Potencialidades históricas do ‘Encontro de Irmãos’ – Recife 1969-1985. (I)

(Devido ao tamanho do texto, está sendo publicado hoje e amanhã : I  e II – NdR)

 

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Eduardo Hoornaert – 29/11/2018

Em homenagem a Leonardo Boff, por ocasião de seus oitenta anos de vida bem vivida (14/12/2018).

Imagem:: blogs.periodistadigital.com

Tal qual foi inspirado e animado pelo bispo de Recife, Helder Câmara, o ‘Encontro de Irmãos’, concretização local do movimento de ‘Comunidades de Base’, que na época se espalhava pelo Brasil afora, apresenta um método educacional de rara autenticidade. Embora só vigorando apenas ao longo de aproximadamente quinze anos (entre 1969 e 1985), o ‘Encontro de Irmãos’ transcende a história e nos conserva hoje lições importantes para um trabalho educacional de alta qualidade, seja em meio popular, seja em outros meios.

Primeiros esboços de um novo método educacional.

Na Semana Santa de 1969, no exato quinto aniversário do golpe militar de 1 de abril de 1964, o bispo de Recife, Helder Câmara, lança o ‘Movimento de Evangelização Encontro de Irmãos’ que, sendo oficialmente extinto por seu sucessor em 1985 ou 1986, atua por aproximadamente quinze anos. Baseado na mística de Pentecostes, a oficialização do Encontro de Irmãos e seu ‘batismo’ se dão nas festas de Pentecostes em maio de 1969.

Nos anos seguintes, o movimento comemora seu aniversário na festa de Pentecostes, 50 dias após a Páscoa. Em determinados anos, uma média de dez mil pessoas caminha uma noite toda em direção à igreja dos Guararapes (perto do aeroporto) para ali celebrar a missa de Pentecostes.

E como o bispo Helder Câmara dá um tom místico a tudo que diz e faz, pode-se dizer que o Encontro de Irmãos nasce místico. A fé no poder do Espírito Santo anima as pessoas que dele participam.

  • Não por acaso,
  • é na Festa de Pentecostes que surge o nome ‘Encontro de Irmãos’.

Pouco importa a precariedade dessa experiência em termos de duração, o que nela não passa é o valor de um método que escapa às vicissitudes do tempo. A tal ponto que não hesito em afirmar aqui que o ‘Encontro de Irmãos’ é a iniciativa mais importante da vida de Helder Câmara.

Nele há como detectar influências provenientes de iniciativas que remontam à década de 1950. Comentaristas apontam, já naquela década, sinais esporádicos da emergência do que ulteriormente passa a se chamar ‘Comunidade de Base’. Assim a iniciativa de ‘catequese popular’ na Diocese de Barra do Piraí (Volta Redonda, Estado do Rio de Janeiro, 1956), em que se resolve reunir as catequistas em grupos para estudar e discutir as lições programadas, ou ainda o projeto de catequese por meio radiofônico, estimulada pelo então bispo auxiliar de Natal, Eugênio Sales.

Por sinal, esse projeto

  • postula a ação de ‘monitores’
  • a acompanhar a compreensão das emissões radiofônicas por grupos locais.

Mais adiante, Sales vai promover a criação de ‘Centros de Formação de Líderes’,

  • primeiramente em Natal (1958-1960)
  • e depois em Salvador (1964-1971),
  • sempre com a finalidade de formar monitores a acompanhar grupos de estudo.

Emerge aos poucos a expressão ‘Comunidade de Base’. Aqui e acolá emergem comunidades, geralmente reunidas em função

  • da proximidade territorial
  • e de carências e misérias em comum,

compostas principalmente

  • por membros de classes populares despossuídas,
  • vinculadas a uma igreja ou a uma comunidade,
  • cujo objetivo é a leitura bíblica
  • em articulação com a vida, com a realidade politica e social em que vivem
  • e com as misérias cotidianas com que se deparam na matriz ordinária de suas vidas.

Aqui já emerge o ‘método Cardijn’, (ver, julgar, agir).

Enfim, esses grupos

  • passam a olhar de modo diferente a realidade em que vivem (ver),
  • a julgá-la com os olhos da fé (julgar)
  • e a tentar transformá-la (agir).

