O acordo China-Vaticano na mira dos círculos clericais e político-midiáticos  

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Gianni Valente – 21/11/2018 – Foto: ACI Digital

“Os pequenos insiquidores de teclado que atacam o acordo entre a China e o Vaticano também buscam ocultar a substancial continuidade nos critérios que a Santa Sé seguiu sobre a questão chinesa.

Além de ocultar os efeitos reais do acordo com a China sobre as nomeações episcopais – que o próprio Bento XVI desejava, conforme se lê na carta aos chineses de 2007 -, creem poder impor como propaganda a ideia de que se trata de uma eventualidade efêmera e reversível, vinculada com uma determinada sensibilidade eclesial”, escreve Gianni Valente, jornalista e historiador italiano, em artigo publicado por Vatican Insider, 19-11-2018. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

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Foto: chinaaid.net

O cardeal Joseph Zen Ze-kiun (foto ao lado) espera no caso de que o Papa tenha se equivocado ao aceitar o acordo com a China popular sobre a nomeação dos bispos, seja ele próprio que admita o “seu erro”. E se isto não ocorrer, o cardeal de 86 anos espera que “o próximo Papa aponte o erro”que seu predecessor cometeu.

Depois que sua guerra preventiva contra esse mesmo acordo não atingiu o objetivo desejado, o bispo emérito de Hong Kong projetou seus argumentos sobre os cenários futuros e os próximos Conclaves. Encomendou a algum Papa do futuro seu desejo de que sejam arquivados como descuidos acidentais e reversíveis os passos dados pela Santa Sé em relação ao “dossiê” chinês, durante a época do Papa Francisco.

O cardeal salesiano de Hong Kong compartilhou seus desejos em uma recente entrevista publicada pela agência Ucanews, na qual reconheceu que, seja como for, a decisão final está nas mãos do Papa, razão pela qual incitou os “irmãos do Continente” a ser corajosos, “sem se rebelar”. Ao mesmo tempo, obstinou-se em acusar insensata e infamantemente os colaboradores do Papa (começando pelo cardeal Secretário de Estado, Pietro Parolin).

A dois meses de sua assinatura, e prestes a ser aplicado e medido com base em seus efeitos concretos,

  • o acordo provisório entre a Santa Sé e o governo de Pequim sobre as futuras nomeações episcopais chineses
  • continua provocando as críticas dos circuitos político-midiáticos ocidentais.

Recentemente, guiados pelo deputado Sir. David Amess, um punhado de católicos do Reino Unido (onde os bispos anglicanos são nomeados pela Rainha Elizabeth) deu a conhecer, mediante a revista britânica The Catholic Herald, o “profundo desconcerto” que sentiram ao se inteirar do acordo provisório, que, em sua opinião, permitirá que

  • “o governo chinês oficialmente ateu”
  • tenha um papel na eleição dos bispos católicos,
  • em um tempo no qual os católicos chineses “estão suportando a repressão mais dura há décadas”.

 

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A “viagem” do bispo Shao

Foto: evangelizadoras de los apostoles

Os aspirantes a liquidadores do acordo provisório entre a China e a Santa Sé citam casos de persistentes imposições exercidas pelos aparatos políticos locais contra membros das comunidades chinesas chamadas “clandestinas” (aquelas que procuram fugir das regras e do controle imposto pela política religiosa governamental).

No último dia 9 de novembro, conforme fez referência a agência Ucanews, alguns membros dos aparatos políticos foram deter Pedro Shao Zhumin, bispo auxiliar de Wenzhou e que não conta com o reconhecimento do governo (“clandestino”), e o detiveram durante dias, tratando, presumivelmente, de o convencer que aceite os procedimentos e os instrumentos da política religiosa governamental.

Alguns sacerdotes da comunidade clandestina dessa cidade confirmaram que os funcionários dos aparatos governamentais não foram agressivos com o bispo, que deveria voltar para sua casa dentro de pouco. Shao (confirmaram fontes da Ucanews) entrou em acordo com os funcionários do governo sobre o dia para que começasse sua viagem. E pediu que a adiassem até o dia 9 de novembro, para poder se ocupar de seus compromissos já programados.

Diante de casos como o do bispo Shao,

  • alguns hostilizadores das negociações sino-vaticanas
  • parecem não conseguir conter certa euforia,
  • enquanto continuam apresentando o trabalho dos representantes da Santa Sé como uma manifestação de fraqueza frente aos aparatos que maltratam as comunidades católicas chinesas.

Citam os casos de novas restrições e imposições que eclesiásticos e comunidades católicas sofrem na China, e os apresentam como “provas esmagadoras” de que o recente acordo provisório entre a China e o Vaticano não poderá produzir nada de positivo para a condição dos católicos chineses.

