Desistir da Paz?

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Frei Bento Domingues, O.P. – 09/12/2018 – Foto: Pensador

“Está mais do que demonstrada a ferocidade que pode ser desencadeada entre pessoas, nações e povos. Essa todos os dias é patenteada, em diversos cenários de crueldade, com meios de comunicação que a celebram e a incitam ao seu motor: o ódio do outro.

Importa investigar os mecanismos psicológicos, sociais, económicos e políticos que incitam à guerra e à paz. Foi possível subscrever a carta dos Direitos Humanos. Nunca se conseguiu assinar a dos Deveres.” 

 

A exuberância poética do profeta Isaías distribuída pelas celebrações diárias do Advento

  • exibe uma tal confiança no futuro
  • que mais parece um delírio do desejo que gosta de se iludir,
  • do que uma esperança razoável.

Logo no 3º dia, e nunca se cansará, garante que

  • os povos vão dispensar os exércitos e as suas manobras.
  • Os instrumentos de guerra vão ser reciclados e confiados aos ministérios da agricultura:
  • converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices[i].

O Deus dos exércitos vai para o desemprego.

Tempos virão em que nem sequer será preciso pensar na reciclagem do exército.

  • A justiça estará ao serviço dos infelizes do povo.
  • Aos violentos e aos ímpios a própria palavra de Deus os modificará.
  • A justiça e a lealdade serão a lei.

Até toda a natureza que se modificará.

  • O lobo viverá com o cordeiro
  • e a pantera dormirá com o cabrito;
  • o bezerro e o leãozinho andarão juntos
  • e um menino os poderá conduzir.
  • A vitela e a ursa pastarão juntamente, as suas crias dormirão lado a lado;
  • o leão comerá feno como o boi.
  • A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra
  • e o menino meterá a mão na toca da víbora.

Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas o leito do mar. Nesse dia, a raiz de Jessé surgira como a bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa[ii].

 

O profeta quer que Deus seja o Senhor do universo e prepare para todos os povos

  • um banquete de manjares suculentos,
  • um banquete de vinhos deliciosos:
  • comida de boa gordura,
  • vinhos puríssimos.

Destruirá a morte para sempre. Enxugará as lágrimas de todas as faces. Alegremo-nos e rejubilemos porque nos salvou[iii].

 

O profeta Baruc não anda longe destes delírios:

  • Jerusalém, deixa a tua veste de luto e aflição
  • e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus.
  • Cobre-te com o manto da justiça.
  • Deus te dará para sempre este nome: Paz da justiça e glória da piedade.
  •  Levanta-te, Jerusalém, sobe ao alto e olha para o Oriente: vê os teus filhos reunidos desde o poente ao nascente.

Deus decidiu abater todos os altos montes, as colinas seculares e encher os vales para se aplanar a pedra, a fim de que Israel possa caminhar em segurança. Os bosques e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel. Deus o conduzirá na alegria, com a misericórdia e a justiça[iv].

 

Esta selecção mostra o que abundava e o que faltava.

Abundava

  • a guerra,
  • a injustiça
  • e a fome

que geravam a morte, a tristeza.

Faltava

  • a paz,
  • o acesso à justiça para todos,
  • a comida
  • e a alegria.

Dizer as coisas assim prosaicamente é não dizer nada. É a linguagem dos relatórios e das estatísticas. O próprio da linguagem simbólica, poética é

  • incendiar a imaginação,
  • tornar possível o inalcançável.
  • Dir-se-á que é uma forma de resvalar para a ilusão.

Não creio que seja a linguagem do ópio. Não há ninguém que seja enganado pela literatura e, sobretudo, pela poesia. Esta é a linguagem humana que nenhuma riqueza ou pobreza poderá substituir. Fazer sonhar é o primeiro passo para a necessidade de agir.

