O além? É a liberdade do amor

Jean Vanier – 15 Dezembro 2018

Foto: Nuvens / Pixabay

 Em seu último livro Jean Vanier imagina o que vem depois da morte: a experiência de se sentir amados de forma incondicional.

O jornal Avvenire, 12-12-2018, publicou um extrato do livro. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

 

Jean Vanier | Foto: Famiglia Cristiana

Jean Vanier é o fundador de L’Arche, em 1964, uma federação internacional de comunidades espalhadas por 35 países,

  • dedicada a pessoas com deficiências de desenvolvimento
  • e às pessoas que as assistem.

Aos 90 anos de idade, continua a viver como membro da comunidade original de L’Arche, em Trosly-BreuilFrança.

 

Eis o texto.

O que acontece quando morremos? Acredito que adormecemos e depois há um despertar na luz. Essa luz é tão pacífica e cheia de glória que, quando acordamos, é um momento de incrível júbilo. Essa luz é Deus? Nós não temos certeza. Talvez seja um reflexo de Deus, afinal, ainda não estamos prontos para uma reunião face a face ou coração-a-coração. No entanto, é claro que aqui somos bem-vindos e que não estamos sozinhos. Temos a sensação de estarmos envolvidos por algo maravilhosamente íntimo. É uma profunda experiência de paz interior.

No meio dessa beleza, desse alívio e bem-estar, surge uma pergunta: o que vai acontecer agora? Talvez pelo nosso desejo de saber e procurar, temos a sensação de que, nessa luz, exista uma presença. Vislumbramos um vulto. Há um encontro. Não é uma união, mas uma relação.

Deus não é apenas essa luz, mas uma presença, uma pessoa. De repente, descubro que sou amado por essa pessoa.

Parece-me que saber ser amado tão profundamente e tão simplesmente poderia levar a uma profunda tristeza e sensação de culpa. Como é possível que eu seja amado?

L'Arche à Trosly à la fête de famille des 50 ans (mai 2014)

Foto: Daqui

Recusei a vida tantas vezes, não consegui me abrir para a vida, tentei de todas as maneiras manter o controle sobre mim mesmo.

Muitas vezes magoei os outros, não fui capaz de reconhecer sua beleza, não consegui transmitir-lhes a mesma sensação de paz e de pertencimento que eu sinto agora. Não posso merecer esse amor!

Trata-se de um momento de pena interior, quase de tormento. A Igreja chamou isso de purgatório, que é uma espécie de purificação.

Todos aqueles momentos em que pisoteamos a vida deixando de testemunhar em favor da verdade, deixando de nos aceitar uns aos outros, retornam. E estamos cheios de culpa e vergonha em nos encontrar diante dessa presença de Deus, tendo sido tão miseráveis.

De repente, aquele vulto retorna, ou talvez nós olhamos das profundezas da nossa humilhação e vemos em Deus um olhar de ternura, de incrível ternura. “Visto que foste precioso aos meus olhos […] e eu te amei” (Isaías, 43:4). De repente, sei que sou amado assim como sou, na minha pobreza.

Deus sabe o quanto eu sou frágil, quantas vezes eu fiz o mal, quantas vezes deixei de amar, quantas rejeitei o amor alheio. E de alguma forma sou amado não apesar da minha pobreza, mas na minha pobreza. Sou perdoado. Imagino que poderíamos estourar de tanto rir: é muito para contemplar, muito para compreender. Deus simplesmente nos ama, nos acolhe em nossa pequenez e vem ao nosso encontro em nossa fraqueza e vulnerabilidade. Tudo vira de ponta-cabeça; nada é como esperávamos.

Diante da infinita misericórdia que é Deus, todo o desperdício da minha vida se torna fertilizante. É um momento de inaudita felicidade: feliz de ser eu mesmo, feliz em saber que os outros são amados, feliz por ser uma pequena parte do corpo da humanidade – um pequeno grão de areia na imensidão da praia de Deus, mas tão importante, tão precioso, assim como é precioso cada grão de trigo.

Esse é o momento da liberdade: é aqui que fazemos a experiência de Deus como perdão.

O que significa liberdade? Há a liberdade ‘de’. Aqui, na misericórdia de Deus, estamos livres dos sentimentos de culpa e dos tormentos ligados ao nosso passado. Estamos livres da angústia porque na presença de Deus a nossa identidade mais profunda é confirmada: eu sou amado. Mas também existe a liberdade ‘de’.

Enquanto experimentamos angústia, somos incapazes de nos entregar totalmente ao amor. Mas aqui tudo de nós, a nossa força e a nossa pobreza, é recomposto e Deus confirma que somos amados. Aqui, na misericórdia de Deus, somos livres para aceitar em nós essa identidade: somos amados, somos livres para nos entregar totalmente ao amor.

Avvenire

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/585549-o-alem-e-a-liberdade-do-amor

 

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