Um Concílio com paridade homens-mulheres: foi lançada uma petição

«Le concile que nous demandons est paritaire hommes/femmes et clercs/laïcs», indique la théologienne et journaliste Anne Soupa, présidente de la Conférence catholique des baptisé-e-s francophones | DR

 

por Bernard Litzler –  06.11.2018

Tradução: Orlando Almeida

 A Conferência católica dos batizados de língua francesa (CCBF) faz um apelo ao Papa Francisco: convocar um Concílio com uma paridade entre homens e mulheres. Uma petição nesse sentido foi publicada na Internet. Anne Soupa, presidente da CCBF, explica a iniciativa.

“O concílio que nós pedimos é paritário homens / mulheres e clérigos / leigos” – diz a teóloga e jornalista Anne Soupa, presidente da Conferência católica dos batizados/as de língua francesa | DR

 

“Nós queremos responder ao vosso apelo”: a CCBF dirige-se ao papa publicando uma petição na Internet. Na carta ao povo de Deus de agosto de 2018 – diz a CCBF – “o senhor condena clericalismo como uma das causas do mal, e faz um apelo aos batizados para que o  ajudem a resolver o problema”.

A Conferência dos batizados/as de língua francesa pede então ao Papa que convoque um “Concílio do Povo de Deus, reunindo paritariamente representantes do povo de Deus, homens e mulheres, leigos e clero.”

Este Concílio seria percebido, na avaliação dos peticionários, como 

  • “o sinal da vossa vontade de uma profunda renovação na Igreja
  • e permitiria se devolvesse a ela a  confiança de seus membros.

Seria um momento de verdade

  • para oferecer à nossa Igreja as condições de um  verdadeiro renascimento
  • e para definir um novo futuro compartilhado pela totalidade dos crentes”
  • – declara a CCBF.

 

Este Concílio do povo de Deus que vocês querem, não é o que já o Vaticano II procurava pôr em prática?

Anne Soupa: O Vaticano II era um concílio de bispos. De bispos notáveis, atentos às necessidades dos tempos e também ao cristianismo das origens, o que permitiu à nossa Igreja voltar a centrar-se em torno do Cristo, e não mais sobre uma hierarquia e sobre  uma liturgia sedimentadas durante séculos e particularmente esquecidas do corpus evangélico. O concílio que nós pedimos é paritário

  • “homens / mulheres
  • e clérigos / leigos”.

Uma primeira vez!

Se a minha leitura do que Jesus diz está correta, a única coisa sagrada cristã é o rosto do irmão – ou da irmã.

A Conferência dos batizados/as pensa que hoje é preciso urgentemente refletir sobre o sensus fidei, o “sentido da fé” que são João reconhece a todo o discípulo de Jesus. Os eclesiólogos, aqueles que estudam a estrutura da Igreja, estabeleceram que este sensus fidei, revisitado pelo sensus fidelium (sentido da fé de todos os fiéis), concedido ao Papa, associado a ele, deve informar as decisões do bispo de Roma.

Mas na prática, como fica isso? Como se define a sua articulação? A sua implementação?  Como é que o papa decide?  Os teólogos nunca se debruçaram seriamente sobre a questão. Em geral, tira-se do celeiro o “sentido da fé” quando convém e guarda-se de novo quando contraria. Sempre que um bispo ouve a palavra “democracia”,  ele exclama agitando a mão que a Igreja não é uma democracia. Mas o que faz ele do sensus fidei dos fiéis?

 

Vocês não temem que esta petição desperte as forças que se opõem à renovação da Igreja e que são muito ativas na França?

As forças que se opõem à renovação da Igreja

  • prosperaram
  • porque todos ficaram calados diante delas.

Elas traziam

  • serviços,
  • dinheiro,
  • porque, tendo travestido o cristianismo em moral,
  • tiveram apoios políticos.

