“A Igreja não pode continuar a ser machista e misógina”

Entrevista a Anselmo Borges

 

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por Vanda Marques, 17/12/2018 

Anselmo Borges, padre e professor universitário, faz um balanço da actuação do Papa num ano em que rebentou o escândalo da pedofilia.

Frontal e defensor do Papa Francisco, Anselmo Borges defende que a actuação do líder da Igreja Católica tem sido muito positiva, mas ainda é preciso “superar uma Igreja centralizada, vaticanista”.

Anselmo Borges refere ainda que é tempo da Igreja Católica dar mais espaço às mulheres e destaca até o facto de o Papa já ter nomeado assessoras para a Cúria. 

O padre e professor universitário analisa o escândalo de pedofilia que abalou o Vaticano e reforça que o Papa fez o que devia ao condenar as atrocidades da pedofilia. 

  • Autor de vários livros – como Francisco. Desafios à Igreja e ao Mundo
  • – e colunista do Diário de Notícias,
  • defende a liberdade de opinião e debate abertamente temas fraturantes no seio da Igreja como a ordenação de homens casados, que acredita estar para breve. 

Numa altura de celebração do Natal, Anselmo Borges alerta ainda para a doença do consumismo, que faz com que as pessoas se sintam saturadas desta época. “O pior é que essa voragem do consumo se estende até às pessoas, que se deixam explorar a si mesmas para adquirir o último modelo de automóvel, de telemóvel…”

Por isso, o padre, da Sociedade Missionária Portuguesa, e  doutorado em Filosofia pela Universidade de Coimbra de cuja Faculdade de Letras é Professor, defende que a mensagem do Natal é a festa do nascimento de Jesus com a mensagem: “sou amado, logo existo.” 

 

A ENTREVISTA


Como avalia a actuação do Papa num ano marcado por vários temas polémicos?

Sem dúvida, positiva. Continuou a ser um cristão que imita Jesus por palavras e obras. Proclama o Evangelho, notícia boa e felicitante, isto é, que Deus é amor e que ama a todos, a cada um e a cada uma, e age em consequência: ele próprio está com todos, a começar pelos mais pobres, frágeis e abandonados, as “periferias”, como ele diz. Para a pedofilia, tolerância zero, transparência no Banco do Vaticano, reforma funda da Cúria, um cancro na Igreja.

Francisco vive na simplicidade e tenta fazer o possível para que os cardeais, bispos, padres e católicos em geral se convertam também a Jesus e sejam seus discípulos como cristãos. Com ele,

  • não só nunca mais houve condenação de teólogos
  • como ele próprio tentou recuperar alguns excluídos.

Continua a impulsionar o diálogo ecuménico e inter-religioso (visitará em Fevereiro Abu Dhabi, capital dos Emiratos Árabes Unidos, precisamentte para participar num encontro inter-religioso internacional sobre a “Irmandade humana”). É também um líder político-moral global e luta, inclusive através da diplomacia, pela justiça estrutural no mundo e pela paz. Incansavelmente.

 

O Papa Francisco tem conseguido renovar a Igreja? 

O Papa Francisco faz o que pode.

Ele precisa de superar uma Igreja

  • centralizada, piramidal, vaticanista, gerontocrática, masculina, clerical,
  • na qual as decisões são tomadas por poucos,
  • quase sempre de modo secreto
  • e excluindo a quase totalidade, que são os cristãos, sem voz e que devem obedecer.

Ele quer uma Igreja dialogante e inclusiva, sinodal, isto é, com a participação de todos, caminhando juntos. Mas encontra resistências temíveis

  • por parte de cardeais, bispos, padres e leigos,
  • dentro e fora da Igreja,
  • instalados e que não querem abdicar dos seus privilégios.

Um problema maior para Francisco são os mediadores, padres e bispos, que nem sempre têm o espírito e a preparação que o animam a ele.

A pergunta é:

  • precisando a Igreja de uma nova Constituição,
  • Francisco vai conseguir?

Evidentemente, o fundamento de tudo é a conversão de todos ao Jesus do Evangelho, mas, concretamente no contexto de uma Igreja enquanto instituição verdadeiramente global, a única aliás, será necessária também uma nova forma de Governo, de que o sociólogo católico Javier Elzo deu uma excelente figuração para os tempos actuais:

  • “uma Igreja em rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que cubra a face da Terra, 
  • com diferentes nós em diferentes partes do mundo, 
  • inter-relacionados e todos religados a um nó central, que não centralizador, 
  • que, na actualidade, está no Vaticano. 

