Müller: “Ninguém tem o direito de colocar o Papa sob acusação”

O cardeal: “Os ataques prejudicam a credibilidade da Igreja. Estou convencido de que Francisco faz todo o possível contra os abusos. Os bispos americanos deveriam ter enviado antes os textos a Roma”

 

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ANDREA TORNIELLI, 27/11/2018

Foto: Cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé / Paulopes

Tradução: Orlando Almeida

“Ninguém tem o direito de colocar sob acusação o Papa ou de pedir que ele renuncie!” Os ataques e as polêmicas públicas “acabam por colocar em discussão a credibilidade da Igreja e a sua missão”. O cardeal Gerhard Ludwig Müller, teólogo e ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, recebeu-nos na sua residência na Piazza della Città Leonina, nos aposentos em que morou durante um quarto de século o cardeal Joseph Ratzinger. Ele está preocupado com o clima que se respira na Igreja, as tensões, as polarizações e as facções opostas.

 

Eis a Entrevista

No final de agosto, o arcebispo Carlo Maria Viganò publicou um dossiê colocando sob acusação o Papa por um suposto “acobertamento” do cardeal Theodore McCarrick, e chegou a pedir que Francisco se demita: o que o senhor acha?

“Ninguém tem o direito de colocar sob acusação o Papa ou de pedir-lhe que se demita! É claro se podem ter opiniões diversas sobre os problemas existentes e sobre as formas de resolvê-los, mas devemos discutir  sobre isso de acordo com os papéis de cada um e no fim são os cardeais, como representantes da Igreja de Roma, que podem ajudar o Papa ou pedir ao Papa algumas explicações.

Mas isso deve ocorrer de forma reservada, nos  lugares apropriados e sem nunca fazer uma polêmica pública com ataques que acabam por colocar em discussão a credibilidade da Igreja e a sua missão. Eu estou pessoalmente, convencido de que o Papa Francisco

  • faz tudo o que é possível para combater o fenômeno dos abusos contra menores
  • e para promover uma nova espiritualidade dos sacerdotes,
  • que devem agir de acordo com o coração de Cristo e fazer o bem de todas as pessoas, especialmente das crianças e dos jovens”.

 

Hoje, até o terrível escândalo dos abusos é usado nas batalhas internas na Igreja. O senhor concorda?

“Todos devemos cooperar para superar esta crise que prejudica a credibilidade da Igreja. Infelizmente temos estes grupos, estes “partidos” – os chamados “progressistas” e “conservadores”. Estamos todos unidos pela fé revelada, e não pelos preconceitos de ideologias políticas. Nós não somos um ente político, a Igreja foi instituída por Jesus Cristo e é guiada pelos bispos e principalmente pelo Sucessor de Pedro, que é o princípio permanente e fundamental da unidade da Igreja na verdade revelada e na comunhão sacramental, em sermos irmãos e em confiarmos uns nos outros como se lê na Constituição conciliar Lumen Gentium, número 18.

Espero que o Papa possa tomar algumas iniciativas para uma reconciliação.

Por exemplo,

  • para administrar a crise que se seguiu ao escândalo dos abusos nos Estados Unidos,
  • poderia nomear uma comissão de cardeais de sua confiança, para estudar a situação
  • e com base em informações sólidas, em seguida, apresentar algumas propostas,
  • acima das divergências, das lutas entre facções, das suspeitas mútuas, das campanhas midiáticas de propaganda.

Precisamos de uma sólida base de informações: só assim podem ser tomadas as decisões para o futuro”.

 

Não há dúvida de que os abusos sobre menores são um crime e um pecado abominável. Mas o senhor não acredita que há – dentro da Igreja – pessoas que confiam demais nas best practices e nas normas como solução do problema? Não se corre o risco de esquecer que a Igreja não é uma empresa?

“O direito canônico para nós é um instrumento, uma ajuda necessária para a Igreja, que como qualquer societas precisa de suas regras. No Direito Canônico

  • temos normas de direito divino que não podemos mudar,
  • mas também normas de direito humano, eclesiástico,
  • que podemos mudar e atualizar para responder sempre melhor às exigências e às circunstâncias a serem enfrentadas.