E  elas não criticavam a maneira como a igreja era administrada, uma vez que elas conseguiam ocupar nela funções estratégicas. Continuar calados é fazer o jogo delas, alimentado intimidações cada vez mais fortes. Será que se quer repetir Munique [conferência realizada em 1938 entre Hitler, Mussolini, Chamberlain e Daladier  N.d.r. ]? Por terem recuado continuamente, as democracias ocidentais tiveram a vergonha e a guerra.

Nestas condições,

  • assentar todas as próprias convicções sobre o modo como os outros as vão receber,
  • vai dar-vos não só grandes chances de ficar em silêncio a vossa vida toda,
  • mas ainda de fazer chegar ao comando da Igreja as próprias forças que gostaríeis de denunciar.

É uma forma muito bem sucedida de chantagem:

  • berrar,
  • ameaçando berrar mais alto se alguém falar.

O episcopado francês parece ser na realidade vítima disso. Mas os cristãos são os fiéis do Cristo Palavra, eles não usam focinheiras. Um cristão não deveria ter mais medo do seu silêncio do que da sua palavra?

 

Mas lutar contra o clericalismo como vocês tentam fazer, não é fragilizar a imagem dos padres, frequentemente criticados e que, na sua maioria,  sofrem desgaste de imagem infligido pelos casos de pedofilia?

Isso, é preciso dizê-lo primeiro ao papa! Foi Francisco quem definiu perfeitamente o clericalismo. E ele sabe do que está falando; releia a carta que ele enviou ao cardeal Ouellet: “Ninguém é batizado como bispo”. “O batismo precede a ordenação”.

Sim, a maioria dos padres sofre e todos nós devemos evitar o uso de palavras estigmatizantes a respeito deles. Mas é claro que

  • foi a pedofilia que fragilizou a imagem do padre
  • e não a luta contra o clericalismo;
  • não vamos inverter a ordem dos fatores!

 

Então, como fazer recuar o clericalismo?

Para isso, devemos primeiro lutar vigorosamente contra o retorno do sagrado, que vem de uma sociedade civil com falta de transcendência.

  • Os padres da nova geração se apoderaram dele,
  • ao ponto de excluir as meninas do altar,
  • porque, segundo eles, elas não devem ter parte no sagrado.

Mas é uma verdadeira heresia apoiar isso! E parece que na França ninguém tem nada a objetar a isso… Ora, se faço uma leitura correta do que Jesus diz disso, a única coisa sagrada cristã é o rosto do irmão – ou da irmã.

Dito isto, é preciso abrir os olhos e olhar profundamente:

  • as causas do clericalismo são múltiplas
  • e muito disseminadas no corpo da Igreja.

E isso não poderá desaparecer a não ser que se aceite repensar o conjunto das características do ministério ordenado: definição

  • da vocação,
  • estado de vida,
  • estatuto eclesial,

em particular.

Eu sonho com um ministério presbiteral

  • verdadeiramente pobre,
  • totalmente desconectado do exercício do governo na Igreja.

Isso, pelo menos, significaria o Cristo pobre. É uma tarefa muito pesada, mas dela depende a Igreja de amanhã.

 

A vossa meta é atingir 10.000 assinaturas. Não é modesta demais em relação ao vosso objetivo?

Sim, mas a experiência em matéria de petições tornou-nos cautelosos. Frequentemente as petições bem-sucedidas são aquelas que correspondem às demandas emocionais da opinião. As petições racionais, menos nascidas da urgência de uma atualidade que as impulsione, têm mais dificuldade em alcançar  pontuações de estrelas!

 

Como você definiria a CCBF que está na origem desta iniciativa?

A Conferência dos batizado/as tem por objetivo

  • sensibilizar o conjunto dos batizados,
  • leigos assim como clérigos,
  • para a responsabilidade que temos, juntos,
  • por  uma Igreja capaz de anunciar o Evangelho no mundo de hoje.

Esta Igreja não pode ser senão composta de mulheres e de homens, todos chamados sem distinção de sexo ou estado de vida, às três funções essenciais da Igreja:

  • ensinar,
  • santificar
  • e governar.