No Vaticano ou noutras partes do planeta,

  • todos os anos se reuniria uma representação universal de bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, leigos (homens e mulheres),
  • todos sob a presidência do Papa,
  • para debater a situação da Igreja no mundo e adoptar as decisões pertinentes”.

Portanto, um Sínodo universal,

  • onde o Papa continua a ter uma palavra decisiva,
  • mas onde todos têm direito a voto
  • e tomando decisões com uma maioria clara (dois terços?).

Poderá o Papa caminhar neste sentido, evitando ao mesmo tempo o perigo de um cisma?

 

Quais foram os discursos mais marcantes do Papa neste ano?

No meu entender,

  • os que pronunciou em várias ocasiões sobre a tragédia da pedofilia por parte do clero,
  • exigindo medidas para lhe pôr fim,
  • e os que, por ocasião do Sínodo dos Bispos sobre e com os jovens,
  • se referiram precisamente à exigência de sinodalidade na Igreja, nas suas várias instâncias.

Também não se tem cansado ao longo do ano de denunciar

  • o capitalismo desenfreado, selvagem e sem regras, que mata,
  • e de apelar para a salvaguarda do planeta ameaçado,
  • que, há já o aviso de cientistas, corre o risco de colapso.

 

Como pensa que o Papa lidou com a questão dos escândalos de pedofilia nos EUA?

Fez o que devia. Numa carta, condenou as “atrocidades” da pedofilia. Constatou:

“Embora possamos dizer que a maioria dos casos pertence ao passado, as feridas infligidas não desaparecerão nunca, o que nos obriga a condenar com força estas atrocidades”.

Apontando para o futuro:

  • “Tendo em consideração o passado, o que se pode fazer para pedir perdão e reparar o dano causado nunca será suficiente.
  • Tendo em consideração o futuro, nada deve ser descurado para impor uma cultura
  • que não só garanta que essas situações não se repetem
  • como também para que não encontrem o terreno propício para a ocultação e perpetuarem-se”.

Recebeu representantes dos bispos dos Estados Unidos, e o cardeal Th. McCarrick foi forçado a renunciar por causa dos escândalos.

Mas a tragédia

  • é que a chaga da pedofilia clerical não é só nos Estados Unidos;
  • ela está disseminada por países dos vários continentes.
  • E é preciso ir às suas causas profundas.

Assim, o Papa não se cansa de denunciar

  • o carreirismo eclesiástico
  • e “os abusos sexuais, de poder e consciência”,
  • o que implicitamente supõe que se trata de uma podridão estrutural eclesiástica,
  • implicando a cumplicidade das mais altas instâncias da Igreja,
  • em total contradição com o Evangelho,

onde se encontra aquela palavra de Jesus, a mais dura que pode haver contra a pedofilia:

“Ai de quem escandalizar uma criança. Era preferível atar-lhe a mó de um moinho e lançá-lo ao fundo do mar”.

Num recente editorial do “National Catholic Reporter”, dirigido à Assembleia dos Bispos norteamericanos, mas válido para a Igreja universal, depois de referir que “se trata da podridão no centro da cultura da liderança da comunidade católica”,

lê-se:

  • “Estivestes durante demasiado tempo instalados numa cultura que vos protegeu das consequências dos vossos piores instintos…,
  • bebendo os excessos de poder, autoridade e privilégio que acumulastes durante séculos.”

Assim, Gregorio Delgado, a quem devo esta citação, conclui:

“Quem, na sua consciência, se sente ter incorrido em encobrimento, deveria ter a coragem de renunciar ao cargo.

Agora, o caminho a seguir é

  • dizer a verdade,
  • ser transparente,
  • não ocultar,
  • cooperar com as autoridade dos Estados,
  • ajudar e apoiar as vítimas,
  • ser humildes,
  • decidir rectificar
  • e, se for caso disso, ir embora para casa.

Continuará a haver palavras a mais, se não forem acompanhadas de factos. Testemunho evangélico.”

Lá está o Evangelho segundo São João, numas palavras que pude ler também no frontispício da Universidade de Friburgo, na Alemanha: “A verdade libertar-vos-á”.

A ocultação já não é mais possível.

  • E enquanto não se tomar medidas fundas para acabar com o intolerável da situação,
  • a Igreja só se afundará mais na sua descredibilização.

