O “Suicídio” em massa de Jonestown: 909 mortos num massacre sem precedentes

Antonio Pagliuso, 18/11/2018   – Todas as fotos: vanillamagazine.it

Foto: O “suicídio” em massa de Jonestown 

Tradução: Orlando Almeida

Jonestown, Guiana. Um território banhado pelo Oceano Atlântico, antiga colônia holandesa e depois britânica, perdida no vasto continente sul-americano.

Um território desconhecido por muitos que, em 1978, ganhou as honras da imprensa sensacionalista devido a um acontecimento terrível, sem precedentes.

 

 

Em Jonestown estava sediado o People’s Temple Agricultural Project [Projeto Agrícola do Templo do Povo], uma comunidade fundada pelo pastor americano Jim Jones, que logo se transformou num verdadeiro movimento religioso.

Abaixo, o mapa de Jonestown:

Jones criou o movimento nos anos cinquenta primeiro em Indiana, depois na Califórnia (onde ganhou a notoriedade e a aprovação que buscava) e, finalmente, mudou-se em 1977 para o nordeste da Guiana, onde criou o assentamento Jonestown.

 

Uma imagem da entrada da colônia agrícola de Jonestown. 1978

Os princípios da comunidade baseavam-se no amor entre os povos, na luta contra o narcotráfico e no retorno às origens do homem: uma utopia, a de fugir do mundo civilizado, que encontrou muitos opositores nos Estados Unidos.

Jim Jones era o guia espiritual de uma seita que em 1977 contava com uns mil seguidores. A sua ideia era a de transformar a comunidade do Templo do Povo num paraíso na terra. Idealista de um socialismo apostólico, o reverendo Jones era um homem conhecido pela sua simpatia, a sua cordialidade e as suas graníticas teorias religiosas.

Uma imagem destinada a ser arranhada pelos primeiros rumores de abusos comprovados acontecidos dentro da congregação. Assim foi obrigado a procurar abrigo numa região desabitada que chamou Jonestown, terra a que chegou acompanhado uns mil seguidores fidelíssimos, os People Temples o povo Templos, quase todos americanos, que viam nele a reencarnação de Deus.

 

Uma foto sem data de Jim Jones →

O Templo do Povo e o seu líder Jim Jones viram-se assim envolvidos por uma nuvem de polêmicas e de suspeitas:

  • aos rumores sobre abusos, juntaram-se as vozes de muitas famílias dos seguidores da seita que tinham vindo para a Guiana;
  • que pediram ao governo dos EUA para tomar medidas para trazer de volta para casa os seus entes queridos.

Em Jonestown o reverendo Jones continuava

  • a falar de integração e de justiça para todos os segmentos da sociedade,
  • a mostrar o seu desprezo pelas outras religiões, o ópio dos povos segundo a sua revolucionária doutrina,
  • procurando deste modo afastar os perigos para a sua congregação.

 

←  Uma imagem do jardim de infância e da escola maternal de Jonestown, em 1978

Trabalhava incansavelmente pela e com a comunidade, demonstrando confiança, criava espaços para fazer com que crianças da comuna brincassem em contato estreito com os animais com os quais compartilhavam aquele paraíso terrestre.

  • As refeições consistiam no que dava a terra ao redor, ou seja, arroz, feijão e verduras.
  • O consumo de caça era um evento raro,
  • e uma dieta pouco variada levou a constantes ataques de febre e diarreia entre o povo do Templo.

A tudo isso Jones acrescentava a visão de filmes que nunca antes haviam entrado na Guiana para propiciar momentos de lazer a seus adeptos, que trabalhavam doze horas por dia ao seu lado.

Momentos de lazer que se alternavam com

  • as lições constantes sobre a sua ideia particular de socialismo,
  • reforçada pela escuta de emissoras de rádio cubanas e soviéticas.

Uma foto sem data de Jim Jones

O reverendo Jones começou a sentir o bafo no cangote e percebeu que o fim do seu projeto utopístico se aproxamava rápidamente.

 Então, chegou a trágica data de 18 de novembro de 1978. Jim Jones e alguns dos seguidores fecharam-se num refúgio da aldeia e gravaram uma fita na qual o fundador do movimento informou, a quem encontraria a fita de vídeo, que

  • tinha acabado de acontecer uma assembleia durante a qual
  • tinha sido decidido executar um suicídio revolucionário
  • em resposta a todos os que queriam o fim do sonho de Jonestown.

O maior suicídio da história moderna

  • foi precedido pelo assassinato de Leo Ryan Jr., deputado dos EUA
  • que tinha vindo a Jonestown em uma missão oficial para verificar as condições da comunidade
  • e falar com Jones sobre uma possível dissolução da seita.

Após a reunião, Ryan foi morto numa emboscada em Port Kaituma com disparos de arma de fogo feitos por alguns membros do Templo

Ele foi o primeiro membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos a morrer em serviço.

