água e gás cobram-lhes facturas de Primeiro Mundo. Onde está o ponto de saturação do ser humano?

Relacionada com toda a desgraça está evidentemente a instabilidade política desde há uns nove anos. Tudo começou a descarrilar em 2009 com o afastamento do poder do presidente Manuel Zelaya na sequência de um golpe que alguns acham que não foi. Depois houve mais duas eleições ganhas pela direita, mas a paz institucional nunca chegou. Juan Orlando Hernández, reeleito há um ano, foi acusado de fraude, houve distúrbios, mortos e feridos, e haveres destruídos, a Organização dos Estados Americanos pediu um novo acto, mas tudo isso foram feijões e nada mudou.

Neste ponto é sintomático do estado das coisas o que Hernández anda a dizer aos média norte-americanos, ignorando que o seu país está no lugar 133 do Índice do Desenvolvimento Humano (2018) e que todos os dias fogem dele 300 pessoas, números da Igreja: que a caravana dos famintos «está organizada pela esquerda radical» e a antena local do presidente venezuelano Nicolás Maduro, que pretende desestabilizar o país.

 

Tensão

E foi neste contexto que uma organização chamada Povos sem Fronteiras e, segundo o Governo hondurenho, um activista chamado Bartolo Fuentes, um ex-deputado, começaram a juntar os mais fartos para irem para os Estados Unidos. Que não se sabe exactamente quantos são, se 7 mil, se 6 mil, se 5 mil, principalmente depois de famintos de outros países, guatemaltecos, salvadorenhos e nicaraguenses, se terem somado rumo ao norte.

Violência, pobreza e má política, eis o caldo da caravana que o México, que não tem acordo migratório com as Honduras, não conseguiu, ou não quis, deter, trocando a repressão pela incapacidade e a comiseração, e que o presidente norte-americano, Donald Trump, apostou travar com recurso ao Exército. E isto mesmo depois de oito dos nove distritos dos quatro Estados norte-americanos que confinam com o México (que nunca gostaram da ideia do anunciado muro de 3169 quilómetros para deter a imigração ilegal) terem votado maioritariamente nas eleições do mês passado para o Congresso a favor dos democratas, demarcando-se assim da política antimigratória do presidente republicano, brutal e neste caso também ilegal.

O recurso à força para deter a marcha, que inclui muitas mulheres e crianças, diz bem da política agressiva, dentro e fora, do presidente Trump desde que chegou à Casa Branca, política que neste caso é ainda ilegal por ser direito de um requerente de asilo ser pelo menos recebido e ouvido. As autoridades atendem todos os dias dezenas de candidatos, por exemplo, em El Paso. Só na segunda semana de Novembro foram 200. Não se percebe porque é que neste caso os espera como invasores.

 

Fernando Sousa

Fonte: fhttp://www.alem-mar.org/imgs/2018/12/A-M_Dez2018_Pag14.jpg

 

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