Por isso, o Papa Francisco tomou a medida inédita de convocar os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo para Roma, em Fevereiro próximo (21-24), para debater e tomar medidas sobre os abusos e a protecção das crianças. Será decisiva. Decisiva também para que, acabando de modo definitivo com os abusos sexuais de menores e de pessoas fragilizadas na Igreja, esta possa dar um contributo essencial para pôr termo à pedofilia nas famílias, em centros de educação e no desporto.

  • De facto, a Igreja não tem o monopólio sobre esta tragédia.
  • Como é sabido, a maior parte dos casos acontecem na família
  • e há inclusivamente países onde é legal o casamento com menores.

 

Depois das acusações feitas ao Papa, pensa que a facção mais conservadora não voltará a fazer mais ataques?

Não se pode ser ingénuo e, por isso, é precido estar atento, pois o que se observa é que

  • até já há grupos que querem,
  • pensando no próximo conclave que escolherá o sucessor de Francisco,
  • influenciar cardeais ou minar a credibilidade daqueles que poderiam estar mais na sua linha.

O que pode Francisco fazer? Se a reunião dos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo for um êxito, como é exigido,

  • ele poderia mudar as regras de eleição do sucessor
  • e, de modo mais representativo e democrático,
  • o processo de eleição incluir também esses presidentes.

 

Acredita que o Simpósio do Clero, que decorreu em Fátima em Setembro, contribuiu para se olhar de outra forma para o celibato?

  • O Simpósio nem sequer teve grande eco.
  • Sinceramente, julgo que apenas repetiu o habitual.

Neste contexto, lembrei-me da minha participação no terceiro Simpósio do Clero em 1999, com uma intervenção. Manifestei então a minha posição quanto ao ser padre, que também sou convictamente, e como o ser padre pode realizar uma existência:

  • anunciamos a notícia mais revolucionária e humanizante da História, o Evangelho de Jesus;
  • estamos, com essa Mensagem, presentes na vida toda das pessoas,
  • desde a festa do nascimento (baptismo) à morte (no funeral, consolando com a esperança da vida plena e eterna),
  • celebrando na beleza com as comunidades o amor de Deus, Pai-Mãe, manifestado em Jesus, na Eucaristia,
  • celebrando o casamento e todas as alegrias e tristezas da existência humana,
  • dando o perdão de Deus,
  • iluminando com inteligência as perguntas e respostas que a vida requer,
  • suscitando e coordenando boas vontades e a generosidade de tantos a favor da justiça e da paz.

Fiz então também algumas perguntas, que continuam, penso, válidas:

  • “Talvez fosse de fazer-se um inquérito competente aos cristãos e à opinião pública em geral sobre o que é que pensam em relação aos padres: ainda têm alguma função útil neste nosso mundo?,
  • o que é que se espera deles?,
  • o que é que mais se critica neles?,
  • o que é que mais se aprecia neles?

Pergunte-se concretamente a tantos seminaristas que saíram e saem dos seminários o que é que os leva a abandonar.

Pergunte-se aos bispos e responsáveis dos seminários

  • se estão convencidos de que a formação que neles se dá hoje prepara para a realidade do nosso mundo,
  • se acreditam sinceramente no celibato como lei,
  • se, numa sociedade cada vez mais secularizada e pluralista, os não perturba a existência de seminários menores,
  • se já pensaram no perigo de uma formação que pode colocar perante a alternativa: ser um fundamentalista manso ou, quando amanhã se der o confronto real com a vida real, sentir-se enganado.

Faça-se sobretudo um inquérito aos padres, aberto, livre, secreto:

  • é feliz?,
  • continua encantado?,
  • anda desencantado?,
  • gostaria de casar?,
  • a solidão é crua?,
  • se fosse hoje, voltaria a pedir a ordenação?,
  • o que é que continua a fasciná-lo como padre?,
  • que dificuldades encontra?,
  • que apoios lhe são oferecidos?,
  • que pensa da situação económica do clero, sobretudo quando olha para o seu futuro na reforma?,
  • sente-se o animador de comunidades vivas de homens e mulheres que procuram seguir Jesus e o seu Reino de Deus ou um simples funcionário de uma instituição cansada, imperial e distante?,
  • se estivesse nas suas mãos, o que é que mudaria na vida dos padres?”


O Papa Francisco disse que “é necessário que essa contribuição [da mulher] seja incentivada e encontre mais espaço, coerentemente com o aumento da presença feminina nos vários âmbitos de responsabilidade da Igreja, em particular, e não somente no campo cultural”. Acha que teve efeitos? A Igreja está hoje mais aberta às mulheres?

