Bolsonaro não controla mais o bolsonarismo

Willliam Nozaki – 25/09/2018 – Foto: IHU

 “O fenômeno virou metástase no interior do tecido social e não obedece ao comando do candidato”, escreve William Nozaki, professor de ciência política e economia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), em artigo publicado por CartaCapital, 24-09-2018.

Eis o artigo.

O fenômeno Jair Bolsonaro deixou de ser uma questão meramente política e eleitoral para se converter em um problema social e sociológico. O bolsonarismo se enraizou e entrou em metástase no interior do tecido social brasileiro.

Como se sabe, o eleitorado do capitão reformado é composto majoritariamente por homens, brancos, de classe média, com ensino superior e concentrado nas cidades grandes e médias e nas regiões de fronteira.

Evidentemente, sua presença é sentida em outros estratos sociais, mas com menor intensidade. O perfil eleitoral de seus apoiadores, entretanto, é apenas um pequeno aperitivo do que agrega sua base de sustentação social.

bolsonarismo conformou uma nova aliança de classes no Brasil, uma espécie de exército zumbi hidrofóbico originário de “walkmin dead” e que congrega, no mercado, setores do rentismo, do grande comércio varejista, do pequeno e médio produtor rural e de profissionais liberais ligados ao velho bacharelismo.

  • No Congresso, parcela das bancadas do boi, da bala, da bíblia e dos nanicos que orbitam ao redor do “centrão”.
  • No Estado, as baixas patentes da farda, da toga e do clero.
  • Na sociedade, segmentos das igrejas neopentecostais, atletas de MMA/UFC, duplas e cantores sertanejos, apresentadores de programas de auditório, artistas e músicos ultrapassados, comediantes conservadores de stand up comedy e intelectuais de procedência duvidosa.

Uma parcela desse contingente heterogêneo, a extrema-direita que representa seu sumo, partilha de uma visão de mundo obscurantista e marcada por traços como

  • ódio,
  • intolerância,
  • machismo,
  • racismo,
  • lgbtfobia,
  • xenofobia.

Muitas vezes são

criacionistas,

moralistas,

terraplanistas

monarquistas,

rechaçam os direitos humanos e louvam a violência e a tortura.

  • Não tem compromisso com a democracia ou com valores modernos.
  • Substituem a noção de bem comum pela de ganhos privados.
  • Sufocam o indivíduo moderno nas amarras da família tradicional
  • e no lugar da igualdade de oportunidades
  • retroagem em defesa da naturalização das desigualdades.

São liberais cínicos,

  • proclamam como princípio a não-intervenção do Estado na economia
  • com a mesma desfaçatez que o faziam aqueles que foram contra a abolição da escravidão
  • contra a instituição do salário mínimo no País.

O fenômeno não chega a ser propriamente inédito entre a fauna e a flora que compõe a cultura política brasileira.

Chega mesmo a guardar alguma relação de parentesco com outras idiossincrasias nacionais como

  • o udenismo,
  • o janismo
  • e até mesmo o malufismo,

mas com novos componentes, claro, temperados pela presença

  • da indústria cultural,
  • das redes sociais digitais,
  • do norte-americanismo,
  • do militarismo civil
  • e do fundamentalismo religioso.

A maior inovação talvez esteja no risco de instabilidade permanente em que essa aliança pelo regresso coloca o País, pois, dado esse perfil, o bolsonarismo talvez não seja controlável nem pelo próprio Bolsonaro, como observamos nos últimos dias.

Do ponto de vista econômico e político, Bolsonaro está circundado

  • pelo investidor financeiro Paulo Guedese
  • pelo general de reserva Hamilton Mourão.

O que deveria ser o lastro da moeda e das armas se mostrou, recentemente, um calcanhar de Aquiles.

Do hospital, Jair Bolsonaro

  • precisou conter declarações ultraliberais e antipopulares de Guedes
  •  que davam notícia da criação de novos impostos e novas alíquotas regressivas
  • incidindo sobre os trabalhadores e desonerando as altas elites.

E precisou barrar sanhas golpistas e reacionárias de Mourão em suas declarações preconceituosas sobre

  • a “indolência”dos índios,
  • a “malandragem”dos negros,
  • o “desajuste” das famílias monoparentais,
  • a “mulambada”dos países emergentes,
  • a possibilidade de “autogolpe”
  • e a necessidade de uma Constituição que “prescinda do povo”.

O som de Guedes e a fúria de Mourão vieram acompanhados de atitudes incendiárias de apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais.

As ofensas, ameaças e perseguições, reais e virtuais, contras as mulheres que organizaram o grupo e a campanha #EleNão é mais uma mostra de que a combinação de

  • antipetismo,
  • crise econômica,
  • judicialização da política,
  • instabilidade institucional
  • e polarização ideológica

criaram um ambiente de violência física, material e simbólica que não é mais governável nem mesmo por quem alimentou esse clima de conflagração e beligerância.

Como se sabe, o grau de rejeição e outras fragilidades tornam uma vitória eleitoral de Bolsonaro improvável, mas não se trata de algo impossível, e como a história mostra não convém subestimar as iras fascistas.

Desta forma,

  • a se tomar como parâmetro o padrão de atuação das bases sociais, políticas e econômicas de Bolsonaro na campanha presidencial
  • e a se imaginar hipoteticamente que o candidato vença,

é muito provável que tenhamos ou um governo suficientemente forte, e autoritário, orientado para implementar

  • um projeto que levará o País a um colapso social,
  • ou um governo iminentemente fraco, e conservador,
  • norteado pela sua própria auto-sobrevivência
  • e que nos levará a mais um colapso institucional.

Nos dois casos teremos um cenário de mais crises e instabilidades. Se o fascismo vencer, o Brasil escreverá “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria”,pois Bolsonaro não controla o bolsonarismo.

 

 

Willliam Nozaki

Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/583067-bolsonaro-nao-controla-mais-o-bolsonarismo

https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-nao-controla-mais-o-bolsonarismo

 

 

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