Os sentidos da rebelião francesa

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Umair Haque – 13/12/2018
Foto: Jornal O Globo
Governo Macron recua e entra em crise. Mas as revoltas vão se espalhar e exigem saídas novas. Uma delas: resgatar os cidadãos, emitindo e distribuindo dinheiro.

O artigo é de Umair Haque, Diretor do Havas Media Labs e autor de “Betterness: Economics for Humans” e “The New Capitalist Manifesto: Building a Disruptively Better Business“, publicado por Outras Palavras, 11-12-2018. A tradução é de Marianna Braghini.

 

Eis o artigo.

Há Paris, em chamas. Há a Itália, tomada pela raiva. Há o Reino Unido, cometendo o maior ato de auto-destruição na história recente. Há os Estados Unidos – tantos problemas tenebrosos, de tiroteios em massa à classe média implorando cuidados de saúde a estranhos, online. Ninguém sabe direito por onde começar.

E, na semana passada, houve o G20.

O curioso é que

  • o problema central,
  • que surge como uma avalanche de raiva, ressentimento, medo e fúria…
  • sequer esteve na agenda.

Na verdade, o que está em pauta é o oposto deste problema.

O problema é o Capital.

Ele

  • concentrou-senas mãos de alguns poucos,
  • que o ganharam por meios duvidáveis,
  • e depois o enterraram em arcas do tesouro pelo mundo.

O resultado é que não há dinheiro suficiente nas mãos das pessoas e sociedades. Voltaremos ao tema, mas primeiro, vamos entender como tudo aconteceu.

 

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Wook – Wook.pt – O Novo Manifesto Capitalista*

O que eclode em todo o mundo é que as pessoas sentem-se atoladas, porque de fato estão. Sua renda deixou de crescer, inclusive nos países ricos.

  • Nos EUA, essa tendência começou em 1970 – precisamente no momento em que a segregação racial era vencida.
  • Na Europa, teve início entre cinco e quinze anos atrás.

E a questão é que seus líderes, instituições e governos estão dando pouca ou nenhuma atenção ao problema:

  • não têm nenhum plano ou agenda
  • para reverter a desastrosa tendência de estagnação.

“Estagnação”– que na verdade significa escassez de dinheiro em uma sociedade – é precisamente o que aconteceu durante os anos 1930.

Deu-se em diferentes nações, de diferentes maneiras.

  • Na Alemanha, as dívidas contraídas após a I Guerra Mundial com o Reino Unido e França
  • eram onerosas demais para ser pagas. A classe média foi levada à ruína e os pobres afundaram na miséria.
  • Nos EUA, a combinação de monopólios e especulação, durante a década de 1920, deixou o país em “depressão”.
  • poupança média arduamente conquistada fora esbanjada por bancos e fundos em diversos esquemas fraudulentos do tipo “fique rico rápido”.

Os resultados foram sempre os mesmos – as condições de vida das pessoas atolaram e começaram a regredir.

 

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O Povo francês resolveu reagir à globalização imposta pelo deus-mercado /GGN

Como o fenômeno da estagnação acontece agora?

De forma muito parecida.

Uma geração de governantes neoliberais imaginou que seus países estavam “falidos”.Eles

  • começaram a cortar em investimento social
  • no exato momento em que a economia titubeava – e bang!

Este duplo golpe esmagou as pessoas comuns.

  • No Reino Unido, por exemplo, a queda no padrão de moradia foi a maior em séculos.
  • Nos EUA, a vida das pessoas começou a desmoronar. A classe média literalmente implodiu, tornando-se uma minoria.
  • Na AlemanhaFrançaItália, o conforto e a facilidade de gerações da social democracia estão ameaçados.

Nasceu a era da “austeridade”. Infelizmente é onde estamos hoje.

  • Enquanto Paris queima,
  • enquanto as pessoas se enfurecem,
  • enquanto a Itália se inflama,
  • as pessoas tornam-se furiosas.

Os Estados Unidos desmoronaram, o Reino Unido destrói-se em confusão e desorientação.

  • Não há nenhum plano de socorro às sociedades, pessoas, idosos,juventude.
  • Nem ao menos um.
  • E sem tal planejamento, se você entendeu tudo acima,
  • não há nenhuma chance de que o mundo continue em paz, cooperação e prosperidade.

Sem um socorro às pessoas, o problema central no mundo – a estagnação – não tem solução.

Ela prosseguirá, porque

  • a concentração de dinheiro
  • e a resultante escassez deste entre as pessoas e sociedades
  • não irá mudar.