Na realidade,

  • precisamente a cortina de fumaça de críticas que descarregam sobre o acordo entre o governo chinês e a Santa Sé
  • oculta dados e elementos essenciais para apreciar o que de verdade está acontecendo nestas negociações sobre a condição anômala da Igreja na China.

Chamam a atenção sobre

  • imposições que sofrem diferentes comunidades católicas chinesas,
  • justamente quando fica claro que nos próximos passos do caminho do diálogo
  • irão se encarregar dos problemas dos bispos e das comunidades clandestinas (começando pelos problemas relacionados ao seu reconhecimento por parte das autoridades civis).

Os críticos apostam em que o resultado objetivo do acordo, que foi assinado no último dia 22 de setembro, caia no esquecimento midiático. E, sobretudo, excluem de suas invectivas qualquer referência aos critérios e ao espírito que guiaram e guiam a Santa Sé nas negociações com a República Popular da China.

 

Igreja oficial chinesa afirma que acordo com o Vaticano é iminente

Clérigos católicos durante procissão na quinta-feira da Semana Santa em Pequim – AFP

A bússola dos Papas

Todas as palavras que o Papa Francisco e seus colaboradores utilizaram sobre a questão chinesa deixam claro que o primeiro acordo provisório com Pequim

  • foi subscrito pela Santa Sé
  • para proteger a natureza apostólica e sacramental da Igreja chinesa.

Na República Popular da China,

  • as ordenações ilegítimas dos bispos, celebradas sem o mandato pontifício sob pressão do poder político,
  • alimentaram durante décadas a divisão, inclusive sacramental, entre as comunidades católicas chinesas.

Essa foi a primeira “hemorragia” de confiança e esperança que era necessário remediar para poder, em seguida, passar à solução de outros problemas. E tendo em conta os fatos, as implicações do acordo provisório em si sugerem mudanças objetivas e substanciais para a condição do catolicismo chinês.

A partir de agora,

  • na China não existirá mais bispos ilegítimos.
  • Os novos bispos serão nomeados pelo Papa, reconhecido por todos como líder da Igreja.

Na eleição dos novos sucessores dos apóstolos na China se garantirá a plena fidelidade à substância da Tradição e da grande disciplina da Igreja. Para nenhuma consciência católica ocorreria desconhecer ou minimizar os efeitos do acordo que tocarão nestes traços próprios da natureza apostólica e sacramental da Igreja. Os mesmos que os católicos chineses continuaram reconhecendo e confessando, inclusive em tempos da mais cruel perseguição.

O martírio da paciência

O acordo com a China foi subscrito pela Santa Sé

  • com esperança e trepidação,
  • mas sem nenhum tom triunfalista.
  • Tampouco os colaboradores do Papa mais envolvidos no diálogo com os chineses (começando pelo cardeal Parolin) atribuíram ao acordo o poder taumatúrgico de solucionar com um sopro todos os males e problemas que contribuem para que seja anômala e sofrida a condição do catolicismo chinês.

Todos reconheceram que existirão novos acidentes no caminho. Todos afirmaram, sem dúvidas, que

  • os nós pendentes são muitos
  • e que será necessário ir enfrentando um a um.

Todos estão conscientes de que

  • ninguém tem no bolso soluções pré-fabricadas
  • para superar as dificuldades e os contrastes que provocaram uma espécie de desintegração durante décadas.

Contudo, todos confiam em que

  • precisamente os canais de contato com as autoridades chinesas (que provavelmente envolveram níveis influentes do poder chinês, como a Frente Unida, entidade chave no sistema nacional)
  • são um instrumento útil para buscar resolver gradualmente, com um passo por vez, os problemas pendentes.

Papa e a Santa Sé não esquecem de ninguém. Muito menos das comunidades católicas chinesas que devem enfrentar os desafios de hoje. O método gradual utilizado nos contatos com o governo chinês não deixa nenhuma questão controvertida de fora, busca soluções compatíveis

  • tanto com as exigências de controle político das autoridades civis,
  • como com a natureza própria da Igreja.

As duas partes se comprometeram

  • a não abandonar a mesa de negociações e
  • a não tomar decisões unilaterais sobre os problemas pendentes.

Por este motivo, os contatos representam o instrumento mais direto para intervir e pedir contas dos casos em que membros do clero chinês sejam submetidos a restrições indevidas por parte das autoridades locais.

Os representantes da Santa Sé tomam nota de que o trabalho mais difícil nas relações com o governo chinês está começando agora. Procedem

  • não seguindo impulsos imprudentes
  • ou com ingênua confiança nas próprias habilidades para negociar.

Parecem decididos somente porque reconhecem que o caminho empreendido é o que sugere uma visão de fé sobre os eventos da história. Esse que convém seguir se verdadeiramente se quer ajudar as comunidades católicas chinesas vivas e sobrantes nas condições em que vive a China de hoje, tal e como é.

