Experiência Erótica na Vida Cristã

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Ademir Guedes Azevedo 

13 de dezembro de 2018 

Foto: Estátua de Eros, Picadilly Circus, London. / Fotolia.com

“Só a experiência erótica nos poderá salvar do apocalipse da indiferença e do individualismo que contaminou a vida cristã“, escreve Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista e mestrando em teologia fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Eis o artigo.

Uma nuvem de depressão parece impor-se aos poucos no cotidiano.

  • A violência política,
  • o medo do retorno a sistemas totalitários que não toleram as diferenças,
  • um papa lutando quase sozinho numa Igreja que tende ainda a antigos costumes medievais e a vícios de corte,
  • a família em crise sem conseguir controlar a influência das mídias sociais na relação dos casais,

uma vida religiosa atormentada pela dúvida

  • se continua investindo na estrutura
  • ou se é hora de revolucionar
  • com aquela atitude humilde de ouvir os seus membros
  •  e revitalizar a tal ponto de ser um estilo de vida adulto
  • e credível para um mundo em mudanças…

Mas enfim, qual seria a causa de tudo isso?

Arriscamos em dizer:

  • autorreferencialidade
  • e narcisismo nossos.

Autorreferencialidade para garantir a corrida em vista aos melhores cargos e funções, não apenas ao interno da Igreja, mas em qualquer esfera social. Aliás quem não gosta de ser o centro e vencer sempre os outros com a racionalização da “verdade”?

Narcisismo que põe a nós jovens

  • em contato com a cultura do bem-estar
  • que nos pede o uso das melhores marcas do mercado,
  • a garantia do futuro com a conta bancária gorda,
  • a instrumentalização do ministério presbiteral como funcionários do sagrado,
  • a pouca fé naquilo que se prega
  • e o culto ilusório pela boa aparência.

A sede pelos títulos acadêmicos é insaciável porque o que conta

  • não é a sabedoria desinteressada e tão exaltada pelos antigos filósofos,
  • mas aquele conhecimento contaminado por interesses pessoais
  • que me leva a ser apreciado pelos outros
  • e me faz esquecer que o outro é meu irmão simplesmente porque é um ser humano.

Nas redes sociais podemos selecionar com quem queremos interagir. Aqueles que me ferem e me provocam com críticas são imediatamente bloqueados.

  • A subjetividade adoeceu!
  • Alcançou o nível mais alto
  • e se transformou numa espécie de rainha louca
  • que dita o modo de comportamento mais agradável ao “eu”.

Mas a rainha subjetividade que nos faz sentar nos tronos da autorreferencialidade e do narcisismo

  • não seduziu apenas os jovens.
  • Aproveitou-se também da vulnerabilidade dos idosos.

Imagem relacionada

O amor erótico humano / pt.aleteia.org

O medo da morte motiva a

  • consultas médicas pelo menos uma vez por semana;
  • fazer o mínimo possível porque “já trabalhamos muito e agora toca aos jovens fazer”,
  • é o mantra mais recitado pela assim chamada terceira idade.

É proibido mudanças! Não se pode desbravar novos lugares para partilhar a experiência do Evangelho porque

  • a rainha louca nos quer aprisionar no conforto rotineiro
  • e nos está cegando para que não vejamos a realidade de outros mundos.

Ahh… quase esqueci: a subjetividade enferma está aos poucos levando os jovens a acreditarem que eles não são capazes de reinventar uma nova vida religiosa.

  • Para os jovens tudo tem um prazo,
  • se permanece até quando der,
  • depois se chuta o balde.

A subjetividade está doente, mas pode curar-se!

  • Existe um remédio para matar o seu veneno:
  • é a alteridade, com doses elevadas de solidariedade,
  • energia que nos faz desejar o outro, que os antigos chamavam Eros.

Esse remédio é plasmado no coração de todo ser humano. Por ser tão humano, Deus também quis ter Eros, por isso criou e redimiu o homem, para estar com ele e revelar a verdadeira vida.

É aquela energia que nos faz pensar mais nos outros. Que nos faz remar por um objetivo maior, mesmo quando a noite é escura. Graças à sociedade da imagem, nossa energia erótica cresceu tanto que podemos desejar intensamente. Mas calma! Aqui está o segredo:investir nosso eros como alteridade significa

  • pensar no outro não para aniquilá-lo e usá-lo como um instrumento,
  • mas para propor a cultura do encontro e da ternura
  • que me põe em contato com a vida do próximo, com suas alegrias e tristezas.

Uma subjetividade curada é aquela que admite que o meu “eu” só tem sentido com o “nós”. Eis porque hoje é tão difícil valorizar os projetos comuns.

  • O eros arranca o sujeito de si mesmo
  • e direciona-o para os outros.

A subjetividade autorreferencial e narcisista, ao contrário, está sempre mergulhando em si mesma.

Quem sabe a nossa incalculável energia erótica poderia ser usada para

  • ler os sinais dos tempos
  • e aprendermos a discernir se estamos vivendo em modo solidário.

Eu penso que o cristão é o homem do eros porque deseja

  • encontrar-se,
  • curar a própria vaidade e ser luz para quem está crucificado pelo inferno da cultura do igual.

Só a experiência erótica nos poderá salvar do apocalipse da indiferença e do individualismo que contaminou a vida cristã.

 

Ademir Guedes Azevedo

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/585478-experiencia-erotica-na-vida-crista

 

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