 

O congressista Leo J. Ryan, à direita, a bordo do avião que o estava levando para a Guiana na missão de controle da comunidade de Jonestown. Com ele: o consultor James Schollart e a sua assistente Jackie Speier

Enquanto isso, em Jonestown, um barril de água e cianeto dava de beber, pela a última vez, aos membros da utópica comuna desejada por Jim Jones. O pastor testemunhou pessoalmente a dolorosa morte dos seus seguidores e depois disparou um tiro de pistola na própria cabeça.

A notícia espalhou-se rapidamente. Os jornais americanos reprisaram as notícias enviadas pelo o exército da Guiana que informou um número total de 408 mortos. Um dado que, no entanto, estava destinado a aumentar comunicado após comunicado.

O número de cadáveres já tinha ultrapassado 700 unidades quando o exército dos EUA, alguns dias depois, chegou ao assentamento. Os militares americanos descobriram outros cadáveres. O número de vítimas aumentou chegando primeiro a 780 para depois alcançar a estimativa definitiva de 909. Os sobreviventes do suicídio coletivo foram apenas 167.

 

Foto: Um dos barris que continham o “preparado”, circundado de seringas. A foto é de 26 de novembro de 1978

Cerca de 400 corpos foram encontrados empilhados uns sobre os outros, enquanto mais de quinhentos estavam espalhados em vários recantos da selva e foram necessários nada menos do que cinco dias de buscas encontrá-los todos.

No total, as vítimas foram 909, das quais 276 menores, a que devem ser acrescentadas outras 4 mortos na sede do Templo do Povo na capital, Georgetown,  e 5 mortos durante o tiroteio de Porto Kaituma. Um massacre sem precedentes para uma seita religiosa.

Mas foi realmente um suicídio em massa consciente?

As primeiras teses sobre um assassinato em massa, metade suicida  metade homicida, surgiram  depois de algumas semanas. O médico legista guianense Leslie Mootoo, um dos primeiros a chegar ao local da tragédia, declarou que

  • dos exames por ele realizados numa centena de corpos
  • emergiu que pelo menos 70% apresentavam sinais de uma injeção com traços de cianeto atrás da escápula esquerda,
  • numa parte do corpo impossível de ser alcançada de maneira autônoma.

Alguns seguidores fanáticos de Jones devem ter sido ajudados na ação suicida, especialmente as crianças

Foto: Cerca de 400 corpos foram encontrados empilhados uns sobre os outros, enquanto mais de quinhentos estavam espalhados em vários recantos da selva e foram necessários nada menos do que cinco dias de buscas encontrá-los todos.

Além disso, soldados americanos relataram que havia muitos corpos nos quais eram visíveis sinais

  • de estrangulamento,
  • de disparos de armas de fogo
  • e de flechadas.

Estas palavras deram força a outras teorias acerca do suicídio coletivo de Jonestown.

Uma das hipóteses alternativas mais intrigantes foi a apresentada em 1987 pelos escritores soviéticos S.F. Alinin, B.G. Antonov e A.N. Itskov, no livro The Jonestown Massacre: A CIA Crime [O Massacre de Jonestown: um crime da CIA],

  • no qual são destacadas
  • as possíveis motivações anticomunistas por trás do massacre de Jonestown
  • e o possível perigo representado pela seita para os Estados Unidos da América.

 

Foto: Soldados americanos arrumam os mortos nos caixões no aeroporto de Georgetown, Guiana, poucos dias depois do massacre.

No livro estão listados os vários encontros que representantes de Jonestown teriam tido com funcionários soviéticos:

  • o tema das reuniões seria uma possível incorporação da aldeia
  • que se tornaria um enclave da União Soviética.

Os americanos, portanto,

  • teriam visto com bons olhos a possível eliminação, violenta ou não, de Jones e dos seus seguidores,
  • a ponto de contratar militares pagos para executar o massacre.
  • Outra hipótese supõe a criação de uma brigada revolucionária dentro da

seita que decidiu executar o massacre para depois desaparecer

Foto: O ‘cottage’ onde morava Jim Jones, em Jonestown, Guiana, depois do massacre. Do lado de fora estão espalhadas cartas e papeis que estavam em seu arquivo.

jhjhnOutra ainda, que daria um toque ainda mais obscuro ao caso,

  • põe em destaque algumas ligações que o reverendo Jones teria estabelecido com um agente da CIA, Richard Dwyer,
  • presente no atentado em Port Kaituma e provavelmente também em Jonestown, algumas horas depois da tragédia.
  • A CIA teria arquitetado com Jim Jones uma espécie de experimento de controle mental de massa na comuna de Jonestown:

    os homens, as mulheres e as crianças do Templo teriam então sido usados como cobaias.

Teses fascinantes mas que não encontraram nenhuma correspondência  na realidade  do que foi  descoberto no Templo, que se tornou o teatro do sangrento suicídio de massa.

Sobre este acontecimento muito tem sido escrito e foram realizados alguns filmes como O Massacre da Guiana, filme de 1979, dirigido por René Cardona Jr., e o mais recente The Sacrament, filme de terror de 2013, dirigido por Ti West.

 

Antonio Pagliuso

Antonio Pagliuso

 

Fonte:https://www.vanillamagazine.it/il-suicidio-di-massa-di-jonestown-909-morti-per-un-massacro-senza-precedenti/

 

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