Pensantes e não pensantes

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Anselmo Borges, 06/10/2018

Foto: hljunior.com.br

Imersos numa crise sem precedentes da Igreja Católica, que está longe de terminar, retomo, na substância e com a devida vénia, um texto que escrevi para o livro “Portugal Católico. A beleza na diversidade”.

 

  1. Quando cheguei à Universidade, admirava-me com o espanto de estudantes e até de professores por causa do meu pensar interrogativo no que se refere à religião. No entanto, I. Kant tinha razão ao escrever que a religião, apesar da sua majestade, não pode ficar imune à crítica. Só uma Igreja autocrítica e que acolhe a crítica da sua realidade tantas vezes tenebrosa pode criticar as infâmias do mundo.

Julgo que continua em Portugal a ideia de que o católico na Igreja está infectado por uma fé

  • dogmática,
  • imóvel
  • e incapaz de pensamento aberto e crítico.

A pergunta é: Quem assim pensa estará enganado? Infelizmente, parece-me que não.

De facto, quando se pensa

  • nas feridas deixadas pela Inquisição, que tolheu a abertura do pensar,
  • e num clero frequentemente inculto, que se deixou ultrapassar pelo mundo moderno — ouça-se as homilias de grande parte dos padres, impreparadas, inúteis ou mesmo prejudiciais —,

fica-se com a convicção de que

  • a Igreja se imobilizou num mundo do dogma repetitivo de uma doutrina que já não é aliciante para a vida
  • e que, pelo contrário, transformou o Evangelho, notícia boa e felicitante,
  • em Disangelho, notícia infeliz e de desgraça, para utilizar a palavra de Nietzsche.

Drama maior: a modernidade acabou por ter de impor à Igreja oficial o que é património e herança do Evangelho:

  • os direitos humanos,
  • a liberdade,
  • a igualdade,
  • a separação da Igreja e do Estado.

No entanto, a Primeira Carta de Pedro manda “dar a razão da fé e da esperança”.

E é M. Heidegger que tinha razão, ao dizer que “o perguntar é a piedade do pensamento”.

Job — está na Bíblia —

  • atreveu-se a fazer perguntas de protesto a Deus
  • e Deus louvou-o por isso.

Jesus morreu a rezar, com uma pergunta que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”

E é preciso aceitar que

  • há perguntas sem resposta
  • ou para as quais o crente não tem resposta,
  • como reconhece o Papa Francisco.

O ser humano é constitutivamente

  • o ser da pergunta
  • e, de pergunta em pergunta,
  • chega ao infinito, perguntando ao Infinito pelo Infinito, isto é, por Deus.

É aqui que encontra fundamento a dignidade humana.

  • Finitos e mortais,
  • levamos connosco a capacidade de perguntar ao Infinito pelo Infinito e a sua existência,
  • independentemente da resposta que se dê à pergunta.

Isso significa que temos algo de infinito em nós, precisamente essa capacidade. Finitos, somos da ordem do infinito.

Por isso,

  • temos dignidade
  • e somos fim e não meio,
  • como é próprio do infinito: para lá do infinito não há mais nada.

Lá está Ernst Bloch, o ateu religioso, na sua pedra tumular: “Denken heisst überschreiten” — “Pensar significa transcender”.

 

2. O Evangelho explicita os dois princípios que devem presidir à reforma que se impõe na Igreja,

  • ao “definir” Deus como Agapê, Amor incondicional,
  • e, logo no início do Evangelho segundo São João, ao dizer que no princípio era o Logos (Verbo, Palavra, Razão, Sentido), o Logos estava em Deus e o Logos era Deus e tudo foi criado pelo Logos.

Os dois princípios que têm de animar os católicos,

  • começando por aqueles a quem foi entregue a missão de presidir à Igreja,
  • comunidade de comunidades espalhadas pelo mundo todo,

são, portanto: o Amor, a Bondade, e a Razão, a Inteligência.

  • A bondade sem inteligência não abre caminhos novos e pode causar imensos estragos irreparáveis;
  • a inteligência sem a bondade pode tornar-se cruel e fazer um sem número de vítimas.

