Um presidente fora-da-lei

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Por: Margarida Santos Lopes- Dezembro de 2018

Foto: Filipinas quer dar armas de graça para quem quiser combater o crime nas ruas – LOL Esporte/ forum.lolesporte.com

A guerra às drogas de Rodrigo Duterte terá causado, em dois anos e meio, quase 20 mil mortos. Não é um número que pareça incomodar os partidários do «Trump da Ásia», populista, iliberal, violento.

Que razões o levaram ao poder? E o que poderá conduzir à sua queda?

 

 Em 2015, mais de três quartos dos Filipinos estavam satisfeitos com o modo como a democracia funcionava;

  • havia estabilidade política e crescimento económico;
  • a criminalidade, o tráfico e consumo de drogas não eram grande preocupação.

Então, como explicar a eleição, em Maio de 2016, de Rodrigo Duterte, um «senhor da guerra» simpatizante de Hitler e saudoso do ditador Ferdinand Marcos?

«É tudo uma questão de óptica», diz à Além-Mar, em entrevista por telefone, Mark R. Thompson, director do Centro de Investigação do Sudeste Asiático na City University of Hong Kong.

«Mesmo que, em termos estatísticos, os factos não apoiassem a mensagem de Duterte – a de que as Filipinas se estavam a tornar um narco-estado –, ele foi ao encontro dos medos das pessoas.»

«Havia a percepção de que [o anterior presidente] Benigno S. “Noynoy” Aquino III era incapaz de manter a lei e a ordem, perante escândalos como o da maior prisão filipina estar sob controlo de barões da droga», acrescenta o autor de Anti-Marcos Struggle.

«Algumas sondagens indicavam que

  • a principal preocupação dos cidadãos era o crime,
  • não o desemprego.

Ora, Duterte apresentou-se como o único capaz de resolver estes problemas. E funcionou bem a estratégia de securitização.»

  • «Um político para quem a ditadura não é uma coisa má
  • apresentou um país em crise em que ele precisava de ser duro e os mauzões tinham de morrer»,

tal como fez quando era presidente da Câmara de Davao, refere o cientista político Thompson.

«Num contexto de instituições fragilizadas, perante o fracasso do liberalismo reformista,

  • Duterte aparece como salvador,
  • não apenas para eliminar a criminalidade,
  • mas também combater a pobreza,

com o argumento de que a economia floresce uma vez restauradas a disciplina e a paz. Muitos, desesperados, acreditaram nele.»

Para Walden Bello, que foi membro da Câmara dos Representantes das Filipinas de 2009 a 2015,

«a principal razão para a vitória de Duterte foi a incapacidade de, nos últimos trinta e dois anos, o sistema democrático liberal cumprir as promessas de reforma política, social e económica».

Diz ele, em entrevista por correio electrónico à Além-Mar:

  • «As elites sequestraram o processo eleitoral
  • para poderem competir entre si e perpetuar um poder de classe,
  • enquanto a pobreza e a desigualdade atingiam picos impressionantes.

A democracia tornou-se sinónimo de corrupção generalizada. Havia também uma sensação de insegurança física, sobretudo entre a classe média, o que ofereceu a Duterte um passaporte para o poder.»

Tal como Thompson, também Bello, hoje professor de Sociologia na State University of New York, nos EUA, e investigador na Universidade de Quioto, no Japão, observa que,

«para numerosas pessoas, só um líder autoritário poderia purificar um país que, segundo elas, se transformara num pântano de corrupção, injustiça e crime».

 

Violento e privilegiado

Rodrigo “Digong” Duterte nasceu em 1945 em Maasin, em Visayas Oriental. É o filho mais velho da professora Soledad e do advogado Vicente, que foi presidente da câmara de Danao/Cebu e governador da antiga província de Davao, na ilha de Mindanau, no Sul.

 

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Notícias – R7.com – Filipinos protestam contra lei marcial proposta por Duterte – Notícias – R7 Internacional

A violência – em casa, na escola primária jesuíta, no bairro onde se envolvia em rixas e onde aprendeu as expressões rudes que hoje polvilham os seus discursos – sempre fez parte da vida de Rodrigo, conta o irmão, Emmanuel, ao jornal The New York Times. A mãe costumava castigá-lo com tanta frequência que «desfez o chicote com que o espancava».

