Se ninguém der o braço a torcer, este shutdown será tão longo como a fronteira com o México

O Presidente Donald Trump exige verbas para o início da construção do muro

 
 

Se os congressistas não lhe dessem quase seis mil milhões de dólares para o início da construção de um muro na fronteira com o México, então os orçamentos que mantêm em funcionamento muitos dos serviços prestados aos cidadãos ficariam na gaveta da secretária presidencial, à espera que o Partido Democrata mudasse de ideias – em resumo, é isto que está em causa quando se fala de um shutdown no Governo norte-americano.

As palavras exactas que o Presidente Trump atirou na direcção do líder dos democratas no Senado, Chuck Schumer, foram ouvidas em directo por milhões de espectadores e ficaram gravadas para a posteridade:

“Aceito vestir o manto do shutdown e não vou culpar-vos por isso. Vou paralisar [o Governo] para lutar por mais segurança na fronteira.”

Na quinta-feira, dez dias depois daquela reunião tensa na Casa Branca,

O que aconteceu por estes dias, entre duas declarações tão taxativas como contraditórias, é a história

  • de um Presidente que se viu obrigado pelos seus apoiantes a lutar pela sua promessa mais emblemática,
  • e de um Partido Democrata decidido a manter-se firme na oposição à construção de um muro na fronteira com o México

– tudo isto quando faltam apenas duas semanas para que os democratas passem a estar em maioria na Câmara dos Representantes, fechando ainda mais as portas ao sonho dos apoiantes de Trump.

Milhares sem salário

Ninguém sabe ao certo se todos os departamentos que precisam de novas verbas serão forçados a encerrar e a enviar os funcionários para casa. Se as paralisações anteriores servirem de exemplo, é provável que

  • parques nacionais,
  • museus e monumentos,
  • e serviços como inspecções alimentares e emissão de passaportes,

sejam afectados – deixando centenas de milhares de funcionários em casa, ou forçando a trabalhar os que forem considerados essenciais, sem serem pagos.

Não há nenhuma lei que garanta o salário aos trabalhadores afectados por um shutdown, mas o Congresso costuma autorizar o pagamento dos dias quando a situação regressa à normalidade.

Tudo ou nada

A grande questão deste shutdown é que o assunto que o motiva

  • é tão emblemático para as duas partes – o Presidente Trump e o Partido Democrata –
  • que ninguém percebe como será resolvido
  • sem que uma das partes saia claramente derrotada.

Depois do confronto em directo entre o Presidente e os líderes democratas, na semana passada, a Casa Branca deu sinais de que poderia aceitar um compromisso:

  • Trump aceitava uma proposta temporária do Senado que desbloqueava verbas, sem os tais seis mil milhões para a construção do muro,
  • e a questão voltaria a ser discutida até 8 de Fevereiro, a nova data para a aprovação definitiva dos orçamentos.

Mas quando o sector mais conservador do Partido Republicano soube que isso poderia acontecer, Trump começou a ser atacado pelos seus apoiantes.

A comentadora política Ann Coulter, que escreveu um livro intitulado In Trump We Trust (“Em Trump confiamos”) e que chegou a chamar ao Presidente um “Deus imperador”, foi implacável no texto que publicou no seu site na quarta-feira: “Um Presidente sem coragem num país sem muro.”

Por isso,

  • quando o Partido Republicano e o Partido Democrata se uniram, no Senado, para aprovarem a tal proposta de compromisso, na noite de quarta-feira,
  • o sector mais conservador dos republicanos na Câmara dos Representantes virou tudo do avesso.

Em vez de aprovar a proposta do Senado – que evitaria um shutdown –, a maioria republicano na Câmara dos Representantes aprovou outra: as verbas federais seriam desbloqueadas, mas com um anexo que dava ao Presidente os quase seis mil milhões de dólares para o início da construção do muro.

É por isso que o Presidente Trump fez girar 180 graus a promessa feita na semana passada. Afinal, interessa-lhe agora transmitir a mensagem de que a bola passou para o outro lado:

“Os democratas, de cujos votos precisamos no Senado, vão provavelmente votar contra a segurança na fronteira e o muro (…) Se votarem contra, haverá um shutdown durante muito tempo”, disse Trump.

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