É neste fundo que se percebe claramente a urgência impreterível da renovação da teologia.

O jesuíta Jorge Costadoat chamou a atenção para esta necessidade, ao constatar que

  • talvez nunca como hoje, desde os inícios do cristianismo,
  • a Igreja precise tanto de se pensar a si própria teologicamente no seu respectivo mundo.

Uma tarefa gigantesca. De facto, o que acontece

  • é que a teologia não tem ajudado a Igreja na sua entrada numa nova época,
  • o que deriva também das sucessivas condenações de teólogos,
  • de tal modo que a teologia que os ambientes eclesiásticos consideram a melhor
  • é realmente “muitas vezes a pior”.

Daí, o fosso entre a Igreja “oficial” e o mundo e mesmo o comum dos baptizados, a ponto de “não se saber exactamente quem tem real autoridade para orientar os outros”: o

  • poder formal sabe-se quem o tem,
  • mas o problema é a autoridade, inexistente, para orientar.

“O que se constata é que

  • a distância da Igreja em relação à cultura — a cultura predominante e as diversas culturas —, é crescente.
  • A actual configuração histórica e cultural da Igreja não suporta tantas e tão aceleradas mudanças.
  • Este foi já o diagnóstico do Concílio Vaticano II há 50 anos. Hoje, a tensão é muito maior”.

Uma coisa sabemos: primeiro, é a necessidade da conversão ao Deus de Jesus, ao amor e à misericórdia, que o Papa Francisco encarna. Esta é a direcção correcta e o rumo certo e necessário.

“Mas, continua Costadoat,

  • a caridade cristã acerta verdadeiramente quando exige e depende de uma articulação da fé e da razão.
  • Uma caridade infantil e piedosa nunca deve ser menosprezada, mas também não deve ser mistificada.
  • A caridade de que hoje precisamos requer ser pensada e reflectida em todos os planos da vida humana, e a nível político e planetário”.

E isso exige uma teologia

  • que não seja mera teologia de teologia,
  • isto é, comentário de comentários,
  • no quadro de uma ortodoxia empacotada e repetida ad nauseam de modo caduco, estéril e, por isso, prejudicial.

Impõe-se a necessidade de uma teologia viva e que “tenha a coragem que tem o próprio Francisco de tentar e de equivocar-se”.

A teologia com uma tarefa pendente tem de ser

“teologia que se confronta com hipóteses e interpretações de uma realidade cada vez mais difícil de compreender; que se situe historicamente e pense a sua missão numa cultura em transformação variada, muitas vezes disparatada, e incessante.

O que se requer é uma conversão teológica de 180 graus.

  • A teologia ocupou-se da revelação de Deus no passado;
  • a teologia de que agora se precisa deveria concentrar-se na fala de Cristo no presente.
  • Sem uma teologia deste tipo, que atenda também à pluralidade cultural,
  • a proposta evangelizadora está a naufragar”.

O Papa Francisco tem dado o exemplo.

  • Não só não condenou teólogos
  • como pede pensamento teológico novo na liberdade de pensar e de expressão,

tendo ele próprio avançado com dois textos essenciais, que farão história:

  • a ‘Laudato si’ sobre a salvaguarda da criação, a humanidade no cosmos,
  • e a Amoris laetitia’, uma visão nova sobre a sexualidade, o casamento e a família.

 

3. A Igreja

  • tem de dialogar com humildade e sem medo com as ciências,
  • com todos, incluindo os agnósticos e os ateus.

Diálogo, como diz a etimologia, é o logos comunicante, a razão comunicativa. Homem de diálogo, o cardeal jesuíta Carlo Martini, que dizia que a Igreja anda atrasada duzentos anos, criou em Milão a Cátedra dos Não-Crentes e, reportando-se a um pensamento de Norberto Bobbio, dizia:

“o que me interessa é a diferença entre pensantes e não pensantes. Quero que todos vós sejais pensantes. Depois, escutarei as razões de quem crê e as de quem não crê”.

 

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

 

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