“Sim, a ‘omertà’* é real no Vaticano”

“Marie Claire” – Catherine Durand  

 10 DE DEZEMBRO DE 2018

 Foto: Daqui 

Catherine Bonnet, pedopsiquiatra, explica a sua renúncia com membro da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores, pouco mais de dois meses antes da reunião de cúpula sobre os abusos sexuais que será realizada em 21 de fevereiro em Roma

 

  – Qual era o seu papel na Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores?

Fui nomeada em 22 de março de 2014 junto com sete outros especialistas pelo Papa Francisco. Nós éramos, segundo os nossos estatutos, os seus conselheiros. Depois a comissão foi ampliada para dezessete membros em fevereiro de 2015. Em momento algum o papa veio participar de alguma das nossas reuniões. A nossa primeira proposta, em fevereiro de 2015, foi de fortalecer a responsabilidade dos bispos criando um tribunal para julgar aqueles que tivessem encoberto agressões sexuais. Ela foi aceita pelo papa e pelo C9, o conselho dos nove cardeais, depois encaminhada à Congregação para a Doutrina da Fé. Um ano depois, o papa redigiu um decreto em que o tribunal foi transformado numa espécie de comissão disciplinar que dizia respeito aos bispos e a todos os superiores religiosos. A sua efetivação estava programada para o dia 5 de setembro de 2016 e, até hoje, que eu saiba, nada foi aplicado.

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 Dr. Catherine Bonnet / ACEsconnection

Por que a senhora se demitiu?

Em junho de 2017, quando observei que seria impossível obter o voto de pontos essenciais: o estabelecimento de audiências de sobreviventes, a obrigação de todos os bispos e superiores religiosos de notificação perante as autoridades civis em caso de suspeita de violências sexuais contra menores. Mas isso requer abolir o segredo pontifício. Escrevi ao papa uma carta pessoal para dar a ele a minha opinião sobre a situação. Quarenta e oito horas depois, ele me pediu para comparecer à última sessão plenária. Eu fui, mas não houve comunicação com ele. Nem debate. Na reunião cúpula sobre os abusos sexuais que ele está organizando em fevereiro, espero que ele vá anunciar o fim do segredo pontifício e compreender que, enquanto não houver obrigação de notificar, o padre agressor corre o risco de ser transferido ou encaminhado a psiquiatras, ao passo que se trata de crimes e violações do código penal.

Sim, é obvio. Houve obstáculos de todos os tipos que não me é possível descrever. Penso que o papa Francisco é sincero. Ele recebeu vítimas, ele entende o sofrimento delas. Mas tem falta de informações. Eu não perdi a fé, mas preocupo-me com o que o papa chama de clericalismo, isto é, o uso da autoridade e do poder sobre estas questões. A conferência dos bispos no Vaticano em fevereiro é uma coisa boa, mas ele deve passar à ação e propor soluções.

 No Vaticano, mas também na França, por que é que  a senhora se bate para que seja votada a obrigação de notificação por parte dos médicos?

Na França, os médicos enfrentam um dilema: ou notificam e correm o risco sofrer processos e sanções disciplinares, ou não o fazem e podem ser processados ​​por “obstrução à justiça” ou por “falta de assistência a uma pessoa em perigo”. Hoje, a notificação só será feita se a obrigação de informar for inserida no código penal. É preciso que o governo crie previamente um grupo de trabalho antes de uma modificação legislativa.

   A ‘omertà’, ela é real dentro do Vaticano?

 Sim, a ‘omertà’* é real no Vaticano.

 

Catherine Durand  

 Fonte: https://www.pressreader.com/france/marie-claire/20181206/281767040271648

* Omertà – “è o silêncio acerca de um delito o acerca das suas circunstâncias de modo a impedir a investigação e a punição do culpado; seja por interesses de ordem prática ou de compadrio, seja por causa de medos ou temores”. (Fonte: wiki.it.)

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