Por isso a Conferência já empreendeu  a formação de  leigos

  • para a pregação,
  • para a liturgia
  • e para a  leitura bíblica, em pequenos grupos,

graças à internet. E ela tem muitos outros projetos!

 

A petição é dirigida só ao público de língua francesa?

Não, é claro. Ela

  • é internacional,
  • em cinco línguas,

e é divulgada por várias organizações:

  • a rede europeia enre.eu, uma organização não governamental internacional acreditada junto ao Conselho da Europa em Estrasburgo;
  • a rede Redes Cristianas, na Espanha;
  • a rede “Noi Siamo Chiesa” (“Nós somos a Igreja”), na Itália;
  • e nos Estados Unidos a rede  Catholic Church Reform International.

Além disso, ela é um pedido de democracia, incluindo a paridade mulheres-homens, clérigos e leigos, coisa que não pode desagradar aos suíços*. Por outro lado, falta-nos um retransmissor no mundo germânico.

 

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* Bernard Litzler

autor da matéria e entrevistador, é suíço.

Fonte: https://www.cath.ch/newsf/un-concile-a-parite-hommes-femmes-une-petition-est-lancee/

 

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A PETIÇÃO

Santíssimo Padre,

Após as maciças revelações de numerosos escândalos da Igreja relativas aos abusos sexuais de menores por padres, vós enviastes uma carta ao povo de Deus, na qual vós condenais o clericalismo como uma das causas do mal e fazeis um apelo aos batizados para que vos ajudem a resolver o problema.

Nós queremos responder ao vosso apelo.

Com efeito nós apoiamos com ardor  todas as vossas iniciativas e procuramos pôr em prática  o que vós recomendais. À época, a Conferência dos batizados (CCBF) difundiu amplamente e comentou

  • os vossos escritos anteriores sobre estes assuntos, Evangelii Gaudium,
  • o vosso discurso por ocasião do 50º aniversário do último concílio em 2015,
  • e a vossa carta ao cardeal Ouellet em 2016,

em que vós já mencionáveis

  • a “mobilização dos batizados” na vida da Igreja,
  • a necessidade de ter “ousadia”,
  • a necessidade de “inverter a pirâmide”
  • e a “primazia do sacerdócio comum dos fiéis”.

Hoje,

a credibilidade da nossa Igreja está não apenas ferida, mas em frangalhos.

  • E com a confiança que se afasta,
  • é a barca da Igreja que afunda
  • e, juntos, padres e leigos, perdemos todo o crédito no anúncio  do Evangelho.

É nosso dever, como Conferência dos batizados, fazer-vos conhecer as nossas convicções, opiniões, sugestões para a nossa Igreja, tal como nos exorta a fazer o direito canônico (212, §3). Este dever não é senão a consequência do “sentido da fé” que anima os fiéis e que vós tendes a responsabilidade de expressar em nome de todos.

É por isso que pedimos encarecidamente a convocação de um “Concílio do povo de Deus”.

Não deve o povo todo pôr-se à escuta do Espírito, a fim de sentir “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens deste tempo” (Gaudium et Spes, §1)? 

  • Não deve o povo todo contribuir para redefinir as bases de uma Igreja atenta aos chamados do Senhor?
  • Não é escutando o povo todo que a confiança abalada pode voltar?

Reunir paritariamente representantes do povo de Deus, homens e mulheres, leigos e clérigos, seria o sinal da vossa vontade de uma profunda renovação na Igreja e permitiria a ela reconquistar a confiança de seus membros.

Seria um momento de verdade para oferecer à nossa Igreja as condições de um verdadeiro renascimento e para definir um novo amanhã compartilhado pelo conjunto de todos os crentes presentes e futuros.

Peço-vos que acredite, Santíssimo Padre, no meu mais profundo respeito.

Em nome da CCBF,

Anne Soupa, Presidente

Mail: contact@baptises.fr

 

Fonte: http://conciledesbaptises.wesign.it/fr

 

 

 

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