Voto ético

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 “O comportamento ético do ser humano – em nível de Opção fundamental, de Atitudes e de Atos – é o comportamento mais humano natural e mais natural humano “possível” numa determinada situação histórica concreta”, Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP), professor aposentado de Filosofia da UFG, 03 de outubro de 2018.

Eis o artigo.

Como eterno aprendiz de filósofo e teólogo da Ética, apresento critérios – racionais (filosóficos) e racionais à luz da  (teológicos) – para que, nas eleições políticas, o nosso voto seja ético.

O ser humano é natureza (parte integrante da natureza) e “sabe” que é natureza. Ora – por “saber” que é natureza – ele é um ser histórico, situado (num lugar) e datado (num tempo). A natureza é o jardim e o ser humano (além de ser parte integrante do jardim) é o jardineiro. O jardim não existe sem o jardineiro e o jardineiro não existe sem o jardim.

O comportamento ético do ser humano – em nível de Opção fundamental, de Atitudes e de Atos – é o comportamento mais humano natural e mais natural humano “possível” numa determinada situação histórica concreta.

É à luz desse princípio que surgem critérios para que o nosso voto (ou seja, o nosso ato de votar) seja ético:

 

1. Critério estrutural (sistêmico):

Antes de votar, precisamos fazer um juízo ético (juízo de valor) racional (filosófico) e racional à luz da  (teológico) sobre o sistema capitalista neoliberal no qual vivemos.

Como diz o ditado: pelos frutos conhecereis a arvore. Os principais frutos do sistema capitalista neoliberal são:

  •  desigualdade institucionalizada e legalizada;
  • uma violência estrutural permanente, que gera outras violências pessoais e de grupos;
  • idolatria do dinheiro ou primado do deus dinheiro, ao qual tudo é sacrificado, inclusive a vida humana e todas as formas de vida;
  • práxis (unidade dialética de prática e teoria) antiecológica, que destrói sistemática e permanentemente a natureza (a nossa Irmã Mãe Terra) para obter lucros cada vez mais exorbitantes.

Um sistema estruturalmente desigual, idólatra e antiecológico pode ser melhorado e humanizado? Por se tratar de iniquidade estrutural (que, filosoficamente, chamamos de “mal moral estrutural” e, teologicamente, de “pecado estrutural”), a resposta é: não.

Essa iniquidade estrutural ou sistêmica – que assume vários rostos nas áreas da saúdeeducaçãoculturaecologiatrabalho e outras – só pode ser vencida e superada mudando as estruturas. E, mudando as estruturas, muda o sistema. Trata-se de um mal ou pecado objetivo que não depende somente da vontade individual das pessoas.

 

2. Critérios pessoais:

Antes de votar, precisamos:

a. tomar consciência crítica do “mal moral estrutural” ou “pecado estrutural” que existe no Brasil e no mundo;

b. posicionar-se claramente contra esse mal ou pecado;

c. descobrir caminhos novos para vencê-lo;

d. estar dispostos a participar – de acordo com as capacidades e possibilidades de cada um/uma – das lutas dos Movimentos Populares.

  • Sindicatos de Trabalhadores/as,
  • Partidos Políticos,
  • Comitês ou Fóruns de Direitos Humanos
  • e outras Organizações, comprometidos/as com o Projeto Popular (social, econômico, político, ecológico e cultural),
  • que é a Sociedade do Bem Viver e do Bem Conviver
  • ou, à luz da , o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo;

e. por fim, ter consciência que – construindo o Projeto Popular – estamos construindo um sistema alternativo, estruturalmente justo e que poderá ser sempre aperfeiçoado.

“Pergunto-me – diz o Papa Francisco – se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global.

  • Reconhecemos que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?
  • Se é assim – insisto – dígamo-lo sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas.

Este sistema é insuportável:

  • não o suportam os camponeses,
  • não o suportam os trabalhadores,
  • não o suportam as comunidades,
  • não o suportam os povos…
  • E nem sequer o suporta a Terra, a Irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”.

Papa diz ainda que este sistema insuportável “exclui, degrada e mata!”. E continua afirmando:

“Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que atinja também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença” (Papa Francisco2º Encontro Mundial dos Movimentos PopularesSanta Cruz de la Sierra – Bolívia, 09/07/15).

Os critérios apresentados para que o nosso voto seja ético são válidos também para toda práxis (unidade dialética de teoria e prática) política. Meditemos!

“Cuidado com os falsos profetas: eles vêm a vocês vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes” (Mt 7,15). A responsabilidade pelo Brasil é nossa! Que o voto seja realmente um exercício consciente de cidadania! E que Deus nos ilumine!

 

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Marcos Sassatellli

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/583449-voto-etico

 

 

 

 

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