“Tudo, menos o PT”. Antipetismo empedernido ou o perfeito bode expiatório das forças conservadoras. – Daniela Gontijo

Como uma pessoa que estuda violência há 15 anos eu tenho algumas coisas a dizer sobre o momento político que estamos vivendo.

Fiz uma tese de doutorado sobre violência, mímesis, contágio. Estudei a estratégia do bode expiatório que, para mim, vem tomando proporções escabrosas no Brasil.

Entendo a estratégia do bode expiatório como um dos pilares do golpe que podemos sintetizar no Grande Acordo Nacional – “Tem que mudar o governo para estancar essa sangria”, disse Romero Jucá. Trocando em miúdos, trata-se de uma estratégia para desmontar o estado de bem estar social que já era capenga, para servir aos interesses do grande capital.

 

Não sou petista e fiz muita oposição ao Governo Dilma e às escolhas catastróficas de um modelo econômico conservador e predatório.

Mas é tão óbvio que

  • o PT se tornou um bode expiatório
  • e que o ódio ao PT
  • é um catalisador de temores e insatisfações,
  • projeto das elites e da grande mídia pra manipular pessoas.

Eu tenho visto tanta gente conhecida que já não reconheço: de uns tempos pra cá

  • enrubesce ao falar,
  • trava o queixo,
  • baba de ódio.

O fenômeno tem sido relatado por amigas/os também sobre familiares e colegas.

Não tem nada com mais força na sociedade que catalisar os ódios num insígnia única. É densamente amalgamador e se potencializa numa espécie de tautologia,

  • como se tudo passasse a justificar esse ódio
  • e o ódio também passasse a balizar tudo.

Um sinal contundente do êxito da estratégia do bode expiatório é a relativização de todo o resto.

Quem comprou o “Ódio ao PT” não odeia, não de um modo contundente e avassalador,

  • o Jair Bolsonaro,
  • o Michel Temer,
  • o Aécio Neves,
  • o Gilmar Mendes,
  • o golpe jurídico-midiático,
  • o “grande acordo nacional, com Supremo, com tudo”.

Não discursa, com indignação contra nenhum deles.

  • PEC do congelamento,
  • retrocesso de direitos,
  • fascismo,
  • homofobia,
  • racismo,
  • machismo,
  • apologia ao estupro,
  • apologia à tortura.

Não odeia nada disso. As coisas mais hediondas não cabem na indignação de quem comprou o ódio único ao PT. Mas o antipetismo empedernido é nada mais, nada menos que um projeto de manipulação feito em modelos consolidados historicamente.

O antropólogo René Girard dedicou uma vida ao estudo do tema com centenas de livros publicados.

Em sociedades em crise, as massas,

  • focadas no bode expiatório,
  • elegem a vítima sacrificial,
  • que nunca é a verdadeira culpada.

Hordas sociais catapultam o ódio e expurgam a vítima.

  • Apesar de parecer um movimento espontâneo,
  • há sempre o interesse de uma elite por trás,
  • que precisa poupar o verdadeiro culpado
  • e zelar pelo status quo.

Por isso, a vítima sacrificial é sempre uma figura

  • que foi marginalizada,
  • que carrega um estigma,

o que torna mais fácil sua designação como bode expiatório.

Evidente que o PT

  • não é uma quadrilha,
  • tampouco o partido que mais roubou na história do país.

Muito pelo contrário,

  • tirou o país do mapa da fome
  • e estamos aí, nesse exato momento, vendo retrocessos na educação, na saúde, na assistência social etc.

Teve

  • Fies,
  • teve Prouni,
  • teve “Ciência sem fronteira”,
  • teve “Fome zero”,
  • teve “Minha casa, minha vida”

e tanta política pública acertada que o Lula tem recolhido reconhecimento em todo canto do mundo e acaba de ganhar seu 35o honoris causa.

Teve problema?

  • Teve muito!
  • Mas nada diferente nem pior do que os que sempre estiveram no poder.
  • E certamente nada que justifique catalisar ódios num partido só.

E em geral, quando a pessoa vem com o “fora todos”,é eleitora do inominável, se não no 1.o, no 2.o turno, e sequer se dá conta de como seu ódio segue exclusivista. Porque outro sintoma que constato

  • do bode expiatório
  • e da onda de ódio
  • é o ofuscamento para o restante.

O ódio, já dizia Sara Ahmed, é pegajoso. Mobiliza-se mais gente que se junta contra algo do que a favor. O ódio tem essa potência do expurgo. Nada é mais agregador que o ódio. E a estratégia de manipulação via bode expiatório tem dado certo por toda a história mundial.

No Brasil, agora vemos

  • no “tudo, menos PT”,
  • a ascensão do autoritarismo,
  • o declínio do diálogo
  • e o escalonamento da intolerância e agressividade.

Pra quem

  • brinca com fogo
  • e acha que Jair não fará o que diz,
  • Jessé Souza já nos relembrou que Hitler já avisara tudo que faria.

Se você é do tipo “tudo, menos PT”,você cogita votar

  • num ser extremamente perigoso,
  • que propaga e estimula o ódio,
  • banaliza a violência
  • e cuja propaganda é uma mão em forma de arma.

Um ser que diz que

  • “o erro da ditadura foi torturar e não matar”,
  • e que já deveria estaria preso, se nosso país fosse sério.

Se você cogita votar nele,

  • você certamente foi tomado/a pelo Ódio Único
  • e anda relativizando o oco.
  • O oco é a cara do fascismo.

O oco tem a cara de uma pessoa 

  • que não articula nem o bê-a-bá da economia,
  • que já foi condenado por apologia ao estupro e comentário racista,
  • que tem como herói um torturador sanguinolento, responsável por 45 mortes e desaparições,
  • exaltado pelo Jair em rede nacional.

O oco é a cara do seu ídolo Brilhante Ustra, que

  • torturou uma mulher grávida de 7 meses
  • e levou duas crianças, uma de 4, outra de 5 anos,
  • para assistir os pais torturados, sujos de fezes e vômito.

Horror não se relativiza. Não queiramos ver o oco. Todo mundo perde.

 

Daniela Gontijo

Fonte: http://blogdolau.com.br/2018/10/09/tudo-menos-o-pt-antipetismo-empedernido-ou-o-perfeito-bode-expiatorio-das-forcas-conservadoras-daniela-gontijo/

 

 

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