No mesmo contexto nasce o ‘Movimento de Educação de Base’ (MEB), que trabalha igualmente por meio de emissões radiofônicas. Como a iniciativa, de início, recebe forte crítica por parte de Paulo Freire no sentido que

  • não conseguiria ultrapassar a tradicional passividade do povo
  • e não promoveria um diálogo entre programadores e ouvintes,
  • o MEB, na época coordenado pelo bispo auxiliar do Rio de Janeiro, José Távora,
  • lança a cartilha ‘Viver é Lutar’,
  • um texto redigido para ser discutida em ‘círculos’ animados por ‘monitores’.

Imediatamente, o Governador do Rio, Carlos Lacerda cai em cima da iniciativa e a sufoca.

A teóloga Maria Clara Bingemer detecta quatro traços distintivos na Comunidade de Base:

1. a territorialidade: as pessoas se reúnem por proximidade geográfica e isso faz com que suas reivindicações sejam confluentes;

2. o fator bíblico: muitos grupos se reúnem para leitura e reflexão da Palavra de Deus e confrontá-la com a vida cotidiana. Muitas comunidades emergem desses círculos bíblicos e passam a organizar a celebração dominical com ou sem sacerdote. Em alguns lugares se ouve a palavra de um bispo ou de um líder comunitário (como acontece em Recife com a palavra diária de Helder Câmara no programa radiofônico ‘Um olhar sobre a ciade’);

3. o fator discussão: problemas comunitários são discutidos em conselhos ou assembleias, com ampla participação dos membros;

4. o fator ministerial: a partir das necessidades de uma determinada comunidade surge um tipo de ministério leigo, como, por exemplo,

ou de algum grupo de alfabetização de adultos, de creches, bibliotecas, hortas comunitárias, clubes de mães.

Bingemer abre um vasto leque de possibilidades para a atuação de uma Comunidade de Base. A partir da reflexão sobre os problemas da família, do trabalho e do bairro, a Comunidade de Base ajuda a criar movimentos sociais:

  • associações de moradores,
  • organizações sindicais,
  • luta pela terra,
  • fortalecimento do movimento operário.

Por suas características ecumênicas,

Durante a tradicional ‘Semana de Evangelização’ de março 1969, a Diocese de Recife faz um chamado a todas as paróquias no sentido de aderir a um novo projeto, chamado ‘Encontro de Irmãos’.

Na formulação do convite aparecem termos como ‘libertação’ e ‘conscientização’, além da expressão emblemática ‘pobres evangelizando pobres’.

  • Das 72 paróquias, 42 aderem ao projeto.
  • As paróquias mais ricas não respondem.

Isso se entende, pois em dezembro de 1968, por meio do Ato Institucional Número 5 (o famoso AI-5), o governo militar fecha o pouco de abertura política que ainda resta no país. Os tempos são perigosos.

Em aparente represália à ousadia do bispo no sentido de falar em ‘conscientização do pobre’,

  • a Ditadura Militar, utilizando seus grupos clandestinos,
  • sequestra, no dia 28 de maio de 1969, o Padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da Pastoral da Juventude.

O jovem sacerdote

  • é torturado até a morte,
  • seu corpo é jogado num matagal na Cidade Universitária.

Mas nem Helder nem o povo recuam. Milhares de pessoas, em procissão, acompanham o enterro do Padre Henrique cantando: Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão! A perseguição continua.

Em dezembro de 1972,

  • no encerramento do Conselho Anual do Encontro de Irmãos,
  • o seu coordenador, João Francisco,
  • é sequestrado pela Polícia Federal.

Durante quinze dias, ninguém tem notícia de seu paradeiro. Então, o Encontro de Irmãos

  • faz o que nunca se tinha feito antes para um preso político:
  • lota a Igreja da Madre de Deus
  • e faz vigília de adoração.

Vem gente de tudo que é lugar, Helder Câmara à frente. Após 15 dias, João Francisco aparece são e salvo. Com sua saída (ele viaja com a família ao Sul do país), quem fica como coordenador geral é Abdalaziz Moura.

Em pouco tempo, o Encontro de Irmãos conta com 248 núcleos organizados nas periferias da Região Metropolitana do Recife. O Conselho anual é o órgão máximo do Movimento. Com o Boletim se faz a preparação e a devolução do Conselho Anual nos núcleos. No Conselho, participam os representes dos núcleos, escolhidos por eles mesmos. Os núcleos são agrupados em setores, formados por um bairro ou mais, até por um município. Há doze setores, nos quais se realiza treinamento para a formação, por meio de um domingo de estudo a cada três meses.