Mas nós, a Igreja,

  • somos uma realidade sacramental e espiritual
  • e são mais importantes as dimensões da moral e da fé:
  • não bastam as regras, as normas, a disciplina externa.

Precisamos

  • de uma renovação espiritual,
  • de oração e de penitência,
  • de recorrer à graça dos sacramentos,
  • de ler e meditar a Bíblia,
  • de entrar no espírito de Jesus Cristo.

Devemos ser sacerdotes segundo o coração de Jesus, o coração de Jesus Cristo na cruz, que sofreu e morreu por amor a todos os pecadores e a todos os seres humanos. O sacerdote é um alter Christus, não pela sua habilidade ou pela sua capacidade, mas porque dá o seu coração pelos homens. Devemos dar testemunho disto e, assim fazendo, restabelecer a credibilidade da Igreja para que as pessoas encontrem a fé”.

 

Bento XVI e Francisco, diante dos escândalos dos abusos, insistiram no caminho da conversão e da oração…

É o caminho mais autêntico. Há os procedimentos que foram estabelecidos para combater o fenômeno, mas a renovação espiritual, a conversão, são mais importantes. Há sacerdotes

  • que nunca participam dos exercícios espirituais,
  • que nunca se aproximam do confessionário,
  • que não rezam o breviário.

E quando a vida espiritual é vazia, como pode um sacerdote agir a exemplo de Cristo?  Corre o risco de tornar-se um “mercenário”, como se lê no Evangelho de João”.

 

Fez muito barulho o fato de a Santa Sé ter pedido aos bispos americanos para adiarem a votação das novas regras anti-pedofilia que previam a criação de comissões de leigos, para investigar sobre a responsabilidade dos bispos, e dos códigos de accountability1. Como o senhor avalia o que aconteceu?

“De acordo com a instituição sacramental da Igreja,

  • os bispos têm a sua responsabilidade,
  • o papa tem a sua,
  • mas todos devem colaborar.

Temos normas suficientes no Direito canônico, temos o ‘motu proprio’ Sacramentorum sanctitatis tutela de 2001, temos normas já existentes da Congregação para a Doutrina da Fé, e nem sempre todos os bispos têm colaborado com o nosso dicastério. Não informaram, como é estabelecido que deve ser feito. Primeiro devemos fazer o que já está estabelecido e indicado como necessário e obrigatório pelas normas existentes. E depois  se poderá colaborar, num espírito fraterno e de colegialidade, e eventualmente discutir se o tom do texto proposto era adequado.

Disseram-me que

  • o texto chegou dos Estados Unidos a Roma, no último momento:
  • por que não foi enviado antes?

É preciso evitar o confronto e a polêmica pública, e discutir juntos primeiro para chegar a uma decisão.  É preciso conversar mais, antes.

Eu pensava que seria necessário que a presidência da Conferência episcopal americana consultasse antes os nossos especialistas na Congregação para a doutrina da fé. O Santo Padre é uma pessoa só, não pode cuidar de tudo. Para isso existem os dicastérios da Cúria Romana, para colaborar e chegar a uma proposta bem elaborada a ser levada ao Papa”.

 

Hoje há quem insista em dizer que o problema dos abusos está na realidade ligado ao problema da homossexualidade do clero. O que o senhor pensa disso?

“Pedofilia e homossexualidade são expressões da psicologia, que ajudam a Igreja na sua teologia moral.

  • Mas para nós a dimensão continua a ser a moral:
  • isto é, se se age segundo os Mandamentos, segundo a santa vontade de Deus, ou não.
  • Esse é para nós o problema.

