“Bolsonaro derrotou mais a direita do que a esquerda”. Entrevista com Bernard-Henry Lévy

Filósofo lamenta a “pornografia política” do presidente eleito brasileiro, a quem compara com Nicolás Maduro

 

Tom C. Avendaño – 27/11/2018 – Imagem: IHU

Bernard-Henri Lévy visita o Brasil em um de seus momentos mais turbulentos, quase como nos tempos em que este filósofo, formado igualmente entre maoístas e holofotes, ainda estava construindo sua reputação de pensador de ação e ia ao Irã nos anos setenta ou à Bósnia nos anos noventa.

Vestido com seu eterno uniforme – terno escuro camisa branca parcialmente desabotoada – com o qual se tornou um dos pensadores mais midiáticos e conhecidos da França e de grande parte da Europa, Lévy (Argélia, 1948) vai direto ao problema entre goles de chá em um hotel em São Paulo: “Todo o mundo está olhando para o Brasil.

 

O que seu presidente eleito, [Jair] Bolsonaro, faz é discutido em todos os lugares e o que estamos vendo que

  • é um presidente sem programa,
  • nostálgico de um dos momentos mais sombrios da história do país
  • e sem amor genuíno por sua terra natal.

O mundo 

  • está assombrado com a incrível vulgaridade de alguns de seus comentários.
  • É pornografia política. Como fala das minorias, das mulheres.

“O mundo está estupefato”repete com finíssima indignação parisiense. E resume a questão que mais escandaliza os cientistas políticos de todo o mundo: “E não venceu dando um golpe, mas através das urnas”.

 

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Foto: tv-ranking.com

O Brasil é apenas uma frente de uma guerra global, pondera com um certeiro cruzamento de pernas, uma guerra que absorve praticamente o mundo inteiro.

“Há uma luta ideológica

  • entre a xenofobia e o humanismo,
  • entre os extremos, da esquerda à direita,
  • que se alinharam nas ruas
  • para destruir os valores republicanos e as forças do progresso”, diz.

“O Brasil está dentro dessa corrente global e, de certo modo, seu líder populista é o mais caricatural de todos.”

A entrevista é de Tom C. Avendaño, publicada por El País, 26-11-2018.

Eis a entrevista.

Quando Trump ganhou a presidência em 2016, o senhor alertou os norte-americanos de que, para além da ideologia do vencedor, “milhões de gênios acabaram de sair da lâmpada” com aquela vitória. O senhor estenderia esse alerta hoje aos brasileiros?

Fiz duas advertências quando Trump foi eleito.

  • Os geniozinhos saíram da lâmpada
  • e também avisei aos judeus que se cuidassem dos presentes e afetos de Trump.

O afeto que não nasce do amor verdadeiro é muito perigoso e tem efeitos colaterais terríveis. Diria o mesmo aos brasileiros.

  • A eleição de Bolsonaro libertou milhões de geniozinhos.
  • E eu diria a eles para terem cuidado com esses gestos de amizade aparente,
  • não porque podem se revelar uma mentira amanhã,
  • mas porque podem ter um significado inesperado e triste amanhã.

Não vi na história uma época em que os judeus não acabem como vítimas.

 

O senhor se mobilizou especialmente contra o Brexit nos últimos anos. Compartilha das comparações de que essa votação e a vitória de Bolsonaro pertencem à mesma convulsão destrutiva contra a ordem estabelecida?

  • O Brexit não está destruindo o establishment;
  • o Brexit é o establishment.
  • Boris Johnson, as pessoas que clamam pela separação, são o establishment.

O que é que o Brexit destrói? O Reino Unido. Não o establishment. Da mesma forma,

  • Bolsonaro também não faz dano algum ao establishment,
  • ele o faz ao Brasil.

Ou poderia fazer, pelo menos.

Ele faz parte do establishment,

  • do pior do Exército
  • e do pior da direita das cavernas.

E se é uma arma de destruição,

  • não é da destruição das elites,
  • mas do que foi construído neste país,
  • desde que, mais ou menos, terminou a ditadura militar (1964-1985).

 

Ele, no entanto, declara guerra à esquerda e consegue que a direita o deixe em paz, talvez motivada por esse inimigo comum. Mas Bolsonaro não é mais inimigo?

A vitória de Bolsonaro

  • é uma derrota da esquerda,
  • mas é uma derrota muito mais importante da direita.
  • Bolsonaro a devorou.

Essa direita

  • liberal,
  • limpa,
  • republicana,
  • que quis construir um país de costas para a ditadura,
  • essa direita é o objetivo principal de Bolsonaro.

Ele quer acabar com ela e em parte conseguiu. Hoje ela está fora do jogo.

