A Economia do Papa Francisco

Roberto Montoya – 24 Novembro 2018
Jorge Mario Bergoglio, vindo do outro lado do mundo, surpreende, atordoa e desorienta novamente os mais duros defensores do capitalismo selvagem, com seu documento  Oeconomicae et Pecuniariae Quaestiones (em português) , em que propõe um discernimento ético sobre certos aspectos do atual sistema econômico e financeiro que não nos realiza mais como pessoas.
Em Roma, durante a pré-estreia do festival da ”Economia Come” no Templo de Adriano da Câmara de Comércio, o ensinamento econômico do Papa Francisco, esteve no centro de um debate que teve como protagonistas personagens da vida econômica, política, estudiosos e jornalistas.

Os relatores ressaltaram a importância da centralidade do homem e do novo humanismo da atividade econômica, recordando o papel importante da Doutrina Social da Igreja, começando com a encíclica do Papa Leão XIII, a Rerum Novarum, que colocava em foco “a questão social” da época e que falava aos crentes e não crentes, sobre temas que pertenciam a todos. O Papa Francisco na Evangelii gaudium destaca enfaticamente que “Esta economia mata” porque coloca no centro de tudo o dinheiro e obedece apenas à sua lógica. O homem de hoje, de fato, vive de relações fracas, encerrado no egoísmo, no oportunismo e corre o risco de perder o sentido de solidariedade para com os outros.

Esse cenário é bem conhecido ao papa latino-americano, que valoriza a experiência que vivenciou como filho de imigrado na Argentina. Seu pai, um jovem cheio de esperança, havia fugido da terrível situação italiana para encontrar acolhimento na América. Mas nos anos 1930 sua família perdeu tudo, e Bergoglio conheceu o sofrimento e o drama dentro das paredes de sua casa. Um bispo argentino que viveu as piores crises econômicas e financeiras experimentadas na América Latina, especialmente aquela que, em 2000 colocou de joelhos toda a Argentina, com seu famoso “cacerolazo”.

A proximidade de Francisco com os jovens desempregados, com trabalhadores com salários reduzidos, com a precarização perene, mas também com os empresários e comerciantes que lutam para seguir em frente, oferece um sistema de valores válido para todos e tem uma ética baseada na liberdade, na verdade, na justiça e na solidariedade voltada para o bem comum.

Quem reitera isso é o presidente da Câmara de Comércio de RomaLorenzo Tagliavanti: “A vocação de um empreendedor é uma tarefa nobre, sempre que se deixe questionar por um significado mais amplo da vida; isso lhe permite realmente servir ao bem comum. O Bispo de Roma é um dos nossos formadores de opinião mais importantes, também para nós empresários”.

 

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Foto: Cristiana Buscarini / Uniroma4

Papa nos pede para dar uma pausa, parar um momento para refletir, para ser laicos com espírito de serviço, pode-nos para construir uma humanidade que volte para a contemplação, porque na contemplação podem ser despertados valores universais que são escritas no coração de cada um de nós.

Esses valores estão na nossa consciência, ‘aquele sistema nervoso da alma’, patrimônio espiritual maravilhoso, mas que deve ser desvelado, deve ser formado, porque nós viajamos sempre com o nosso livre arbítrio, pronto para fazer o bem ou o mal. 

Francisco, comentando sobre o significado do sétimo mandamento, não roubarás, afirma: “A Vida não é um tempo para possuir, mas para amar”.

Tivemos oportunidade de entrevistar Cristiana Buscarini, Professora Associada de Economia e Estratégia na Universidade degli Studi de Roma “Foro Italico”.

A entrevista é de Roberto Montoya, publicada por Rai News, 16-11-2018. A tradução Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

Esta longa crise econômica que estamos vivendo principalmente na Europa, colocou em discussão as nossas certezas econômicas, mas já não satisfaz mais as nossas necessidades como pessoas. Qual é o caminho que devemos tomar para ter um progresso e desenvolvimento sustentável à luz do documento ‘Oeconomicae et pecuniariae quaestiones’ do Papa Francisco?