Devemos colaborar com a psicologia e a sociologia, mas nós, na Igreja, ao nível de magistério, não devemos colocar em primeiro plano estas disciplinas. Devemos, ao contrário, basear-nos na teologia moral. É claro que, segundo a vontade de Deus,

  • para os fiéis leigos não é possível ter relações sexuais fora do casamento,
  • e para um padre – que se comprometeu a viver o celibato – não é possível relações sexuais.
  • Nem muito menos é permitido a quem quer que seja abusar sexualmente de meninos ou crianças.

O abuso contra menores

  • é um pecado abominável que rouba a alma dos pequenos confiados aos nossos cuidados,
  • é alguma coisa de diabólico!
  • Precisamos elevar o nível moral do clero.

Quanto à sua pergunta: não podemos falar de “homossexuais”.

  • Não existem os “homossexuais” como categoria.
  • Há pessoas concretas que têm certas tendências,
  • e há as tentações.

O nosso coração está ferido pelo pecado original e devemos superar as tentações com a graça, a nova vida em Jesus Cristo. Chamando sempre o pecado de pecado e reconhecendo-o como tal, para não cair na corrupção dos que pecam e se auto-justificam”.

 

O Papa Francisco fala de abuso de poder e de clericalismo para indicar que antes de ser um abuso sexual, o dos clérigos sobre menores (e sobre adultos vulneráveis) é um abuso por parte de quem exerce uma autoridade sobre a vítima. Por isso, pode-se dizer – por exemplo –  que McCarrick não tinha simplesmente relações homossexuais com os seus seminaristas, mas que abusava deles.

“Acho que o Papa quer ressaltar o fato de que,

  • no abuso sexual contra menores cometido por sacerdotes
  • há sempre um abuso da autoridade natural e espiritual do sacerdote.

Ele

  • é representante de Jesus Bom Pastor,
  • os meninos e os rapazes confiam nele
  • e ele exerce uma paternidade sobre eles.

O abuso sexual começa com um abuso de autoridade e de consciência. Isto é, acredito, o que pretendia dizer o Santo Padre. Se alguém está secularizado no seu coração, para ele as categorias

  • de poder,
  • de interesse,
  • de luxo,
  • de dinheiro,
  • de prazer,

tornam-se ídolos. O sacerdote não deve ser mundanizado: o nosso tempo, o nosso ser, é para o povo, para o povo de Deus.

 

O Papa Francisco insiste em alertar contra o clericalismo…

“Não gosto desta palavra porque é ambivalente, mas como já disse, o que se entende aqui é o abuso dos poderes de ofício por parte  do sacerdote. Que deixa de ser um bom pastor segundo o coração de Jesus e se transforma num mercenário. Pois estas são as palavras da Bíblia”.

 

Eminência, como o senhor julga a polarização e a ênfase com que certos grupos e certa mídia instrumentalizam certas nomeações erradas, mesmo que às vezes com significativos omissis (Partes omitidas, numa transcrição ou citação – NdR), dependendo do grupo a que pertencem?

“Temos exemplos muito claros na Bíblia: o próprio Jesus chamou os doze apóstolos e um deles era um traidor, Judas. Ainda hoje é possível que o papa

  • nomeie uma pessoa que é “falsa”,
  • que não é idônea para o cargo, para o episcopado.

O próprio Jesus Cristo, embora conhecendo tudo graças ao seu intelecto divino, deixou livre o traidor Judas. Além disso, cada um é responsável ​​pelo seu pecado: nós podemos, através do processo de seleção com as Congregações, através de todos os nossos julgamentos humanos, fazer o possível para escolher um bom candidato.

  • Mas o Papa não é responsável pelo que depois fazem esses bispos,
  • assim como os bispos não o são por tudo o que fazem os seus sacerdotes.

Cada um é pessoalmente responsável ​​pelo mal que comete.

Como melhorar, então, o processo de seleção de bispos?

“Para nós, homens, não é possível formular um julgamento absoluto, perfeito: fazemos isso de acordo com nossas limitadas possibilidades, de acordo com o que nos é dado conhecer. Devem-se procurar os candidatos idôneos para o episcopado, mas o Papa não é infalível na nomeação de ninguém. E mesmo no futuro, não poderemos evitar totalmente os erros.