  • Jesus não discriminou as mulheres. Contra o que era prática no seu tempo, teve discípulos e discípulas.
  • São Paulo, na Carta aos Romanos, refere-se a Júnia, ilustre entre os Apóstolos.

Assim, a Igreja não pode continuar a ser machista e misógina. As mulheres têm de ser tratadas em igualdade de direitos.

Francisco já nomeou assessoras para um Dicastério (Ministério) da Cúria, concretamente a Congregação para a Doutrina da Fé…. Mas falta dar ainda saltos gigantescos para acabar com a discriminação.

 

O exemplo de Maria, mãe de Jesus, deveria ser ainda mais celebrado hoje em dia do que é?

Sim, desde que se entenda o lugar de Maria na Igreja: ela é a primeira cristã, convertida à mensagem do seu Filho, Jesus. No Evangelho Segundo São Lucas aparecem estas palavras dela, que constituem uma verdadeira revolução:

  • “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.
  • Porque pôs os olhos na humildade da sua serva.
  • De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações.
  • A sua misericórdia estende-de de geração em geração sobre aqueles que o temem.
  • Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos.
  • Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.
  • Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.”

 

Com este movimento ultra conservador na Igreja, acha que – tal como disse numa entrevista – Francisco ordenará homens casados?

Estou convicto de que é inevitável. E poderá acontecer já no próximo ano, com o Sínodo sobre a Amazónia.

Veja:

  • os Apóstolos eram casados, pelo menos alguns.
  • No primeiro milénio da Igreja houve papas, bispos, padres, casados.
  • A lei do celibato obrigatório só foi imposta no século XI com o Papa Gregório VII.
  • No entanto, só se universalizou relativamente, pois não se estendeu à Igreja oriental, no Concílio de Trento, no século XVI.

Eu digo:

  • a Igreja não pode impor por lei
  • o que Jesus entregou à liberdade
  • e, portanto, o celibato deve ser opcional.

 

E que pensa da ordenação de homossexuais?

Esta questão tornou-se mais candente por causa de uma afirmação do Papa Francisco, referente precisamente à questão da homossexualidade num livro de entrevistas, “A força da vocação”, que acaba de ser publicado:

“A Igreja recomenda que

  • as pessoas com essa tendência enraizada
  • não sejam aceites no ministério nem na vida consagrada.
  • O ministério ou a vida consagrada não é o seu lugar”.

Evidentemente, esta afirmação deve ser colocada no contexto, que é

  • o das exigências que o ministério sacerdotal
  • ou a vida consagrada impõem
  • e que valem para homossexuais ou heterossexuais:

“Quando há candidatos com neuroses e fortes desequilíbrios, difíceis de resolver mesmo com a ajuda terapêutica, não devem ser aceites nem ao sacerdócio nem à vida consagrada. Têm de ser ajudados a ir para outro lugar, mas não têm de ser abandonados. Devem ser orientados, mas não os devemos admitir. Tenhamos sempre em conta que são pessoas que vão viver ao serviço da Igreja, da comunidade cristã, do povo de Deus. Não esqueçamos esse horizonte. Temos de procurar que sejam psicológica e afectivamente sãos “.

Francisco diz ainda:

“Aos padres, religiosos e religiosas homossexuais deve-se exigir que vivam plenamente o celibato e, acima de tudo, que sejam escrupulosamente responsáveis, procurando não escandalizar nunca nem as suas comunidades nem o santo povo fiel de Deus vivendo uma vida dupla. É melhor que deixem o ministério ou a sua vida consagrada em vez de viver uma vida dupla”.

O perigo é precisamente

  • a imaturidade humana e afectiva
  • e a incapacidade de viver o celibato,
  • com uma duplicidade de vida,
  • tanto no caso dos homossexuais como dos heterossexuais.

Neste contexto, penso que não deve haver discriminação em função da orientação sexual. Mas há muito tempo que propugno que

  • todos os candidatos ao ministério,
  • heterossexuais ou homossexuais,
  • se sintam obrigados a passar por um processo de selecção exigente
  • por peritos competentes e preparados, incluindo mulheres e técnicos credenciados de saúde mental.

 

Qual é a mensagem mais importante nesta época de Natal?

O Natal é a festa que deve ter por centro o nascimento de Jesus. E Jesus revela o amor incondicional de Deus pela Humanidade, de tal modo que, como o Papa Francisco, cada um e cada uma podem dizer: “Sou amado, logo existo”.