A economia precisa de uma nova via, o Papa Francisco em 2015 já nos deu um novo modelo, na encíclica Laudato si’ começa a falar sobre a cultura do desperdício, e nos conta o que está acontecendo com a criação, com a nossa casa comum. O progresso atual é baseado nas finanças especulativas e nos valores individualistas: sucesso, poder, acumulação, opulência.Tudo isso não é saudável porque desvia da dimensão do ser autêntico e favorece a dimensão do ter.

O progresso deveria, ao contrário, ser focado no crescimento do indivíduo e de suas capacidades mentais, psíquicas e espirituais, e as Instituições deveriam prestar particular atenção no crescimento da cultura da humanidade, a fim de promover um modelo de sociedade em que a vida seja mais rica de atividades, tais como: educação, arte, literatura, religião, filosofia, pesquisa científica pura, esportes e atividades sociais em geral, para promover o bem-estar em vez do bem-haver.

Quais são os valores sobre os quais construir um projeto que possa sustentar todas as ‘intempéries’ em um mundo em constante evolução?

Aqui vem ao nosso socorro a Palavra de Deus que eterna e imutável indica uma via, uma pessoa, uma verdade em Cristo. São de fato os valores por Ele promulgadas da integridade, da honestidade, do altruísmo, da franqueza, do acolhimento, os únicos que podem promover um autêntico desenvolvimento humano que possa conduzir depois para um desenvolvimento social verdadeiramente sustentável e harmonioso, mesmo na diversidade.

Nós muitas vezes assistimos a um ambiente corporativo onde se criam barreiras, incompreensões, desvalorizações porque o indivíduo está “preso” em estados mentais reativos de causa e efeito que o levam a querer aparecer (em vez de ser), a prevalecer, a fim de se sentir importante e reconhecido, a tentar se diferenciar, separando-se do outro até negá-lo, querendo o “poder” a todo custo para não se sentir desvalorizado ou humilhado, etc.

Estou convencida, porém, que uma mudança fundamental nas organizações que querem colocar no centro o cuidado da pessoa, seja considerar o indivíduo de acordo com as suas necessidades existenciais primárias.

Prof.a Buscarini, o Papa Francisco nos lembra na Laudato si’ que: “A humanidade é chamada a tornar-se consciente da necessidade de mudanças nos estilos de vida, de produção e de consumo …”. Por onde começamos para mudar essa tendência?

Para poder realizar esse caminho é necessário sair da visão dominante individualista, egoísta, conformista e se abrir ao Absoluto. A Verdade, a Beleza e o Amor universal expressam a dimensão divina a que devemos tender. A maioria dos líderes, no entanto, não está apta a reconhecer a dimensão espiritual nas organizações e criar um sistema de compartilhamento de valores e abertura a Deus.

Ou seja?

O verdadeiro problema é a falta de conhecimento das dimensões mais profundas da natureza humana, os que envolvem a elevação da consciência, para o desenvolvimento da potencialidade ontológica do ser humano. Através de um processo de promoção integral da pessoa, e no caso das empresas de cada empregado, poderia se ter o máximo rendimento. Esse é hoje o maior desafio que as empresas deveriam saber enfrentar, ao qual se seguiriam resultados econômicos extraordinários para as próprias empresas e para toda a sociedade civil.

Voltando ao documento do Papa Francisco, que conselho prático você poderia dar às organizações de nosso país?

Somente naquelas organizações em que se dê valor à consciência e a uma filosofia empresarial baseada em valores autênticos se poderá chegar a uma melhoria integral na qualidade da vida humana. Os funcionários sentiriam que têm a permissão de expressar os valores profundos que pertencem ao ser autêntico, porque eles os encontrariam na empresa e se reconheceriam neles, sentindo que poderiam ver concretizado o direito de existir com dignidade e ter a oportunidade de expressar o melhor de si.

Isso conferiria à própria realidade organizacional tanto um valor agregado, como uma vantagem competitiva e contribuiria para o amadurecimento de uma tensão ética e de projeto para um novo modelo de desenvolvimento sustentável.

 

Roberto Montoya

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