Devemos aprender com os erros, procurar fazê-los cada vez menos, procurar  fazer sempre melhor o trabalho de seleção. Mas nós somos homens e, como tais, todos somos  pecadores e falíveis. Todos precisamos da misericórdia e do perdão de Deus, todos temos de nos reconhecer pecadores. Não precisamos de quem se erige  em juiz ou vingador, considerando-se justo.

Estou convencido de que seria um passo significativo promover uma maior colaboração entre os vários dicastérios da Cúria romana para o bem da Igreja. Cada um dos dicastérios já se reporta  ao papa, mas a colaboração horizontal ficaria fortalecida”.

Nota da Redação:

Teria sido bom que o cardeal dissesse que, para a escolha dos bispos, seria importante consultar a Comunidade Cristã que o conhece, e a Comunidade do lugar a que ele é destinado. Além de ampla consulta aos bispos e sacerdotes. O cardeal dá demasiada importância à Cúria romana como centralizadora de todas as grandes decisões. A ideia de Sinodalidade no governo da Igreja parece andar longe.

Também em relação às Ciências humanas, especificamente à Psicologia e à Sociologia, há uma visão de quase desprezo. Soa muito estranha a frase: 

Devemos colaborar com a psicologia e a sociologia, mas nós, na Igreja, ao nível de magistério, não devemos colocar em primeiro plano estas disciplinas. Devemos, ao contrário, basear-nos na teologia moral”.

A teologia moral não existe em si, sozinha, solta no ar. Ela se refere a seres humanos encarnados, vivendo no espaço e no tempo, em determinada cultura, onde desenvolvem mais ou menos seu conhecimento e a sua liberdade, elementos básicos do ato moral. E ambos são muito influenciados: potencializados, enfraquecidos ou até abolidos por fatores físicos, psicológicos e sociais.

Além disso a teologia moral se refere a cristãos, a pessoas evangelizadas e educadas na fé cristã. Mas se faltou esta evangelização e educação na fé, como tanto acontece no Brasil, como se pode falar de teologia moral?

Ditar moral de Roma para mundos que ela não conhece, é presunção demasiada.

João Tavares

________________

1Accountability – Responsabilidade, por  parte dos administradores que utilizam recursos financeiros públicos, de prestar contas do seu uso, seja em termos de regularidade das contas seja em termos de eficácia da gestão’ (fonte: web).

 

 

Andrea Tornielli

https://www.lastampa.it/2018/11/27/vaticaninsider/mller-nessuno-ha-il-diritto-di-mettere-in-stato-di-accusa-il-papa-K8ilJxn54qWLLuj8Id6emK/pagina.html

 

 

2 comments to Müller: “Ninguém tem o direito de colocar o Papa sob acusação”

  • Evaldo Tartas

    Bom dia Sr. João Tavares,
    Muito pertinente seu comentário final. Ainda temos cardeais, bispos e infelizmente muitos padres, seminaristas e até leigos que vivem, pensam e agem numa dimensão fora da realidade do povo comum.

  • osca varela

    Hola!
    Fotocopio el Comentaio del Compañero Evaldo!
    Promuevo y difundo en español la perspectiva evangelizadora de dom Helder Cámara que nos va brindando en su blog el Compañero Eduardo Hoornaert.
    Su último Artículo donde hace una penerante mirada en el MÉTODO de Sócrates (Mayéutica) comparado al de el Grande y Descuidado PAULO FREIRE es una maravilla antropológica.
    No ha de faltar mucho tiempo, visto la total crisis de la Gobernanza humana, en que se ha de atender el MÉTODO de Gobernanza propuesto por Maquiavelo (salvando prudentemente la distancia histórica)
    El morbo “intelectualoide” de estos “europeos” consiste en que no distinguen los “ARQUETIPOS” de los “IDEALES”:
    – LOS IDEALES: son las cosas según estimamos que deberían ser.
    – LOS ARQUETIPOS: son las cosas según su ineluctable realidad.

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