Por mau comportamento, foi também expulso de dois liceus. Em 1972, formou-se em Direito, depois de obrigado pelo pai a ser advogado para custear as despesas legais dos seus imbróglios. No último ano do curso, feriu a tiro um colega que o teria insultado. Desde os 15 anos que andava armado, segundo o irmão.

Apesar dos castigos maternos na infância, a má conduta de Rodrigo era quase sempre desvalorizada, por ele ser «o filho do governador», admite a irmã, Jocellyn. A carreira política de Duterte começou precisamente por ele ser um privilegiado. Em 1986, quando a mãe, que participara em marchas contra Marcos, foi recompensada pela sucessora do ditador, Corazón Aquino, com o cargo de vice-presidente da câmara de Davao, Soledad pediu que o posto fosse atribuído ao filho Rodrigo, já assistente do procurador. Dois anos depois, seria eleito presidente do município.

Ganhou com a promessa de combater a criminalidade. Para isso, impôs o recolher obrigatório e criou grupos de vigilantes conhecidos por «Esquadrões da Morte Duterte», que em duas décadas mataram mais de 1400 presumíveis traficantes de droga e membros de gangues, mas também crianças de rua e jornalistas críticos.

 

O «Trump da Ásia»

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Duterte alia exageros de Trump a experiência na política e nas ruas / Uol

Cognominado «O Castigador», Duterte entrou na corrida para a chefia do Estado no final de 2015 depois de inicialmente ter excluído candidatar-se. Começou por defender

  • um governo parlamentar federal
  • e a revitalização da indústria do aço,
  • mas rapidamente o seu programa se centrou nas políticas que lhe deram sete mandatos e o popularizaram em Davao.

Poucos se escandalizaram

  • quando ele jurou «exterminar todos os criminosos»
  • ou quando jocosamente lamentou a oportunidade de não ter violado uma linda missionária australiana antes de ela ter sido assassinada.

Como 16.º presidente das Filipinas, Duterte continua a não filtrar a retórica, o que levou Mark R. Thompson a chamar-lhe «o Trump da Ásia». Em Setembro de 2016, dois meses depois de tomar posse, comparou ao Holocausto a sua «guerra às drogas» que já terá causado, segundo a Human Rights Watch, cerca de 20 mil mortos. «Hitler massacrou três milhões de judeus. Aqui há três milhões de viciados em drogas. Ficarei feliz por os matar a todos.»

«A sua linguagem é grosseira, desrespeitadora dos direitos humanos, mas muitos vêem Duterte como alguém que não é hipócrita», afirma o ex-congressista Waldo Bello. «Ele criou uma persona de pai severo que não hesita em disciplinar os filhos extraviados, usando os meios que acha necessários. Há um termo filipino-espanhol que define bem a sua relação com o povo: “cariño brutal”.»

 

Fascista ou populista

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Dez mil mortos em 1 ano: o terror do “castigador” Duterte contra as … Medium

Defensores de Duterte em manifestação a favor da política anti-drogas do presidente (Foto: Romeo Ranoco / Reuters)

Porque é que os Filipinos,

  • que em 1986 derrubaram o tirano Marcos,
  • agora idolatram Duterte,
  • que Waldo Bello define como «um fascista original», por ser uma

«figura carismática, com uma fervorosa base popular, estar envolvido em actos repressivos a nível nacional e ter um projecto incompatível com a democracia»?

«A revolta contra Marcos foi há trinta anos e a maioria dos filipinos, uma população muito jovem, não tem memória disso», responde Thompson. «Até entre os mais velhos há uma certa nostalgia dos tempos da ditadura, porque Marcos construiu, por exemplo, muitas infra-estruturas, o que não mais aconteceu depois dele.»

Marcos tinha «uma personalidade muito diferente» de Duterte, especifica Thompson.

  • «Era advogado, extremamente cauteloso e metódico. Só impôs a lei marcial quando achou oportuno.
  • E, embora tenha assassinado milhares de pessoas, não o fez na forma extravagante de Duterte.
  • Em vez de depender da Polícia, como Duterte, confiava no Exército.

Ao contrário de Marcos,

  • Duterte visa mais os criminosos do que os inimigos políticos. Sim, vários presidentes de câmara e outros críticos internos têm sido intimidados, silenciados, presos e assassinados.