Enquanto isso acontece, os cidadãos parecem cada vez mais inclinados a escolher governantes autoritários, extremistas e fanáticos – que de forma inteligente direcionam a fúria contra os que estão abaixo, nas hierarquias sociais:

  • imigrantes,
  •  refugiados
  • e assim por diante.

Essa é exatamente a lição dos anos 1930 — mas estamos revivendo tudo agora e por algum motivo, parece que nossos governantes

  • estão totalmente alheios (como os conservadores norte-americanos),
  • não se importam muito (como os neoliberais da UE)
  • ou sorriem e convidam ao apocalipse (como os apoiadores do Brexit).

O que significa “um socorro” às pessoas? Do que estariam sendo resgatadas?

As sociedades e pessoas

  • necessitam muito ser recapitalizadas – ou seja, precisam de dinheiro suficiente
  • para que os rendimentos voltem a crescer,
  • para que prevaleça um senso de segurança,
  • para desfrutar de um senso de liberdade mais uma vez,
  • para que cresça uma esperança de prosperidade.

Por isso, um resgate das pessoas é bem simples. Significa apenas investir o dinheiro criado nas próprias pessoas.

 

  • Seja diretamente – na forma monetária –
  • ou indiretamente,

por meio de

  • mais e melhores hospitais,
  • escolas,
  • mídia,
  • educação
  • e todos os trabalhos que este movimento criaria.

Apesar disso, o foco dos governantes – e mesmo da maior parte das pessoas – tornou-se, em grande parte, a “austeridade”.

Mas

  • falar em “austeridade” é precisamente o mesmo que dizer
  • “mesmo que eu não tenha dinheiro suficiente para prosperar, e nem o meu país,
  • não quero que ninguém nunca mais tenha dinheiro algum.
  • Prefiro que as pessoas permaneçam pobres e endividadas!”

É uma crença engraçada, bizarra e perigosamente insensata — que sugere ignorância completa

  • do mundo,
  • da história
  • e de política econômica.

 

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Os Sentidos da Rebelião Francesa / Outras Palavras

 

Um “resgate das pessoas” significa dar dinheiro liberalmente (olá, liberais!).

  • Isso o horroriza?
  • Você vale mais que alguns poucos milhões?
  • Então, você deveria se posicionar a favor da proposta – e não contra ela.

Se você é um cidadão médio do mundo rico,

  • sua poupança é bem menor que suas dívidas,
  • porque sua renda não cresce há anos, talvez décadas.

Imprimir dinheiro causa inflação, mas também acaba com os débitos. E portanto resolve ambos problemas de estagnação de uma só vez.

Inflação significa que

  • sua renda cresce (não apenas “os preços”)
  • e também significa que suas dívidas encolhem.

Você deve querer ambas as coisas nessa conjuntura da história:

  • menor débito
  • e maior renda.

O jeito mais simples de pensar a respeito é:

  • você deveria querer mais dinheiro – e não menos –
  • porque o problema é que você não tem o suficiente para levar uma boa vida.
  • Por isso, deveria ser fortemente a favor da criação de dinheiro novo,
  • porque é o único meio que conseguirá obter mais recursos.

E ainda assim você ainda pensa que um resgate individual, ser recapitalizado, é política errada. Você provavelmente está confuso(a) sobre as noções básicas de economia:

  • acha que o ruim é bom,
  • e que o bom é ruim.

E é também por conta disso que os governantes atuais falharam na gerência da economia global. Eles cometeram o mesmo erro que você. Eles decidiram que

  • é melhor ser pobre do que ser rico;
  • melhor ser desprovido de poder do que ser empoderado;
  • melhor ser ignorante do que sábio.

De onde vem esse equívoco sobre economia básica – a ideia segundo a qual

  • as sociedades nunca poderiam,
  • nem deveriam criar dinheiro novo
  • e dividi-lo entre as pessoas?

Quem ensinou isso?

  • Esta é a internalização da lógica capitalista.
  • Equivale a pensar que o dinheiro existe apenas para ser propriedade privada de um pequeno número de pessoas,
  • em vez de um recurso público do qual dependem uma ou um conjunto de sociedades.

As únicas pessoas que se beneficiam da “austeridade

  • são os verdadeiros capitalistas
  • – aqueles cuja renda vem do capital,
  • pois são donos de toda a dívida.

Para eles, é verdade, o investimento social é ruim. Mas não para você! A esta altura, é a única coisa no mundo que pode erguê-lo.

 

http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2018/12/04-12-2018-coletes-amarelos-franca_NightFlightToVenus.jpg

Uma Rebelião ainda a analisar – Foto: Night Flight To Venus / IHU

 

capitalismo nos ensinou que

  • uma sociedade investindo em si mesma
  • – criando dinheiro e o distribuindo entre as pessoas –
  • é ruim.