 

Bolsonaro fez com que milhões de pessoas falassem da esquerda como uma entidade única que abarca do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao venezuelano Hugo Chávez…

[interrompe]

  • Não existe comparação possível entre Lula e Chávez.
  • Mas existe entre Chávez e Bolsonaro,

que pertencem à mesma família de líderes:

  • populistas,
  • mentirosos,
  • líderes que não se importam com o seu país.

Lula pode ter cometido erros,

  • eu não sei,
  • talvez o saibamos no dia em que for julgado com justiça.

Mas, para mim, até agora,

  • era um líder bom e decente para o Brasil,
  • e sua presidência foi um momento honorável na história do país.

Bolsonaro e Chávez, ou Bolsonaro e Maduro, têm mais semelhanças entre si do que diferenças.

 

Durante quase 40 anos e até recentemente o senhor disse que devíamos “quebrar a esquerda”, citando Maurice Clavel, para derrotar a direita. O senhor ainda mantém isso hoje?

A esquerda já está quebrada. Você tem por um lado

  • Lula no Brasil,
  • [o ex-presidente socialista François] Hollande na França
  • e o [ex-primeiro-ministro italiano Matteo] Renzi na Itália,

grandes líderes da esquerda ocidental, que se separaram da outra esquerda, a falsa, a radical.

Na França

  • não há relação entre o ex-presidente Hollande
  • e [o líder da esquerda alternativa francesa, Jean-Luc] Mélenchon.

Essa dissociação já aconteceu lá e na Itália também.

  • A verdadeira rachadura, e isso existe na Europa e na América Latina,
  • é o populismo contra os princípios humanistas, universalistas e reformistas.

Lula é a personificação dessa diferença.

  • Ele é a esquerda humanista,
  • a verdadeira,

aquela que defende os interesses do povo contra

  • o nacionalismo,
  • a xenofobia
  • e a mentira.
  • Contra as tentações de Chávez.

Mas a história dele não acabou.

 

As eleições vencidas por populistas não foram desprovidas de candidatos, digamos, tradicionais, aceitáveis, de esquerda e de direita. O senhor está preocupado que certas formas se percam?

Esquerda e direita não importam mais. A única corrente que existe agora é que estamos vivendo um momento populista.

Com a ajuda

  • da Internet e das redes sociais,
  • a subcultura das televisões,
  • passamos por um momento que dá vantagem aos líderes populistas.

E todo político republicano, democrático, razoável e old school deve se adaptar à nova situação. Eles ainda não o fizeram, mas terão de fazê-lo para não serem devorados por esse enorme monstro que está surgindo em todo o mundo.

 

É preciso se adaptar ou contra-atacar?

Será preciso tempo. As épocas sombrias nunca duram para sempre.

  • Nos anos vinte, trinta e nos cinquenta havia multidões no Ocidente contra a democracia.
  • E ainda assim esta prevaleceu.
  • Eu acho que a mesma coisa vai acontecer agora.

Do que tenho certeza é que não se derrotará o novo populismo usando suas mesmas armas. Os democratas devem ter a coragem de não cair nessa armadilha.

  • Eles têm de defender seus valores
  • mesmo se durante algum tempo são minoria e não são ouvidos o suficiente.
  • Se abandonarem seus valores, estarão perdidos.

 

O mundo se aproxima desse paradoxo de ter que defender a democracia quando a maioria está contra ela?

O sonho de muitos líderes é acabar com a democracia. Trump, Bolsonaro, [Viktor] Orban na Hungria. Mas nos Estados Unidos estamos vendo até que ponto a democracia é capaz de resistir.

  • O verdadeiro muro americano não é o que Trump quer construir entre os Estados Unidos e o México,
  • mas o que a sociedade civil norte-americana construiu para ele.

Trump não é livre para fazer o que quer e está dando cabeçadas na parede. Talvez isso acabe quebrando a cabeça dele, vamos ver.

E o que eu desejo para o Brasil é algo parecido,

  • que se revele um muro da democracia
  • e enfrente a vulgaridade, a estupidez e a ausência de ideias.

 

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Tom C. Avendaño

Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/584969-bolsonaro-derrotou-mais-a-direita-do-que-a-esquerda-entrevista-com-bernard-henry-levy

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/25/politica/1543176331_063342.html#?ref=rss&format=simple&link=link

 

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1 comment to “Bolsonaro derrotou mais a direita do que a esquerda”. Entrevista com Bernard-Henry Lévy

  • SOuza

    Só gostaria que alguém me explicasse o que é definido para dizer que alguém é de direita e de esquerda no Brasil. Porque a única fala que está acima diz que Lula é esquerda. A pergunta é qual o ponto para dizer que Lula é esquerda. Aumentou a assistência social?

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