Na Assembleia Anual do Conselho é que se escolhe a equipe executiva com dois representantes de cada setor. A equipe executiva se reúne uma vez por mês. Sua tarefa consiste em encaminhar as decisões do Conselho Anual à base do movimento. Dentro da equipe executiva há coordenadores que são liberados para

  • dar expediente na sede do Movimento,
  • fazer relatório, roteiro, boletim,
  • atender ao público, p
  • reparar e fazer o programa na rádio Olinda
  • e acompanhar os setores.

Esses coordenadores são indicados pelo Conselho Anual. O bispo se limita a confirmar as decisões desse Conselho. Enfim, trata-se de um movimento que se auto sustenta.

O verdadeiramente importante, na trajetória de quinze anos do ‘Encontro de Irmãos’ (1969-1985), consiste no fato que ele inicia um processo educacional que supera as vicissitudes do momento.

  • Ao formar monitores e animadores para pequenos grupos de evangelização atuantes nos bairros pobres da cidade de Recife,
  • abre perspectivas pedagógicas além do tempo e do espaço.

A fórmula é simples:

  • as pessoas se reúnem para ouvir pela Rádio Olinda comentários diários sobre a Bíblia e a atualidade, feitos pelo bispo.
  • Depois discutem entre si o que entenderam ou, simplesmente, falam o que desejam dizer em torno do programa radiofônico.
  • Aproveitam para se encontrar e fazer a reunião.

O programa diário de rádio é a voz do Encontro de Irmãos.

  • Os grupos vão crescendo e chegam a quatrocentos núcleos.
  • Espalham-se para outras dioceses em Pernambuco e para outros Estados do Nordeste.

 

SABER

Os agentes de pastoral, quando alguém lhes pergunta o que é o Encontro de Irmãos, costumam dizer:

  • ‘são pobres evangelizando pobres’.
  • Falam também em ‘jeito diferente de evangelizar’,
  • ‘trabalhar com o povo e não para o povo’,
  • ‘ensinar a pescar e não só dar o peixe’,
  • ‘não ir atrás e nem na frente, mas no meio do povo’,

ou ainda: ‘antes de ensinar ao povo, devemos aprender com ele

  • ’, ‘devemos devolver a palavra ao povo’,
  • ‘o povo toma seu destino em mãos’.

O Encontro de Irmãos se apresenta, pois, como um método educacional. Os animadores costumam

  • se referir ao ‘método Paulo Freire’
  • e aludir ao livro ‘Pedagogia do Oprimido’, da autoria do pedagogo,

que está convencido que

  • a educação está umbilicalmente ligada à situação em que um determinado povo vive
  • e que, por conseguinte, não existe pedagogia neutra.

Ela implica sempre numa análise da sociedade em que se vive. Perceber esse dado não é tão fácil, pois os relatos que recebemos acerca de sociedades do passado e suas peripécias, normalmente mantêm silêncio acerca das situações econômicas, sociais e políticas em que as populações do passado realmente viviam.

Só para dar um exemplo:

  • quando estudamos o antigo Império Romano,
  • ouvimos falar em imperadores, legiões conquistadoras, guerras, administrações públicas, ‘paz romana’,
  • mas quase nunca os livros nos informam que toda essa historiografia só narra as peripécias de apenas 1 % da população do Império, uma elite capaz de ler e escrever.

Dos aproximadamente 60 milhões de habitantes do Império Romano, a vida e os anseios de aproximadamente 50 mil pessoas nos são conhecidos por meio de uma historiografia de ‘fatos e eventos’, a historiografia normal. A história dos 99 % cai no ocultamento e, mais tarde, no silenciamento. É, largamente, a história silenciada da escravidão.

O valor do método Paulo Freire, quando aplicado ao Brasil, consiste no fato que ele,

  • mesmo sem explicitar a coisa,
  • remete à escravidão,
  • ou seja, à vida concreta de pessoas secularmente submetidas a um dos mais recorrentes e vergonhosos procedimentos da história da humanidade desde os tempos neolíticos,

a partir do momento em que pessoas se apoderaram de outras pessoas para

  • fazer guerra,
  • cultivar terrenos,
  • produzir lucro,
  • reservar para si as riquezas da terra.

A escravidão é uma estruturação societária tenaz, que atravessa milênios e continua em vigor nos dias de hoje, de modo camuflado.

Ver as coisas sob esse ângulo nos leva à pedagogia do velho filósofo educador grego Sócrates, do século V aC.

