Boa vindima e bom vinho

Uma Análise sobre o Sínodo dos Jovens

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Anselmo Borges – 10/11/2018 – Foto: bomdia.lu

Durante o passado mês de Outubro, de 3 a 28, esteve reunido em Roma o Sínodo dos Bispos sobre os jovens e, durante os debates e agora no documento final, mostra-se uma vontade real de mudança.

Francisco, referindo-se aos resultados do Sínodo, disse que foi “uma boa vindima, que promete bom vinho”. Entretanto, é a fermentação.

Um exemplo: no próximo Sínodo, em Outubro de 2019, sobre a Amazónia, a ordenação de homens casados estará na agenda.

 

 

 1. Há um texto famoso do Papa Pio X (foi canonizado) que exprime bem o que a Igreja não é nem pode ser. Mas foi esse o modelo que tantos, contra a vontade de Jesus e até contra a consciência democrática, quiseram impor, incluindo Pio X:

“A Igreja é, por natureza, uma sociedade desigual. É uma sociedade composta por uma dupla ordem de pessoas: os pastores e o rebanho, os que têm um posto nos diferentes graus da hierarquia e a multidão (plebs) dos fiéis.

As categorias são de tal modo diferentes umas das outras que só na hierarquia residem a autoridade e o direito necessário para mover e dirigir os membros para o fim da sociedade, enquanto que a multidão não tem outro dever senão o de aceitar ser governada e cumprir com submissão as ordens dos seus pastores” (na Encíclica Vehementer Nos).

Este é o modelo de uma Igreja desigual e hierárquica, desembocando numa hierarcocracia, “o domínio absoluto de uma casta de celibatários — reais ou em muitos casos fictícios — sobre toda a Igreja”, como escreveu Victorino Pérez Prieto.

Jesus, ao contrário, tinha dito:

“Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vós  faça-se o servo de todos. Pois também eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos”.

 

2. Durante o passado mês de Outubro, de 3 a 28, esteve reunido em Roma o Sínodo dos Bispos sobre os jovens e, durante os debates e agora no documento final, mostra-se uma vontade real de mudança.

Nesse documento, lê-se expressamente que o Sínodo quer que se avance para uma “Igreja participativa e co-responsável”. Participaram

  • 267 padres sinodais de todo o mundo,
  • 49 auditores,
  • 23 peritos
  • e 30 jovens, também de todo o mundo.

Estes jovens não votaram, mas puderam exprimir-se e até apoiaram ruidosamente algumas afirmações — um deles até terá perguntado ao Papa se podiam dar uma assobiadela no caso de total discordância, ao que Francisco respondeu: a mim podeis fazê-lo, a eles é melhor não. Escreveram uma carta ao Papa, declarando: “As novas ideias precisam de espaço e tu deste-no-lo”.

Os temas discutidos durante o Sínodo e reflectidos no documento final, aprovado por uma maioria superior a dois terços, são de sumo interesse para os jovens de hoje:  o corpo, a sexualidade, os abusos, a não discriminação da mulher, o universo digital, as migrações, os pobres, as drogas, a política, o trabalho e a precariedade, o diálogo ecuménico, intercultural e inter-religioso, a iniciação cristã, a vida das Igrejas locais, a família, a vocação, a sua participação na vida da Igreja.

 

Ficam aí, numa brevíssima síntese, alguns pontos do documento que, no meu entender, poderiam despertar mais curiosidade para os leitores.

2.1. Sinodalidade. O processo sinodal (sínodo é uma palavra de origem grega, com o significado de caminhar juntos) foi decisivo para este Sínodo, e o documento convida a que as Conferências Episcopais e as Igrejas locais continuem este percurso, “empenhando-se em processos de discernimento comunitários que incluam também aqueles e aquelas que não são bispos nas deliberações, como fez este Sínodo”.

A experiência vivida fez “tomar consciência da importância de uma forma sinodal da Igreja para o anúncio e a transmissão da fé. A participação dos jovens contribuiu para acordar a sinodalidade, que é uma dimensão constitutiva da Igreja: Igreja e Sínodo são sinónimos”.

  • 2.2 Corpo e sexualidade. “Os jovens reconhecem ao corpo e à sexualidade uma importância essencial para a sua vida e no percurso de crescimento da sua identidade, pois são imprescindíveis para viver a amizade e a afectividade”.

Reconhece-se que os desenvolvimentos da ciência e das tecnologias biomédicas influenciam fortemente

“a percepção do corpo, levando à ideia de que é modificável sem limites”. Ora, “a capacidade de intervir no ADN, a possibilidade de inserir elementos artificiais no organismo (cyborg) e o desenvolvimento das neurociências constituem um grande recurso, mas levantam ao mesmo tempo interrogações antropológicas e éticas.”

