Enquanto pastores evangélicos apoiam Bolsonaro, cúpula católica lava as mãos. Artigo de Juan Arias

Juán Arías – 21 Setembro 2018

Estaria Jesus, nestas eleições, a favor de um candidato que prega a violência como panaceia para todos os males?
Indaga Juan Arias, jornalista, em artigo publicado por El País, 20-09-2018.

Eis o artigo.

Há momentos na história dos povos, como hoje no Brasil, onde os cristãos não podem ser omitir quando os direitos fundamentais das pessoas, como suas liberdades e defesa dos mais fracos, estão em perigo.

No Brasil,

As igrejas evangélicas pregam, como vi escrito até em um caminhão, que “Cristo está voltando”. Pergunto-me, no entanto,

  • se os evangélicos e católicos não seriam pegos de surpresa
  • se, de fato, o inocente e pacífico Jesus de Nazaré,
  • crucificado por defender os perseguidos e desprezados pelo poder,
  • aparecesse nos dias de hoje entre eles. 

 

Estaria Jesus, nestas eleições,

  • a favor de um candidato que prega a violência como panaceia para todos os males,
  • que zomba das minorias ameaçadas pela intransigência,
  • que ensina crianças a usar as mãos inocentes para imitar um revólver
  • e que, vítima de um ataque injusto, como são todos os atos de violência,
  • continua, de seu leito no hospital, fazendo gestos como se estivesse disparando uma arma?

Se Cristo voltasse, ficaria, certamente, surpreso com a notícia publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, de que

  • Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil
  • decidiu apoiar a candidatura do capitão reformado Jair Bolsonaro,
  • sob o pretexto de frear uma possível vitória da esquerda.

 

Apoiadores de Jair Bolsonaro (PSL) reunidos no hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde o candidato está internado.
Apoiadores de Jair Bolsonaro (PSL) reunidos no hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde o candidato está internado.Fernando Bizerra EFE

 

Os evangélicos, como todos os cidadãos, têm o direito de preferir um candidato de esquerda ou de direita.

E,

  • se pode nos surpreender o fato de que as igrejas evangélicas declarem, por meio de seus pastores, seu apoio ao candidato que fez das armas seu estandarte sagrado,
  • também surpreende que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lave as mãos e não tenha a coragem de assumir uma posição clara sob a desculpa de que a Igreja “não se pronuncia sobre candidatos”.

O cardeal Sérgio da Rocha, que agora preside a CNBB, em uma cerimônia em Brasília no último dia 14,

  • havia defendido que os católicos não devem apoiar candidatos “que promovam a violência”,
  • referindo-se a Bolsonaro.

Em seguida, os bispos

Os bispos, mais uma vez, lavaram as mãos, um gesto que traz tristes lembranças, quando Pôncio Pilatos, antes de condenar Jesus à morte, também lavou as mãos.

Igreja Católica, que carrega nas costas dois mil séculos de história,

  • já pagou caro no passado por ter feito uso da violência
  • contra os hereges,
  • nas fogueiras da Inquisição
  • e nas guerras religiosas.

Ainda surpreende aquele ambíguo lavar de mãos do papa Pio XII diante de Hitler e do Holocausto. E pagou caro por seus pecados

  • de traição à sua doutrina de paz  e de defesa das liberdades,
  • assim como seu apoio às piores ditaduras.

Uma coisa é que, como princípio, as igrejas cristãs proclamem sua independência em assuntos transitórios da política, e outra que,

Para isso, não existe perdão.

No cristianismo, a neutralidade quando a vida e os direitos das pessoas estão em jogo é um pecado. A Bíblia é clara. No livro do Apocalipse (3:15-16), aqueles que preferem covardemente lavar as mãos são repreendidos: “Assim, porque és morno, e nem és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”.

O Deus cristão exige a coragem de saber se posicionar contra os violentos, no pelotão dos indefesos condenados ao esquecimento e principal alvo da violência.

 

 

Juan Arías

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/582963-enquanto-pastores-evangelicos-apoiam-bolsonaro-cupula-catolica-lava-as-maos-artigo-de-juan-arias

 

Leia mais:

 

 

1 comment to Enquanto pastores evangélicos apoiam Bolsonaro, cúpula católica lava as mãos. Artigo de Juan Arias

  • Irene Cacais

    Bem já dizia o meu falecido pai (um operário de fábrica) que a Igreja institucional sempre está ao lado dos poderosos. Está cada vez mais claro: uma coisa é pertencer a uma igreja (católica ou evangélica, tanto faz) outra coisa é ser cristão. O segundo é bem mais difícil.

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>