Pode-se perguntar:

  • por que invocar Sócrates aqui?
  • Isso não complica as coisas?
  • Já não temos Paulo Freire para nos indicar os rumos da ‘pedagogia do oprimido’?

Respondo dizendo que

  • Sócrates explicita com maior precisão e maior insistência que Paulo Freire
  • o segundo passo do que ele elabora como sendo o ‘método da educação’.
  • O passo de como agir depois de adquirir uma nova consciência.

Penso que essa maior precisão provém do fato que Sócrates vive em uma cidade, Atenas, explicitamente escravocrata.

  • Os aproximadamente cinco mil ‘cidadãos’
  • são servidos por não menos de cem mil escravos (alguns historiadores falam em números ainda mais altos).

Nos documentos que nos restam desse tempo, praticamente não se fala em escravidão. Só alguns dramaturgos, como Aristófanes, colocam escravos em cena, sempre de modo burlesco. É que a escravidão é considerada um dado ‘natural’, fazendo parte da vida natural.

‘Alguns nascem escravos’, dirá mais tarde Aristóteles. Tenho por mim que

  • o trabalho educativo de Sócrates tem muito a ver com a escravidão reinante
  • e que, inclusive, é provavelmente por causa dessa ‘intromissão’ em assunto tabu que ele finalmente é condenado à morte pelas autoridades de Atenas.

De qualquer modo, estudar o ‘método socrático’ diante do pano de fundo da escravidão reinante confere um relevo ao pensamento do educador e realça seu valor universal. Diante do panorama da escravidão, os três passos conhecidos da educação socrática:

  • ‘pensar’,
  • ‘agir’
  • e ‘dialogar’,

ganham um significado universal, além do tempo e do espaço.

Quando aborda o tema da educação, Sócrates recorre ao termo grego ‘maiêutica’, que significa ‘arte da parteira’. A mãe do filósofo era parteira, ela ajudava a trazer à luz a criança oculta do ventre da mãe. Exatamente o que faz o educador, diz Sócrates.

A educação

  • ‘tira de dentro’,
  • faz emergir o que existe,
  • mas parece não existir.

Ela faz com que a pessoa

  • tome consciência daquilo que na realidade já sabe,
  • mas ‘não sabe que sabe’ (a formulação é de Marilena Chaui),
  • não toma consciência de seu saber.

No ventre da mãe, a criança vive, mas não se manifesta (não estende a mão). Do mesmo modo,

  • o discípulo (escravo?) sabe,
  • mas seu saber não aflora à consciência
  • e, portanto, não se traduz em atos manifestos.

A pessoa oprimida é acometida por

  • abatimento,
  • depressão,
  • tristeza,
  • resignação,
  • revolta,
  • até pensamento de suicídio,

ou então se resigna na conformidade,

  • obediência servil e hipocrisia,
  • identificação com o modo de pensar de seu amo.

Ela não pensa mais, o amo pensa nela (veja o filme: ‘crepúsculo do dia’). No caso concreto da vida em Atenas, o escravo

  • segue fielmente a religião,
  • oferece sacrifícios aos deuses protetores da cidade,
  • obedece às leis,
  • parece integrado na vida social (veja a ‘Apologia de Sócrates’, compilada por seu discípulo Platão).

Há algo trágico

  • nessa recusa, por parte do escravo,
  • em pensar de modo independente,
  • pois é exatamente seu ‘não saber que sabe’ que o mantém escravo.

Diante dessa situação, um educador como Sócrates

  • resolve fazer-lhe perguntas e mais perguntas,
  • até chegar a um ponto em que a contradição fica patente.

O mestre ateniense resume esse método de questionamento numa só curta frase: ‘gnôti seauton’ (conheça-se a si mesmo). Ele mexe num caldo de sentimentos mal confessados e muitas vezes subconscientes, mas insiste pacientemente, como a parteira. Até extrair do discípulo o que sabe, mas até então não quis saber que sabe.

 

Eduardo Hoornaert

 

Eduardo Hoornaert

Fonte: enviado via e-mail pelo autor.

Disponível em seu blog: http://eduardohoornaert.blogspot.com/2018/11/potencialidades-historicas-do-encontro.html

 

 

 

Eduardo Hoornaert

Fonte: enviado via e-mail pelo autor.

Disponível em seu blog: http://eduardohoornaert.blogspot.com/2018/11/potencialidades-historicas-do-encontro.html

 

 

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