Na realidade atual da República Popular da China,

  • muitos bispos, sacerdotes, religiosas e fiéis (e não só das chamadas comunidades “clandestinas”)
  • experimentam dia a dia o “martírio da paciência”
  • na relação com tenazes aparatos políticos e administrativos.

Mas, o caso da catolicidade chinesa demonstra que, apesar de todas as condições externas, a vida eclesial pode florescer, e também que as situações mais hostis, com o tempo, podem evoluir para o bem. Já agora, em grande parte das dioceses chinesas, as autoridades locais, inclusive com o pedido de submeter tudo ao registro e à autorização política,

  • não freiam o crescimento por graça da Igreja,
  • como demonstram a cada ano as multidões de novos batizados.

O caminho martirial da Igreja e as operações de “cordadas”

Os representantes da Santa Sé sabem que foram chamados a decisões delicadas, sobre questões condicionadas por ambivalências, por pretensões e fragilidades humanas que acompanham qualquer processo histórico real. Contudo, não se movem baseados em opiniões pessoais. A direção e os critérios que seguem são os mesmos que já levaram em conta e que afinaram em substancial continuidade os Papas e a Sé Apostólica, nas últimas décadas, enquanto em Roma também se ia conhecendo melhor a condição real da Igreja católica na China, após os anos da Revolução Cultural.

Foi João Paulo II quem

  • legitimou e acolheu, em primeiro lugar,
  • a plena comunhão com os bispos chineses que tinham sido ordenados sem o mandato pontifício.

Já desde então, não lhes foi pedido para que abandonassem os organismos criados pela política religiosa do governo para controlar a Igreja, como a Associação Patriótica dos Católicos Chineses.

Os critérios que a Santa Sé seguiu para acompanhar o caminho e o crescimento da Igreja na China são, substancialmente, os mesmos que guiaram a Sé Apostólica em relação à China moderna, desde a época da Carta apostólica Maximum Illud.

Bento XV publicou esse texto em 1919, também para acabar com as manobras de congregações e institutos missionários ocidentais que pareciam

  • ter mais em conta os interesses coloniais das respectivas nações às quais pertenciam,
  • que o bem das Igrejas nascentes nos países de missão.
  • Também agora, como então, as decisões da Santa Sé parecem surgir da intenção de favorecer tudo o que possa ajudar a salvar as almas dos católicos chineses e de seus compatriotas. Um critério que está acima de qualquer outra consideração de tipo político ou geopolítico, incluso nas negociações com as autoridades civis que governam a China de hoje, tal como são.

Os pequenos insiquidores de teclado que atacam o acordo entre a China e o Vaticano

  • também buscam ocultar a substancial continuidade nos critérios que a Santa Sé seguiu sobre a questão chinesa.
  • Além de ocultar os efeitos reais do acordo com a China sobre as nomeações episcopais – que o próprio Bento XVI desejava, conforme se lê na carta aos chineses de 2007 -,
  • creem poder impor como propaganda a ideia de que se trata de uma eventualidade efêmera e reversível, vinculada com uma determinada sensibilidade eclesial.

Enquanto isso,

  • mantêm vivo o fogo das polêmicas contra o acordo entre a China e o Vaticano,
  • buscam diminuir seu alcance,
  • apresentando-o como um efeito fugaz de uma tendência vaticana pro tempore exposto a potenciais redefinições e arrependimentos que se dariam mediante operações de política eclesiástica (a médio ou longo prazo, quando serão convocados futuros Conclaves).

 

Apostando no fracasso

Nos últimos tempos, a bandeira das críticas militantes contra o acordo Pequim-Santa Sé garantiu visibilidade midiática aos que a agitavam. Esses mesmos “formadores de opinião” agora

  • parecem entrever o fracasso das negociações sino-vaticanas,
  • como se tratasse do modelo dos negociantes que investem as próprias rendas apostando nas crises econômicas dos países que correm o risco de cair na bancarrota.

O entusiasmo com o qual estes aspirantes a influencerquerem demonstrar que nada mudou para as comunidades católicas após o acordo, em certo sentido, se parece às consignas dos aparatos chineses, ocupados em repetir que para a Igreja na China tudo segue e seguirá como antes. Utilizam a mesma linguagem, sobretudo os que no esquema do “conflito permanente”entre a Santa Sé e as autoridades chinesas iam ganhando certa relevância e status político social. E talvez também esta curiosa “convergência entre opostos”é um indício de que, de verdade, para a Igreja na China algo está mudando.

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Gianni Valente

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/584790-o-acordo-china-vaticano-na-mira-dos-circulos-clericais-e-politico-midiaticos

 

 

 

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