Mas Marcos encarcerou milhares de opositores durante muitos anos. Era um ditador clássico, o que Duterte não é

Thompson, que recusa qualificar Duterte de fascista, porque o líder filipino «não é suficientemente ideológico e metódico» para assim ser descrito, diz que a melhor definição é a de um «populista iliberal extremamente violento, que recorre a assassínios em massa». É, basicamente, «um senhor da guerra que governa o país, improvisando, como se ainda fosse presidente da câmara».

 

Riscos económicos

 

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«Não deixa de ser irónico que um tipo que comanda uma guerra às drogas seja viciado em Fentanil [um medicamento 50 vezes mais potente do que a heroína], que matou, por dose excessiva, o artista Prince.» Foto: philstar.com 

 

O que pode fazer cair Duterte, o political boss [chefe político] que neutralizou a oposição (os principais partidos juntaram-se a ele) mas cuja taxa de popularidade tem vindo a cair, de mais de 80 % para os 65 % actuais?

«Creio que serão as promessas económicas não cumpridas», diz Thompson. «Os Filipinos têm um modelo de crescimento muito limitado. Dependem de dois motores da globalização:

  • a mão-de-obra emigrante (cerca de dez milhões de pessoas)
  • e os trabalhadores dos call centers.

Ora, a emigração tem vindo a afrouxar e os call centers estão a ser gradualmente substituídos por [dispositivos de] inteligência artificial. E não há outras áreas a substituí-los.»

Outra questão problemática, refere Thompson, é o investimento externo.

«Há diferenças entre o que foi apregoado e o que está a ser concretizado.

  • Os investidores ocidentais mostram-se assustados com a guerra às drogas.
  • Também os filipinos no estrangeiro, cosmopolitas e com acesso às redes sociais, começam a perder a fé num homem que denigre a imagem do país, outrora associado à democracia e ao progresso. Se vier a provar-se que Duterte é desonesto e protege os amigalhaços corruptos, todas as mortes terão sido em vão e o pêndulo a seu favor poderá recuar. Em resumo, não serão os assassínios extrajudiciais que enfraquecerão Duterte e sim a sua política económica.»

Haverá o risco de um golpe militar? O ex-parlamentar Waldo Bello está convencido que

  • o Exército não tem interesse em destituir o presidente,
  • porque já o convenceu a afastar a extrema-esquerda do governo.

O professor Thompson partilha a opinião.

  • «Duterte corteja os militares, ainda presos à mentalidade anticomunista da Guerra Fria,
  • e sabe que não pode pisar as linhas vermelhas que eles definem.

No entanto, se houver um grande escândalo, uma grave crise económica, não é certo que ele conserve a lealdade dos militares.»

O septuagenário Duterte admite publicamente os seus problemas de saúde. Quem poderá ocupar o seu lugar se sair de cena? Thompson desvaloriza a gravidade das «doenças prolongadas sem risco de vida» do presidente, e anota:

«Não deixa de ser irónico que um tipo que comanda uma guerra às drogas seja viciado em Fentanil [um medicamento 50 vezes mais potente do que a heroína], que matou, por dose excessiva, o artista Prince.»

 

Resultado de imagem para Sara Duterte, filha de RodrigoResultado de imagem para Ferdinand “Bongbong” Marcos Jr.Ferdinand Marcos Jr./Senate of Philipines  |Sara Duterte/Wikipedia

Sobre eventuais sucessores, o académico em Hong Kong não exclui que Ferdinand “Bongbong” Marcos Jr., filho do deposto ditador, venha ainda a reclamar a vice-presidência que perdeu, em 2016 (numa eleição separada), para a líder da oposição Leni Robredo, ou a disputar as próximas presidenciais.

«Tem uma base política e imenso dinheiro.»

Mas Thompson prefere chamar a atenção para Sara Duterte, filha de Rodrigo e actual presidente da câmara de Davao.

«Ela tem adoptado uma posição discreta, mas faz o que lhe apetece, tal como o pai, e é seguramente o poder por detrás do trono – há a possibilidade de uma sucessão dinástica.»

 

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Margarida Santos Lopes

Fonte: http://www.alem-mar.org/cgi-bin/buildprint.pl?EVuuuFyZZpawlCHHCo

 

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