Deus nos livre do deus do presidente

Jacques Távora Alfonsin – 13/11/2018
Foto:  IHU-WilsonDias . AgBr

“Caricaturas de Deus não faltam, portanto, e a chance de se autoafirmarem como divindade constitui uma tentação de difícil resistência, conforme o uso com que se possa contar com elas.

Explorar a imagem de Deus para colocá-lo acima de tudo, como prega o presidente eleito, não está fácil saber a quem ele se refere”, escreve Jacques Távora Alfonsin, procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos.

Eis o artigo.

O presidente Jair Bolsonaro vem reafirmando, com muita ênfase, que Deus está “acima de tudo”. Autoriza pensar-se que

  • o seu governo vai se inspirar em Deus,
  • alguém por ele conhecido,
  • no qual ele acredita
  • e pretende obedecer.

A história tem mostrado uma declaração desse tipo revelar-se muito perigosa. O risco se encontra em

  • como se identifica Deus,
  • onde e quando Ele se faz Presente e se manifesta,
  • do que ama ou desgosta,
  •  que tipo de poder exerce,
  • se esse poder deve ser aceito até pela pessoa que não acredita nem na sua existência.

Segundo os precários limites

  • da nossa razão,
  • dos nossos sentimentos herdados social e culturalmente,
  • das influências a que estamos sujeitas/os,
  • da nossa convicção de que só nós possuímos de fato a verdade sobre Ele e só nós não somos guiados por ideologia,

é preciso reconhecer humildemente que a gente pode se enganar feio.

O Deus que entendemos conhecer pessoalmente

  • pode ser muito diferente do que se pensa
  • e no lugar dele podemos estar erigindo um altar para outros até de forma inconsciente.

Basta lembrar a devoção e a adoração que se presta

  • ao dinheiro,
  • ao mercado,
  • ao partido,
  • à ciência,
  • às artes,
  • às igrejas,
  • às instituições,
  • às leis,
  • às autoridades,
  • às modas,
  • os costumes,
  • às ideologias, etc…

Queimar hereges já foi prática até da Igreja católica no passado,

  • uma forma desgraçada de se impor um conhecimento e uma obediência
  • a um deus que podia ser tudo menos deus.

Foi em nome desse fervor purista de deus

– do qual parece se sentir

  • sacerdote,
  • juiz
  • e oficial de justiça o presidente –

que se transformou Deus em carrasco e, em nome dele, todo o poder político da instituição religiosa aliada à romana e oficial da época, prendeu, processou e assassinou Jesus Cristo.

Caricaturas de Deus não faltam, portanto, e a chance de se autoafirmarem como divindade constitui uma tentação de difícil resistência, conforme o uso com que se possa contar com elas.

Explorar a imagem de Deus para colocá-lo acima de tudo, como prega o presidente eleito, não está fácil saber a quem ele se refere.

Pelo que está apresentando como futuras diretrizes do seu governo, está parecendo uma hábil manobra de colocar

Uma estratégia de revelação oportunista e muito utilizada, por sinal, por toda/o a/o política/o só interessada/o em se aproximar do povo para melhor controlá-lo por duas formas muito conhecidas:

  • no atacado, torná-lo alheio às suas dores e sofrimentos, pois no céu será premiado por isso;

no varejo,

  • não permitir sua conscientização sobre as verdadeiras causas das injustiças que sofre,
  • emburrecê-lo
  • e aliená-lo de tal modo que a dominação sobre ele o sujeite resignado à fatalidade de sua condição humana de pobreza e miséria.

 

Um apoio extraterrestre assim, sobrenatural, envolto em mistério, um

serve bem para isso.

Pelas metas das políticas públicas que o presidente tem publicado, o seu deus tem manifestado preferências opostas a de outros entes adorados como deuses.

Se apenas Jesus Cristo, reconhecido como Deus por grande parte da humanidade, for comparado com o deus do presidente, a distância pode ser medida em anos luz.

  • Desde a notória preferência dEste pelas/os pobres, puras/os, perseguidas/os, caluniadas/os, encarceradas/os,
  • gente “com fome e sede de justiça”, manifestada nas famosas bem-aventuranças;
  • desde as provas que servirão de base para um “juízo finalsobre a conduta de cada pessoa,
  • não por sua riqueza, nem pela extensão de suas terras e sua autoridade,
  • mas sim pelo bem que tiver feito à gente faminta, migrante sem lugar para se abrigar, doente ou aprisionada.

É essa multidão necessitada que o deus do presidente quer libertar e salvar? – Pelo contrário. Já deixou claro que “no que depender dele”,essa porção de povo vai é sofrer o peso da sua autoridade. O direito de se armar, inclusive para matar, ao qual se refere com frequência alarmante, passa por aí, mesmo contra o que ordena a Constituição Federal.

Abre mais ainda a porta para aquela espécie de aplicação da lei, como acontece muito frequentemente até hoje, viciada por preconceitos históricos desde a sua origem, contra gente pobre. É uma porta antecipadamente impedida de juízo contrário às distorções que se introduzem na interpretação do ordenamento jurídico inteiro do país, para reduzi-lo à completa impotência de ser sequer cogitado quando, pelo menos na letra, sustenta direitos humanos fundamentais sociais, e contraria os reais fatores de poder de mando garantido, como os do capital e do mercado.

O deus segurança para apoiar esses dois, por mais que se disfarce, é mesmo o deus do presidente. Sua política de segurança pública pode chegar ao que já tinha sido previsto há muito tempo e a mídia noticia diariamente:

  • A acumulação de capital resultante é realizada contra os outros
  • e jamais pode ser transformada na segurança da vida de todos.
  • A própria busca de tal segurança já romperia o elemento constituinte da sociedade burguesa.” {…}
  • “Uns não podem dormir porque têm fome e os outros não podem dormir porque têm medo dos que têm fome.”

(in “A idolatria do mercado”, Assmann, Hugo e Hinkelammert, Hans. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 454)

deus do presidente, por tudo isso, se assemelha bastante ao dos escribas e fariseus hipócritas denunciados por Jesus Cristo, que “amarram fardos pesados e os colocam nas costas dos outros, mas eles mesmos não os ajudam, nem ao menos com um dedo, a carregar esses fardos. Tudo o que eles fazem é para serem vistos pelos outros.” (Evangelho de São Mateus, 23, 4-5).

Um deus dessa espécie hipócrita e farisaica precisa ser desmascarado. Quem tem fé convém não só rezar ao seu Deus que dele nos livre, mas trate de se mexer em caminhada e oposição contrária, pois se o primeiro não passa de um ídolo fiel ao ódio e à morte, qualquer Outro exige enfrentá-lo fiel ao Amor e à Vida.

 

 

Jacques Távora Alfonsin

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/584606-deus-nos-livre-do-deus-do-presidente

https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2018/11/deus-nos-livre-do-deus-do-presidente-por-jacques-tavora-alfonsin/

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>