Não se pode caminhar por uma via acrítica da tecnocracia quanto ao corpo, ignorando os perigos de abusos e instrumentalizações por parte dos dinamismos económicos e políticos.

Nalguns contextos juvenis, difunde-se “o fascínio por comportamentos de risco como instrumento para testar-se a si próprios, procurar emoções fortes e obter reconhecimento”.

Para lá de outros fenómenos antigos, como “a sexualidade precoce, a promiscuidade, o turismo sexual, o culto exagerado do aspecto físico, constata-se hoje a difusão invasora da pornografia digital e a exibição do próprio corpo on line”. Estes fenómenos constituem “um obstáculo para uma maturação serena”.

No esforço para transmitir a beleza da visão cristã da corporeidade e da sexualidade,  é “urgente uma busca de modalidades mais adequadas, que se traduzam concretamente na elaboração de caminhos de formação renovados”. Para isso, é necessário formar  agentes pastorais credíveis, “a partir da maturação das suas próprias dimensões afectivas e sexuais.”

E lá está o artigo 150 do documento, aquele que, mantendo a maioria de dois terços, mais votos contra teve. Aí se lê: “Há questões referentes ao corpo, à afectividade e à sexualidade que precisam de uma elaboração antropológica, teológica e pastoral mais aprofundada, a realizar nas modalidades e nos níveis mais convenientes, dos locais ao universal. Entre elas, emergem em particular as relativas à diferença e harmonia entre identidade masculina e feminina e às inclinações sexuais.

Neste ponto, o Sínodo reafirma que Deus ama todas as pessoas e assim faz a Igreja, renovando o seu empenhamento contra toda a discriminação e violência com base sexual. Reafirma igualmente a relevância determinante antropológica da diferença e reciprocidade entre o homem e a mulher e considera redutivo definir a identidade das pessoas a partir unicamente da sua orientação sexual.”

E acrescenta:

“Existem já em muitas comunidades cristãs caminhos de acompanhamento na fé de pessoas homossexuais”,

recomendando o Sínodo que se continue a favorecer esses percursos, pois “as pessoas são ajudadas a ler a sua própria história, a aderir com liberdade e responsabilidade ao seu chamamento baptismal, a reconhecer o desejo de pertencer e contribuir para a vida da comunidade”.

Deste modo, “ajuda-se todos os jovens, sem excluir ninguém, a integrar sempre mais  a dimensão sexual na própria personalidade, crescendo na qualidade das relações e caminhando para o dom de si.”

 

  1. 3. Abusos. Existem diversas formas de abuso:
  • de poder,
  • de consciência,
  • sexuais,

que foram praticados também por

  • alguns bispos,
  • sacerdotes,
  • religiosos
  • e leigos,

que “provocam nas suas vítimas, entre as quais muitos jovens, sofrimentos que podem durar a vida toda e que nenhum arrependimento pode remediar”.

Será necessário ir às causas na sua raiz:

  • “o desejo de domínio,
  • a falta de diálogo e de transparência,
  • as formas de vida dupla,
  • o vazio espiritual,
  • bem como as fragilidades psicológicas, que são o terreno no qual prospera a corrupção.”

O Sínodo põe o acento particularmente no clericalismo, que “interpreta o ministério recebido como um poder e não como um serviço gratuito e generoso a oferecer”.

Agradece a todos os que “tiveram a coragem de denunciar o mal imediatamente: ajudam a Igreja a tomar consciência do acontecido e da necessidade de reagir com decisão”.

E reafirma “o compromisso firme na adopção de medidas rigorosas de prevenção que impeçam a repetição dos abusos, a partir da selecção e da formação daqueles e daquelas a quem serão confiadas tarefas de responsabilidade e educativas.”

 

2.4. Mulheres. Afirma-se, por um lado,a diferença entre homens e mulheres e, por outro, a igualdade, condenando-se a discriminação com base no sexo.

“Não se pode esquecer a diferença entre homens e mulheres com

  • os seus dons particulares,
  • as específicas sensibilidades
  • e experiências do mundo.

Esta diferença pode ser um âmbito em que nascem formas

  • de domínio,
  • exclusão
  • e discriminação

das quais precisam de libertar-se todas as sociedades e a própria Igreja. A Bíblia apresenta o homem e a mulher como parceiros iguais diante de Deus: toda a dominação e discriminação baseada no sexo ofende a dignidade humana.”

Os jovens e as jovens exigem que se reflicta sobre a condição e o papel das mulheres na Igreja e na sociedade. Neste domínio, as reflexões no Sínodo requerem uma  “corajosa conversão cultural e de mudança na prática pastoral quotidiana”.  Concretizando: “Um âmbito de particular importância é o da

  • presença feminina nos órgãos eclesiais a todos os níveis,
  • também em funções de responsabilidade,
  • e da participação feminina nos processos de decisão eclesiais.