Através de Jesus, disseram-no grandes filósofos, mesmo ateus, como Ernst Bloch, sabemos da dignidade infinita do ser humano. Tive o privilégio de ter sido aluno do maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, que escreveu:

“Quando dizemos ‘é Natal’, estamos a dizer: ‘Deus disse ao mundo a sua palavra última, a sua mais profunda e bela palavra numa Palavra feita carne’. E esta Palavra significa: amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos.”

 

Acha que é muito importante, tal como o Papa disse, ter em atenção o consumismo excessivo? Porquê?

Claro. Porque nos consumimos a consumir.

  • Ocupa então o primeiro lugar o ter
  • e não o ser: esquecemo-nos do ser e de ser.

Veja-se o que se passa no Natal: as pessoas já não festejam, porque se esfalfam na luta pela busca das compras e dos presentes, quando, afinal,

  • o verdadeiro presente é a presença de si a si mesmo
  • e o estar presente junto de alguém, de todos.

Há quem chegue ao Natal, pedindo que aquilo passe depressa. Tal é o cansaço.

 

Existe uma “doença do consumismo”?

Quem estiver minimamente atento constata que há, particularmente na festa de Natal, que se tornou um imenso hipermercado. Há dias, passei por um supermercado e o que é que vi escrito por todo o lado? “Renda-se ao Natal”.

Esta rendição é mesmo uma rendição ao consumo, com truques sedutores das empresas e marcas de venda, de tal modo que as pessoas até compram aquilo de que não precisam, acabando muitas coisas no lixo. E esquecem-se do essencial.

O pior é que essa voragem do consumo se estende até às pessoas, que

  • se deixam explorar a si mesmas
  • para adquirir o último modelo de automóvel, de telemóvel, de televisão
  • e, nesta, com a sociedade-espectáculo,
  • consumir programas estúpidos e deletérios.

O que resta é o vazio por dentro.

 

Que outras doenças atacam a nossa sociedade?

Ouço toda a gente a queixar-se de que “já não há valores”.

Esta é a questão fundamental hoje.

  • Abandonou-se o eixo imóvel (os valores) da roda que gira (a História), para usar a bela e pregnante expressão de Adriano Moreira.
  • Então, só fica um valor, que é o deus Dinheiro ao qual tudo se sacrifica e que nos explora, sacrifica e mata, na sofreguidão da luta pela sua posse.

Por outro lado,

  • com o abandono do Deus vivo e da Transcendência,
  • perdeu-se o sentido, sentido último,
  • e o que se constata é a desorientação no meio desse vazio existencial por dentro, que nos consome.

Sem sentido último, só resta o prazer, numa sucessão de prazeres, na utilização do outro como simples instrumento de prazer.

  • Também me preocupa a interconectividade global através das redes sociais,
  • que, em vez de aumentar as relações humanas vivas, cria imensas solidões.

Por outro lado,

  • o afogamento no tsunami das informações dispersas colhidas através do permanente “dedar” em smartphones e outros instrumentos
  • leva à proliferação do analfabetismo e das fake news e, sobretudo, a personalidades fragmentadas e “líquidas”.

Dentro destas doenças está a ameaça da crise imensa da Europa, com a própria democracia em perigo, e outras ameaças temíveis para toda a Humanidade.

Algumas:

  • uma guerra global, incluindo armamento nuclear;
  • a ameaça ecológica;
  • a injustiça estrutural global, causa de conflitos sem fim.

Chamo a atenção para as chamadas NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas e do cérebro), que, no seu entrecruzamento,

  • potenciam possibilidades nunca imaginadas para a Humanidade,
  • mas que são também fonte de gigantesca perplexidade,

quando se pensa, por exemplo,

  • numa sociedade sem trabalho por causa da robótica,
  • na ameaça do eugenismo,
  • nos perigos do transhumanismo e do pós-humanismo.

Ameaça maior: o niilismo, numa espécie de cansaço vital, por causa da perda de horizontes de transcendência.


O que espera que a Igreja consiga alcançar no próximo ano? E quais serão os desafios que o Papa Francisco irá enfrentar?

Penso que o Papa Francisco continuará o seu caminho de aproximação de todos ao Evangelho, a começar, como disse, pelos hierarcas. Uma tarefa ingente. De modo mais concreto: estou expectante quanto às tomadas de posição do grande encontro de Fevereiro, de que lhe falei. Tenho esperança também no êxito do Sínodo sobre a Amazónia.

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