Natal no caos, no Congo

Os Combonianos:”A Igreja não se desencoraja”

LUCA ATTANASIO – ROMA – 17/12/2018

Tradução: Orlando Almeida

Foto: Um morador da cidade de Goma escala o muro na entrada do Estádio “Des Volcans” durante o comício eleitoral do candidato presidencial Emmanuel Ramazany Shadary no Kivu do Norte /  AFP

Com a aproximação das eleições de 23 de dezembro, multiplicam-se os sinais inquietantes de tensão em todo o país. Padre Di Vincenzo: “Apesar dos massacres, do Ebola e do silêncio da comunidade internacional, não perdemos a esperança”

 

O Congo aproxima-se da delicadíssima data das eleições em meio ao caos total. Na noite entre 12 e 13 de dezembro passado, um incêndio, quase certamente doloso, destruiu completamente um dos armazéns de Kinshasa, onde estavam armazenadas mais de 7.000 máquinas de votação prontas para ser distribuídas para os locais de votação. Durante todo o período pré-eleitoral, esses equipamentos, foram motivo de divergências acirradas entre o governo que os propôs para “garantir a transparência e rapidez dos resultados” e as oposições que, ao contrário, os consideram um instrumento destinado a facilitar a manipulação.

 

Imagem relacionadaDr. Denis Mukwege / pt.wikipedia.org

O risco de fraudes, neste país cujo presidente Joseph Kabila – no poder desde 2001, após o assassinato do seu pai – não perde oportunidade de mostrar a sua absoluta falta de vontade de deixar o governo, é muito alto. O conhecido ginecologista Denis Mukwege, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2018, lançou um apelo desesperado a favor da transparência e da democracia, denunciando que no Congo,

“há pouquíssima preparação para o processo eleitoral e muitíssima para o serviço militar. Estou muito preocupado com que estas eleições não sejam livres, credíveis e pacíficas“.

Para complicar a situação, registrou-se uma pesada intervenção da polícia que, por dois dias consecutivos (11 e 12 de dezembro), usou ​​gás lacrimogêneo e disparou contra a multidão de apoiadores do candidato de uma coalizão de oposição Martin Fayulu. Após os confrontos, o balanço foi de pelo menos três mortos e dezenas de feridos.

Que o clima está se tornando a cada dia mais incandescente, demonstra-o também a decisão do Departamento de Estado dos EUA que pediu que o pessoal diplomático não estritamente necessário deixe a República Democrática do Congo, pelo menos uma semana antes das eleições, que “poderiam causar violência” . A Igreja, por sua vez, acompanha com apreensão o desenrolar da situação e interveio várias vezes para fazer apelo à calma e à justiça.

 

A imagem pode conter: 1 pessoa, barba e closeupPara ter dados mais atualizados, contatámos o padre Gaspare Di Vincenzo, (foto: Daqui)superior da comunidade de religiosos combonianos de Butembo.

“Estamos muito preocupados devido ao estado de tenão em que estamos precipitando. Depois do incêndio de alguns dias atrás, fala-se de mais um possível cancelamento das eleições, uma vez que 80% das máquinas para a votação em Kinshasa foram queimadas.

Se assim for, e se além disso se confirmar que por trás desse ataque está de alguma maneira Kabila e o  seu desejo, claríssimo desde o início, de não realizar as  eleições, será o caos absoluto. Também tememos uma intervenção militar de forças externas em conluio com outros atores pouco claros.

Desde há alguns dias circulam mensagens que aconselham a fazer provisões de alimentos e de água, porque poderiam vir a faltar devido a possíveis ataques militares”.

 

Como é que as pessoas vivem este momento?

“Com muito medo e insegurança. Continuam os massacres de pessoas pobres e indefesas enquanto outras são expulsas das suas terras porque há quem se quer apoderar delas devido às suas riquezas minerais. E tudo acontece

  • no silêncio absoluto deste governo
  • e da comunidade internacional.

A ONU está presente com mais de 20 mil capacetes azuis mas posso dizer que eles são por sua vez uma fonte de instabilidade e não são considerados uma força de defesa da população”.

 

Resultado de imagem para ginecologista Denis Mukwege

República Democrática do Congo – Observatório da África / WordPress.com

 

Entrementes, também por causa dos confrontos e do agravamento do conflito em algumas zonas, incluindo aquela em que o senhor vive, o vírus Ebola está se espalhando…

“Desde há meses o vírus está dizimando a população da nossa região, o Kivu do Norte. Butembo tornou-se agora o epicentro do vírus

  • devido ao deslocamento em massa de pessoas que fogem da insegurança e vêm para a cidade,
  • assim como devido ao comércio de produtos agrícolas.

Está-se fazendo toda uma campanha de conscientização e de prevenção com normas de higiene e um serviço sanitário de vacinação, mas por ora a epidemia não mostra sinais de diminuir.

Também para o cuidado pastoral dos doentes e para a administração da unção é necessário seguir, obviamente, regras estritas de higiene. Tivemos que suspender as atividades dominicais de catecismo, com mais de 500 crianças, para evitar contatos diretos. Para a missa da manhã, em todas as igrejas, foi providenciado um balde de água com torneira e sabão para as pessoas lavarem as mãos antes de entrar.

Infelizmente aqui em Butembo

  • também há gente que faz propaganda contra,
  • sustentando que o Ebola é uma invenção, e voltando-se até mesmo contra a Igreja,
  • dizendo que, se ela se posicionou assim na linha de frente, foi só porque ele recebe dinheiro.

O nosso bispo, monsenhor Sikuli Paluku, emitiu na terça-feira uma declaração a respeito, reiterando o compromisso de toda a Igreja na luta contra o Ebola”.

 

Padre, além das eleições, o Natal está próximo, quais são os sinais de esperança para o seu povo?

“Todos estes acontecimentos, parece que querem tirar-nos a esperança e a alegria de esperar o Menino-Deus. Mas deixe que lhe fale também

  • de tantos dos nossos jovens que, neste momento tão difícil,
  • não desistem de passar de quarteirão em quarteirão e de família em família,
  • para ir ao encontro das pessoas, para comunicar a elas a sua vizinhança e esperança, para cantar e dançar.

Centenas de jovens que compartilham o anelo da paz e esperam um novo começo junto com centenas de famílias. São pequenos sinais que nos alegram, com uma alegria não mundana, que se torna um sinal profético de uma Igreja que não deixa cair os braços”.

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LUCA ATTANASIO

 

Fonte: https://www.lastampa.it/2018/12/17/vaticaninsider/natalenel-caos-in-congo-i-comboniani-la-chiesa-non-si-scoraggia-yZEvcJJILyuuSYpopY2KPO/pagina.html

 

 

 

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