 

Os autores do Novo Testamento, cada um com a sua originalidade, procuram mostrar que em Jesus Cristo o passado é

  • assumido,
  • reinterpretado
  • e transformado.

Não é reproduzido. Atribuem-lhe a expressão:disseram-vos, mas eu digo-vos.

A religião em que foi educado não abafou

  • a sua criatividade,
  • a sua liberdade,

sobretudo quando essa religião

  • matava a esperança dos mais pobres
  • e criava toda a espécie de exclusões.

Os evangelistas pretendem mostrar que Jesus incarnava, de forma inovadora, o anti–fatalismo dos profetas. Quando se dizia sempre assim foi,significava para o Mestre: tem de mudar!

No Antigo Testamento,

  • apesar da corrente sapiencial, universalista,
  • a corrente nacionalista, xenófoba era a que prevalecia.

A carta aos Efésios não pode ser mais clara: lembrai-vos de que nesse tempo estáveis

  • sem Cristo,
  • excluídos da cidadania de Israel
  • e estranhos às alianças da promessa,
  • sem esperança e sem Deus no mundo. (…)

Em Cristo Jesus, vós, que outrora estáveis longe, agora, estais perto, pelo sangue de Cristo. Ele é a nossa paz, de dois povos fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade. Na sua carne,

  • anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições,
  • para, a partir do judeu e do pagão,
  • criar em si próprio um só homem novo[v].

O versículo 10, que antecede esta passagem, faz uma declaração absolutamente espantosa: nós somos poema de Deus[vi]. Não estraguemos a dignidade deste poema, escrita divina.

 

Segundo o panorama actual, verificamos que, em vários continentes, há dirigentes políticos que não desistem da guerra e que todos os pretextos são bons para declarações ameaçadoras.

  • As pessoas podem morrer e morrem das formas mais inesperadas,
  • mas o comércio das armas é que não pode morrer.
  • É a lógica da centralidade absurda do dinheiro.

Deixa de ser um instrumento para uma vida humana de qualidade, para se transformar no dono da vida e da morte. Aquilo que deveria ser um meio de desenvolvimento da ciência e da técnica para a felicidade de todos, transforma-se no poder de decidir a sorte da humanidade.

A Europa

  • conheceu, num único século, guerras horrorosas,
  • mas parece cansada da paz que conseguiu.

Está mais do que demonstrada a ferocidade que pode ser desencadeada entre pessoas, nações e povos. Essa todos os dias é patenteada, em diversos cenários de crueldade, com meios de comunicação que a celebram e a incitam ao seu motor: o ódio do outro.

Importa investigar os mecanismos psicológicos, sociais, económicos e políticos que incitam à guerra e à paz.

  • Foi possível subscrever a carta dos Direitos Humanos.
  • Nunca se conseguiu assinar a dos Deveres.

O Papa Francisco enviou uma carta à Universidade Lateranense sobre ciclos de estudos interdisciplinares para multiplicar o número de pessoas especializadas nas Ciências da Paz.

  • Havendo tantos meios para criar incitamentos ao ódio e à violência
  • é fundamental preparar pessoas, grupos, instituições que tenham como objectivo a promoção da cultura da paz.

A Igreja dispõe de movimentos, de paróquias, de colégios, de universidades dedicadas à educação. Poderá desistir de fazer de todos esses meios centros de educação activa, interveniente na cultura da paz? Ou irá dispensar o Natal este ano?

in Público 09.12.2018

 

Frei Bento Domingues

Fonte:https://www.publico.pt/2018/12/09/sociedade/opiniao/desistir-paz-1853553

 

 

[i] Is 2, 1-5

[ii] Is 11, 1-10

[iii] Is 25, 6-10

[iv] Br 5, 1-9

[v] Cf Ef 2, 11-19

[vi] Frederico Lourenço, em nota 2, 10 diz que, à letra, a tradução do grego é «nós somos poema d’Ele», Carta aos Efésios, Bíblia, vol II

 

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