EUA. Os bispos, a crise dos abusos e a suspensão do Vaticano

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John L. Allen Jr – 14 Novembro 2018

Foto: Bispos americanos / DomTotal

Um pouco antes da reunião dos bispos dos EUA nesta semana em Baltimore, a expectativa – para ser claro, dos próprios bispos – era de tomar decisões importantes sobre a crise de abuso sexual clerical que abalou a Igreja nos últimos seis meses.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 13-11-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

 

 

Mas o que aconteceu na segunda de manhã basicamente sugou todo o oxigênio da sala, assim que o cardeal Daniel Dinardo, de Galveston-Houston, presidente da conferência, anunciou que o Vaticano havia pedido que

É interessante notar que a ação comunicada aos bispos dos Estados Unidos no final do domingo veio depois do encontro entre o Papa Francisco com o cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação dos Bispos do Vaticano, e o arcebispo francês Christophe Pierre, embaixador do Vaticano para os EUA, em Roma, no sábado.

Segue um resumo rápido: se já havia grandes expectativas para a reunião de fevereiro, agora a expectativa cresceu exponencialmente.

  • O fato de o Vaticano pedir que a Conferência dos Bispos do quarto maior país católico do mundo, que está profundamente marcado pela crise,
  • espere mais três meses antes de tomar qualquer ação significativa sugere que a reunião de fevereiro
  • vai ter de apresentar algo muito significativo. Senão, pelo menos nos EUA, a situação vai ficar feia.

O próprio DiNardo parecia atordoado ao fazer o anúncio, e isso certamente descreve a reação de muitos dos outros bispos.
Certamente, há várias razões para a solicitação, que não necessariamente indicam uma negação. O padre jesuíta James Martin sugeriu várias delas em uma série de tweets nesta segunda-feira pela manhã, sugerindo

  • que talvez Francisco queira uma resposta mais universal,
  • que talvez a Conferência dos Bispos dos EUA não seja unida o suficiente para enfrentar a situação
  • e que talvez o Papa tenha algo na manga para fevereiro que ele não quer antecipar.

Mas acabou surgindo uma explicação alternativa. Várias fontes disseram ao Crux que

  • havia problemas sérios legislativos com várias das propostas desenvolvidas pelos bispos,
  • as quais só foram finalizadas no dia 30 de outubro,
  • dando ao Vaticano pouco tempo de reação.

De acordo com essa visão, na verdade Ouellet

  • fez um favor à conferência ao pedir que esperassem um pouco,
  • evitando um cenário em que suas propostas fossem derrubadas em Roma,
  • o que seria uma visto como reprovação por não terem feito a lição de casa.

Tudo isso pode muito bem ser verdade. Mas, verdade seja dita, os católicos estadunidenses

  • estão com raiva,
  • desiludidos e descontentes
  • e esperam que as autoridades da Igreja deem algum motivo para ter esperança.

Este acontecimento, vale lembrar, vem logo após o Sínodo dos Bispos dedicado aos jovens, em Roma, de 3 a 28 de outubro, que

  • chegou a pedir desculpas pelos casos de abuso clerical
  • e reafirmar o compromisso da Igreja com uma política de “tolerância zero” ,
  • mas que depois voltou atrás pela oposição dos bispos da África, de partes da Ásia e até mesmo alguns italianos, que alegaram, inter alia, (entre outras coisas – NdR), que seria “prematuro” emitir tais declarações antes da reunião de fevereiro para deixar o Papa livre para agir.

Em relação ao contexto, o pedido da Conferência dos Bispos dos EUA para limitar sua ação foi feito

  • uma semana depois que os bispos católicos da França divulgaram fortes novos protocolos antiabuso, criando uma nova comissão independente para avaliar como se lidou com os casos.
  • Na mesma semana, os bispos italianos também devem publicar novas orientações.

Certamente, essas conferências, até certo ponto, estão atrás dos bispos dos EUA, então as questões apresentadas eram diferentes.

Ainda assim, é difícil explicar por que Roma destacou

  • a conferência dos EUA,
  • colocando-os na posição embaraçosa de explicar por que suas mãos estão atadas,
  • mas o mesmo não aconteceu com os bispos de outras partes do mundo.

Em reação ao anúncio de DiNardo, o cardeal Blase Cupich, de Chicago, propôs que os bispos fizessem uma votação informal sobre as questões que já estavam planejando discutir, como a política de “tolerância zero” para os bispos, simplesmente para expressar o posicionamento da conferência. Isso poderia ser útil em fevereiro, em Roma, quando DiNardo vai participar da reunião dos presidentes das conferências.

Para Cupich, na verdade, é um “momento decisivo” para a Igreja.

“Temos de ser muito claros sobre nosso posicionamento, e precisamos expressá-lo”, disse Cupich.

Ainda não se sabe se é isso que os bispos vão fazer, nem se vão ficar presos ao discurso do que foi pedido por Roma.

(Como nota de rodapé, observo que

  • é um pouco curioso que DiNardo tenha feito o anúncio,
  • e não o arcebispo francês Christoph Pierre, o embaixador do Vaticano para os EUA, que está em Baltimore.

Se é um pedido do Vaticano, não se sabe por que o representante do Papa no país não fez o anúncio).

Na acalorada discussão da mídia dos EUA na segunda-feira, havia muitas referências casuais ao fato de o “Vaticano” estar impedindo o trabalho dos bispos do país. No entanto, a verdade é que, no papado de Francisco,

  • as estruturas tradicionais do Vaticano
  • perderam grande parte do poder para a liderança pessoal do próprio Papa.

Mais cedo ou mais tarde, a questão não será o posicionamento do “Vaticano”, mas sim do próprio pontífice.

Enquanto isso, espera-se que

  • os bispos dos países que perderam a luta no último sínodoEUA, Austrália, Irlanda, Reino Unido, Alemanha, Bélgica
  • e outros que viveram a crise de abusos intensamente –
  •  se organizem para a reunião de fevereiro com antecedência, para transmitir uma mensagem unificada e eficaz sobre a necessidade de reformas significativas.

Sem isso, corre-se o risco de ter outro encontro no Vaticano com um resultado ambíguo. Se isso acontecer, poderia ser um desastre pastoral para países onde a crise é uma realidade presente na vida, como os Estados Unidos.

 

 

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John L. Allen Jr

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/584632-eua-os-bispos-a-crise-dos-abusos-e-a-suspensao-do-vaticano

https://cruxnow.com/news-analysis/2018/11/13/making-sense-of-vaticans-no-fly-order-to-us-bishops-on-abuse-crisis/

 

 

 

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