Trata-se de um dever de justiça, inspirado no modo como Jesus se relacionou com homens e mulheres do seu tempo.”

 

5. Ambiente digital. O ambiente digital é uma característica fundamental do nosso mundo.

Já não se trata apenas de “usar” instrumentos de comunicação, mas de

“viver numa cultura amplamente digitalizada que tem impactos profundíssimos

  • na noção de tempo e de espaço,
  • na percepção de si, dos outros e do mundo,
  • no modo de comunicar, de aprender, de informar-se, de entrar em relação com os outros”.

Reconhecendo que Web e social network são “uma praça na qual os jovens passam muito tempo”, o documento sublinha os seus benefícios:

constituem uma oportunidade extraordinária de

  • diálogo,
  • encontro
  • e intercâmbio entre as pessoas,
  • para lá do acesso à informação e ao conhecimento”,

podendo

  • colocar também informação independente em circulação,
  • combatendo as fake news
  • e pondo-se ao serviço dos direitos humanos,
  • da participação sócio-política
  • e da cidadania activa.

Por isso, a pastoral deverá igualmente aproveitar as suas vantagens e oportunidades.

Mas os perigos e ameaças não podem ser ignorados. O ambiente digital é também “um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até ao caso extremo da dark Web”, não esquecendo

  • a progressiva perda de contacto com a realidade concreta,
  • os obstáculos levantados ao desenvolvimento de relações interpessoais autênticas,
  • o cyberbullying,
  • a difusão da pornografia
  • e a exploração das pessoas com intuitos sexuais ou mediante jogos de azar.

 

6. Espiritualidade e vocação. De modo geral,

  • “os jovens declaram estarem busca do sentido da vida
  • e mostram interesse pela espiritualidade,
  • mas essa atenção configura-se sobretudo como uma procura de bem-estar psicológico
  • mais do que como abertura ao encontro com o Mistério do Deus vivo”.

Múltiplos factores, que se expressam na cultura do provisório, afectam a capacidade de decisão dos jovens. Questão decisiva para a Igreja e para a sociedade tem a ver com o vínculo intergeracional.

 

3. Há quem, não sem razão, faça notar que este documento final do Sínodo traz alguma frustração, na medida em que fica aquém das promessas do Instrumentum Laboris, preparado num Pré-sínodo com os jovens e que seria o instrumento de base para o Sínodo.

Assim, a título de exemplo,

♣. não consta a sigla LGBT, que, pela primeira vez, apareceu num documento oficial da Igreja, precisamente no Instrumentum Laboris.

♣ não se cumpriu a expectativa  de um Dicastério (Ministério) no Vaticano para os jovens. Como vai a Igreja conquistar a confiança dos jovens? Quem os escuta?

♣. As mulheres continuam excluídas do ministério ordenado e nem sequer puderam votar no Sínodo; mais:

  • enquanto que os superiores religiosos presentes (por exemplo, o Padre Sosa, Geral dos jesuítas) votaram,
  • as seis mulheres superioras de congregações e associações religiosas não foram autorizadas a fazê-lo.

♣. Não se fala no fim do celibato obrigatório nem sequer na possibilidade da ordenação de homens casados, questão levantada no Sínodo…

Então?

  • Por um lado, é preciso ter presente que o Sínodo não poderia criar situações de ruptura, com o perigo de um cisma na Igreja.
  • Por outro, não se deve renunciar à esperança.

De facto, o texto do documento final foi entregue ao Papa, que, a partir dele, fará uma Exortação Apostólica, que se espera vá mais além.

De qualquer modo, Francisco, referindo-se aos resultados do Sínodo, disse que foi “uma boa vindima, que promete bom vinho”. Entretanto, é a fermentação. Um exemplo: no próximo Sínodo, em Outubro de 2019, sobre a Amazónia, a ordenação de homens casados estará na agenda.

 

Anselmo Borges

 

Padre e Professor de Filosofia

 

Fonte: www.dn.pt/edicao-do-dia/10-nov-2018/interior/boa-vindima-e-bom-vinho-10145082.html?target=conteudo_fechado

 

De: anselmo.borges@iol.pt

Data: 10 de Novembro de 2018 19:34:09 WET

Para: <anselmoborges44@gmail.com>

Cc: <anselmo.borges@iol.pt>

Assunto: artigo no DN

 

www.dn.pt/edicao-do-dia/10-nov-2018/interior/boa-vindima-e-bom-vinho-10145082.html?target=conteudo_fechado

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