Jair Bolsonaro nasceu da anemia democrática do Brasil

 

Jair Bolsonaro nació de la anemia democrática de Brasil

Luis Schenoni e Scott Mainwarin / The Washington Post 28 de outubro de 2018

O ultra-direitista Jair Bolsonaro, ex-capitão da reserva do exército com pendores autoritários, rejeita algumas das regras do jogo democrático e ameaça minar os direitos dos cidadãos brasileiros.

Um eventual triunfo de Bolsonaro, que chega ao segundo turno como favorito nas eleições presidenciais do Brasil no domingo, pode corroer a maior democracia da América Latina.

 

O Brasil não é o único país da América Latina submerso numa crise política:

  • a democracia desmoronou na Nicarágua;
  • a Venezuela sofre o jugo de uma ditadura
  • e Bolívia e Honduras têm sérios problemas.

Em El Salvador, Guatemala, Honduras e México, tal como no Brasil, organizações criminosas governam os segmentos mais pobres de muitas das suas cidades, em detrimento das suas democracias.

Dados do projeto Varieties of Democracy, juntamente com os de outras fontes, mostram que

  • esse sistema de governo
  • está mais fraco do que tem sido durante  décadas.

A satisfação com a democracia diminuiu, segundo o Projeto de Opinião Pública da América Latina (LAPOP) e o Latinobarómetro.

Seria de esperar que Washington trabalhasse para fortalecer as democracias no continente. No entanto,

  • como sugerido por imagens de partidários de Bolsonaro agitando bandeiras americanas,
  • a nação americana não ajudou neste desenvolvimento.

Num artigo recente publicado pelo think tank Democratização, há uma avaliação de como as políticas de Washington afetaram as transições autoritárias e os colapsos democráticos na América Latina de 1945 a 2010.

EUA já não apoiam as  democracias

Atualmente a promoção da democracia foi praticamente abandonada pela administração Trump.

  • No ano passado, o Departamento de Estado considerou a possibilidade de eliminar a promoção da democracia da sua declaração de missão do governo.
  • Este ano, o Gabinete de Administração e Orçamento tentou cortar os fundos destinados à Fundação Nacional para a Democracia, considerada, junto com a USAID e o Departamento de Estado, uma das três organizações-chave que promovem a democracia.

Muitos golpes de Estado latino-americanos, incluindo aqueles que Washington denunciou, ocorreram porque os Estados Unidos não manifestaram de forma enérgica o seu apoio à democracia.

O presidente Donald Trump

  • elogia os ditadores
  • e parece sugerir que o seu país apoiará soluções não-eleitorais para as crises constitucionais.

Os Estados Unidos estão ignorando instituições multilaterais

No passado, redes e organizações internacionais ajudaram a disseminar a democracia. Desde o início de 1990, a Organização dos Estados Americanos (OEA) aliou-se aos EUA para combater as fraudes eleitorais e os golpes, em particular através da Resolução 1080 (1991) e da Carta Democrática (2001).

No entanto, Washington não deu respaldo à OEA e reconheceu o governo hondurenho nas eleições de 2017, apesar de a OEA ter denunciado uma fraude nessas eleições. Este ano,

  • Trump tornou-se o primeiro presidente dos EUA a não comparecer à Cúpula das Américas,
  • o que sugere falta de interesse nesta zona.
  • Além do desinteresse pelo sistema interamericano, a retirada dos Estados Unidos do Conselho de Direitos Humanos da ONU
  • sugere falta de compromisso com o multilateralismo.

Outros desafios

O segundo turno no Brasil será disputado por Bolsonaro e pelo progressista Fernando Haddad, que propõem dois modelos antagônicos para recuperar uma economia que cresce em marcha lenta.

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil subiu 1% em 2017 após dois anos de profunda recessão e, de acordo com as previsões dos analistas, vai fechar 2018 com um crescimento de 1,35%, menos da metade do previsto um ano atrás.

Às baixas previsões de crescimento, somam-se umas contas públicas carcomidas  por más gestões e pela  corrupção,  uma dívida pública elevada (77,3% do PIB) e um desemprego que bate à porta de 12,7 milhões de brasileiros (6,07%).

Os dados refletem a situação de

  • um gigante que avança com pés de barro na economia,
  • em meio a uma desigualdade crescente
  • e um aumento do número de pobres,
  • que subiu de 17,1 milhões em 2014 para 23,3 milhões em 2018.

O Brasil deixou para trás a sua “época de ouro”, que desfrutou de uma economia próspera  sob o governo do Partido dos Trabalhadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora na prisão por corrupção que  se desencadeou  enquanto ele estava no poder.

Mas a situação sofreu uma reviravolta no segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff e o Brasil mergulhou na pior recessão econômica da sua história (2015-2016), coincidindo com uma grave crise política que provocou a sua destituição.

O poder foi então assumido pelo seu vice-presidente, Michel Temer, que empreendeu um conjunto de medidas de austeridade para remediar as maltratadas contas públicas.

  • Bolsonaro, guiado pelo seu conselheiro econômico, Paulo Guedes,
  • prometeu que se chegar ao poder vai pôr em marcha uma agenda liberal, com peso nas reformas e privatizações,
  • ao passo que  Haddad garante ajustes fiscais mais moderados, sem comprometer as  classes mais desfavorecidas.

A agenda liberal do ultradireitista ajudou-o a ganhar o apoio dos investidores, que nos últimos anos têm manifestado a sua hostilidade ao PT e celebraram a vantagem do capitão da reserva do Exército,

  • um nostálgico da ditadura militar
  • que tem causado polêmica devido a um histórico de declarações machistas, racistas e homofóbicas.

O seu discurso transita entre a raiva e os preconceitos.

Mas Bolsonaro, que segundo pesquisas recentes vencerá a eleição deste domingo com cerca de 60% dos votos, também se comprometeu a manter alguns programas sociais e assegura que vai expandir o programa Bolsa Família, impulsionado por Lula e que oferece um subsídio de até 195 reais (52 dólares) para famílias com baixa renda.

No seu programa  eleitoral, Bolsonaro tem insistido

  • que o desequilíbrio fiscal gera inflação
  • e que o debate sobre as privatizações tem o objetivo de melhorar a distribuição de renda no país.

O seu rival nas urnas, Fernando Haddad, reforçou por sua vez a marca social que esteve presente durante o governo Lula e que lhe valeu o apoio dos mais pobres, especialmente na região nordeste do país. Além do Bolsa Família, o ex-ministro da Educação, defende

  • uma reforma tributária e bancária,
  • a isenção do imposto de renda para quem ganha menos de 4.770 reais mensais (1.272 dólares)
  • e um aumento da carga fiscal para os mais  ricos.

Bolsonaro achou uma fórmula atraente para um país atribulado: oferecer soluções simples para problemas complexos.

Bolsonaro é um sintoma do descontentamento social que vive o Brasil, não uma solução.

Poderá Haddad surpreender?

 

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Fonte: fhttps://www.eleconomista.com.mx/internacionales/Jair-Bolsonaro-nacio-de-la-anemia-democratica-de-Brasil-20181028- 0002.html

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