Por isso, você, como muitas outras pessoas, age furiosamente contra seus próprios interesses.

“São aqueles imigrantes! Foram eles que arruinaram minha vida!”. Não, não caro amigo.

  • Os imigrantes estão em situação ainda pior que a sua.
  • Hoje todos estão sofrendo porque o capitalismo, por meio do neoliberalismo,
  • convenceu quase todo mundo que é melhor ser pobre do que ser rico.

O resultado é

  • uma escassez de dinheiro,
  • um déficit de investimento,
  • porque o capital se empilhou – onde mais? – nas mãos dos capitalistas,
  • em níveis sem precedentes desde os anos 1930.

Por que há pouco estoque de dinheiro e capital para as pessoas comuns?

A razão deveria ser óbvia. Porque o acúmulo, entre os super-ricos é grande e injusto demais.

desigualdade tem crescido arrasadoramente e de forma íngreme, todos sabemos – mas o que ela realmente significa é que

  • há muito dinheiro concentrado no topo das sociedades,
  • e muito pouco fluindo para todos os demais.

Este dinheiro amontoado no topo literalmente não tem mais nenhum lugar útil para ir – todas as mansões e iates foram comprados. Por isso, há agora setores inteiros cujo único propósito é

  • desviar as fortunas dos super-ricos para paraísos fiscais,
  • para escondê-las em arcas de tesouro.
  • O resultado é que as sociedades estão famintas de dinheiro e as condições de vida estagnaram ou regridem.

Os governantes atuais

  • escolhem “austeridade
  • em vez de investimento.

Significa

  • empobrecimento,
  • ruína e colapso

em vez da

  • prosperidade,
  • democracia
  • e abundância.

É vital entender que tudo isso é uma escolha — não um tipo de restrição natural.

Frequentemente, afirma-se que uma

  • “união mais profunda”da Europa
  • exigiria criar pobreza.

Nada poderia ser tão distante da verdade.

 

Europa, como os Estados Unidos, fez a escolha errada — só que em grau menor.

  • Deixar as pessoas e sociedades famintas de dinheiro
  • é sempre uma escolha, nunca uma necessidade.

“O dinheiro é para os capitalistas — todo mundo estaria melhor assim!”

Quanta estupidez! O que realmente aconteceu foi tão previsível quanto péssimo:

  • os capitalistas abocanharam todo o dinheiro em que conseguiram colocar as mãos,
  • espoliando uma sociedade após outra.
  • Depois, esconderam-no em arcas de tesouro enterradas pelo mundo.

Mas o resultado é que agora há menos dinheiro para ser

  • gasto,
  • utilizado,
  • compartilhado,
  • trocado, investido.

Ainda assim, os sábios que comandam o mundo coçam suas barbas, perguntando-se: onde iremos conseguir mais dessa mágica substância, deste misterioso poder, o dinheiro? E o mundo se pergunta — em raiva, em fúria, em desespero, junto com eles – nunca entendendo que o dinheiro não tem nenhum segredo. Desde que as pessoas sejam suficientemente corajosas, sábias e honestas para dar umas às outras.

 

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Umair Haque

Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/585457-os-sentidos-da-rebeliao-francesa

https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/os-sentidos-da-rebeliao-francesa/

* SINOPSE de  “O Novo Manifesto Capitalista” – (Wook – Wook.pt -)

Atravessamos a pior década económica desde a Grande Depressão. Não se trata apenas de uma recessão. É a prova de que nossas instituições económicas se encontram obsoletas, de que o conjunto de ideias herdadas da era industrial já não funciona no mundo de hoje.

Neste livro, Umair Haque, especialista em estratégia económica, defende um novo caminho. Segundo o autor, se optarmos por um «capitalismo construtivo» será possível superar o velho paradigma de crescimento a curto prazo, concorrência a todo o custo, empregos «dilbertianos» e o habitual empurrar de custos para as gerações seguintes. Estes pressupostos antiquados só servem para criar ganhos em grande parte ilusórios e gerar a cada ano menos retorno.

Se A Riqueza das Nações foi o primeiro manifesto capitalista, esta obra propõe um novo paradigma, igualmente poderoso.
Para alcançar valor real, vantagens duradoura, sustentáveis e com significado ¿, que beneficie a sociedade, Umair Haque elenca cinco pilares de prosperidade para o século XXI: A Vantagem do Prejuízo, Capacidade de Resposta, Resistência, Criatividade e Fazer a Diferença. 

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