Ciências econômicas e sociais no ensino médio na França: uma reforma ideológica

 

Resultado de imagem para Lycée CharlemagnePierre Merle, Professor Associado de Economia e Ciências Sociais (Espe* de Bretagne) – 8/11/2018

Foto: Sala de aula no Liceu Charles Magne / Getty Images – Tradução: Orlando Almeida 
Os novos programas de ciências econômicas e sociais simplesmente esvaziam as principais questões sociais, ambientais e sociológicas. Como esse ensino possibilitará a compreensão do mundo contemporâneo, condição de democracia?

 

Tribune. Num lapso de tempo de brevidade inigualável, de 10 de outubro a 2 de novembro, o Conselho Superior de Programas (CSP) revisou os programas dos 82 futuros cursos do segundo e primeiro ano [do ensino médio ndt]. Por que um tempo tão reduzido de consultas?

Jean-Michel Blanquer elogia a “escola da confiança“, mas a sua prática usual é a mudança forçada. Os numerosos membros demissionários do CSP são unânimes.

Esta instância já não é mais o lugar de discussão que deveria ser entre

  • as inspeções gerais,
  • as associações de professores,
  • os sindicatos,
  • os membros da sociedade civil,
  • os especialistas.

A reforma dos programas de geografia e de história já foi objeto de grandes contestações. Críticas igualmente fundamentais podem ser feitas às mudanças previstas nos programas de ciências econômicas e sociais (SES). Uma inflexão central é

  • a ascensão da microeconomia
  • caracterizada por uma forte simplificação dos processos econômicos.

Correlativamente, são negligenciadas as análises macroeconômicas dedicadas às questões de maior interesse para os estudantes:

  • o desemprego,
  • as desigualdades,
  • a tributação, etc.

A título de exemplo, no atual programa do segundo ano,

  • após o estudo do mercado econômico,
  • um capítulo opcional aborda a questão da poluição,
  • externalidade negativa do crescimento,
  • que o mercado econômico não integra, ou pouco, nas suas análises.

Este capítulo foi simplesmente suprimido, embora seja ele que

  • desperta a consciência dos estudantes
  • acerca de dos maiores desafios socioeconômicos das sociedades contemporâneas.

 

Bloqueia da entrada do Liceu Carlos Magno. Foto: Daqui:

 

No novo programa do segundo ano, a questão da poluição é somente mencionada. O ensino das SES [ciências econômicas e sociais] é focalizado sobre uma questão dita “de base”, eminentemente discutível, que seria específica da economia: “O que é uma alocação eficiente dos recursos escassos?”.

E o que dizer

  • das crises econômicas,
  • do poder na empresa,
  • dos custos do aquecimento climático,
  • das desigualdades homem-mulher?

 

As temáticas sociológicas foram igualmente reduzidas.

As categorias sócio-profissionais, atualmente estudadas no primeiro ano, já não são mais estudadas neste nível, embora elas sejam indispensáveis ​​para o conhecimento do social, quer se trate

  • das práticas culturais,
  • do risco de desemprego,
  • das orientações políticas,
  • da expectativa de vida,
  • das diferenças de renda e de patrimônio, etc.

Como explicar estas novas orientações que modificam substancialmente os programas das SES?  Tal como a geografia e a história, as SES são disciplinas que têm por objetivo

  • entender o mundo contemporâneo,
  • os seus grandes desafios,
  • as polêmicas recorrentes.

Os professores de SES proporcionam estes ensinamentos  com uma grande preocupação: apresentar a diversidade das análises teóricas. Nos novos programas do primeiro e do segundo ano,

  • o lugar central da microeconomia em detrimento da macroeconomia,
  • assim como a posição secundária ou nula, dada aos grupos sociais e às categorias sócio-profissionais
  • mostram uma mudança de tipo político.

O termo “desemprego”, preocupação legítima dos alunos e realidade onipresente nos debates públicos, até mesmo desapareceu desses projetos de programas!

Na história dos programas da SES, a tentação ideológica é recorrente. Em março de 2017, um relatório da Academia das Ciências Morais e Políticas sugeria uma reorientação do ensino das SES

  • para o “campo da microeconomia,
  • um domínio onde o conhecimento é mais bem fundamentado
  • e onde conseguir um amplo consenso é mais fácil do que na macroeconomia”. 

Tal orientação é contrária ao processo de iniciação científica, que não pode ser elaborado suprimindo setores inteiros da análise econômica, sob o pretexto de um “amplo consenso” que remete apenas à teoria econômica dominante cujos limites estão comprovados. Apresentar de maneira preferencial uma única corrente de análise econômica significa

  • substituir a pluralidade das análises
  • por um ‘discurso de verdade’.

O pluralismo do pensamento não é apenas uma necessidade científica, é também uma exigência democrática.

Para impor as orientações dos membros da Academia de ciências morais e políticas, o Conselho superior de programas suprimiu o debate.

  • A instrumentalização do conhecimento científico
  • e o simulacro de consulta típicos do CSP
  • são os dois lados da mesma moeda.

Tal política é conduzida em detrimento da formação dos estudantes e, em última análise, da vitalidade da nossa democracia já tão sujeita aos populismos de todos os quadrantes.

 

Resultado de imagem para Professeur Pierre Merle

 

Pierre Merle

Professor Associado de Economia e Ciências Sociais (Espe* de Bretagne)

Fonte:  https://www.liberation.fr/debats/2018/11/08/sciences-economiques-et-sociales-au-lycee-une-reforme-ideologique

 

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>