Um brexit sem acordo é o resultado mais provável da cimeira de Salzburgo

A rejeição dos planos de May pelos líderes da UE aumentou a possibilidade de fracasso.

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Os líderes da UE concluíram que o Reino Unido vai nunca aceitar um brexit sem acordo. Essa conclusão advém da sua posição negocial. No final, a inferência pode ser a correta.

Mas, com a poeira a assentar após a cimeira da semana passada em Salzburgo, aquela parece uma aposta imprudentemente arriscada.

O que torna o processo do brexit tão perigoso é que ambos os lados continuam a interpretar mal as intenções um do outro. Theresa May, tal como o seu antecessor,
  • errou ao pensar que poderia explorar as diferenças entre os líderes da UE.
  • Entretanto, estes interpretaram mal as suas limitações políticas.

As preocupações que Bruxelas e os 27 da UE têm sobre as propostas de Theresa May são justificadas. Mas eles fizeram mal em descartá-las. Ao fazê-lo, aumentaram inadvertidamente a probabilidade de um brexit sem acordo.

Há ainda uma pequena hipótese de uma alteração de última hora – um apoio irlandês ao acordo de saída, além de uma declaração política não vinculativa sobre o futuro relacionamento. Mas a declaração de May na sexta-feira reduziu as hipóteses de qualquer acordo que possa implicar uma fronteira alfandegária dentro do próprio território do Reino Unido.

Não vejo hipótese de qualquer acordo de brexit a menos, e até, que a UE comece a ver pelo menos alguma probabilidade de um brexit sem acordo. Não estamos lá ainda.

  • Vários líderes da UE escolheram esta semana para falar sobre uma reversão do brexit.
  • Um popular site de notícias alemão esteve na liderança com uma história sobre um ministro britânico que excluía a possibilidade de um segundo referendo.
  • Isso pareceu ser uma verdadeira surpresa para eles.

Enquanto persistir a expectativa de uma reversão do brexit ou de um recuo do Reino Unido, não haverá acordo. É possível que a posição da UE mude à medida que nos aproximamos de um brexit sem acordo. Os eleitores do Reino Unido, tendo votado pelo brexit, podem estar preparados para pagar um preço económico para sair. Os eleitores e as empresas da Europa continental não estão igualmente preparados para fazer um sacrifício e muitos empregos na UE estão em jogo. A Alemanha e os Países Baixos têm enormes excedentes comerciais bilaterais com o Reino Unido.

Os economistas insistem em afirmar que um não acordo seria pior para o Reino Unido do que para a UE. Isso é superficialmente verdade, mas não reconhece um ponto mais importante: a UE tem um limiar de dor política muito mais baixo para um brexit  duro.

A melhor tática negocial para a primeira-ministra britânica é a que ela assinalou no seu discurso na televisão na sexta-feira:

  • não fazer nada até a UE avançar,
  • manter a substância da sua proposta,
  • fazer-lhe talvez algumas melhorias técnicas, dar-lhe talvez outro título,
  • deixar os prazos decorrerem até 2019.

Ao rejeitar a proposta britânica de imediato, a UE também perdeu uma oportunidade: eles poderiam ter oferecido aos pró-europeus do Reino Unido um caminho seguro de regresso à adesão plena à UE no futuro. Uma das razões pelas quais os adeptos radicais da permanência na UE do Reino Unido estão tão desesperados para reverter o brexit (e relutantes em endossar um acordo de saída) é o desejo de manter as atuais cláusulas de autoexclusão do Reino Unido. A UE poderia ter oferecido garantias sobre a futura adesão à UE, incluindo uma promessa de que o Reino Unido não precisará de aderir ao euro.

Os defensores da permanência na UE claramente consideram um futuro regresso à União como a segunda melhor opção. Mas consideremos a alternativa: o brexit duro que se seguiria ao chumbo de um acordo de retirada.

  • O artigo 50.º do Tratado de Lisboa é muito claro neste ponto.
  • Se o Reino Unido sair da UE sem acordo, duvido que os seus líderes se sentassem sequer com o Reino Unido para negociar um simples acordo comercial.

A cooperação na política de segurança terminaria. E, como os sistemas económicos divergem ao longo do tempo, as barreiras para a reentrada aumentarão. A possibilidade de regressar à UE estaria perdida por uma geração, enquanto um acordo de saída deixaria em aberto a opção da adesão futura. Esta perspetiva apenas deveria ter algum valor tanto para a UE como para os defensores da permanência no Reino Unido.

Theresa May não tem agora outra opção que não seja levar as negociações até ao limite. Entretanto, todos nós devemos preparar-nos para um brexit sem acordo. Na ausência de novos desenvolvimentos, como

  • uma mudança de liderança política,
  • eleições no Reino Unido
  • ou uma mudança de posição por parte dos líderes da UE,

deveríamos considerar este como o cenário mais provável.

© The Financial Times Limited, 2018

 

 

Wolfgang Münchau

Fonte: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/25-set-2018/interior/um-brexit-sem-acordo-e-o-resultado-mais-provavel-da-cimeira-de-salzburgo-9898240.html

 

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