História e ficção: A Lenda Negra

Um livro de erudição rigorosa pode ser divertido? É raro, mas acontece no caso de Imperiofobia y Leyenda Negra (Imperiofobia e Lenda Negra), de María Elvira Roca Barea, que acabo de terminar.

É aguerrido, profundo, polêmico, e é lido sem pausas, como um romance policial em que o leitor voa sobre as páginas para saber quem é o assassino.

Confesso que há tempos não lia um livro tão ameno e estimulante.

História e ficção

Imagem: El País

Segundo Roca Barea, a lenda negra anti-espanhola

  • foi uma operação de propaganda
  • montada e alimentada ao longo do tempo pelo protestantismo
  • especialmente em suas versões anglicana e calvinista
  • —contra o Império Espanhol e a religião católica

para afirmar seu próprio nacionalismo, demonizando-os até extremos pavorosos e chegando a privá-los de humanidade.

Dá exemplos abundantes e de toda espécie sobre isso:

  • tratados teológicos,
  • livros de história,
  • romances,
  • documentários e filmes de ficção,
  • quadrinhos, piadas e até conversas pós-refeição.

A extensão e duração da lenda negra

  • teve a contribuição da indiferença com que o Império Espanhol,  primeiro,
  • e depois seus intelectuais, escritores e artistas,
  • em vez de se defender,
  • em muitos casos tornaram sua a lenda negra,

avalizando seus excessos e fabricações como parte de uma feroz autocrítica que fazia da Espanha um país intolerante, machista, lascivo e em luta com o espírito científico e a liberdade.

Você sabia que

  • as degolas e esquartejamentos de católicos na Inglaterra de Henrique VIII e da rainha Elizabeth I,
  • e nos Países Baixos de Guilherme de Orange,
  • foram infinitamente mais numerosos do que as torturas e justiçamentos em toda a história da temível Inquisição Espanhola?

Sabia que

  • a censura de livros na França, Inglaterra e Alemanha
  • foi tão ou mais severa do que na Espanha?

O ensaio de Roca Barea prova tudo isso de maneira inequívoca, mas também inútil, pois, como mostra seu livro —é o mais inquietante dele—,

  • quando uma dessas ficções malignas (hoje diríamos pós-verdades)
  • encarna na história substituindo a verdade,
  • alcança uma solidez e realidade que resiste a todas as críticas e desmentidos e sempre prevalece sobre eles.

A ficção traga a história. Por isso,

  • as batalhas de Napoleão narradas por Victor Hugo e Tolstói
  • sempre nos parecem, apesar de seus abundantes erros,
  • mais certas do que as dos historiadores mais rigorosos.

Pois bem, no livro de Roca Barea

  • aparecem historiadores de muito prestígio, como o alemão Leopold von Ranke  e o inglês Thomas Macaulay —existem muitos outros pensadores
  • e artistas não menos distintos, como um Voltaire e um Edgar Allan Poe —, que, talvez sem ser conscientes disso, contribuíram para a lenda negra.

E perpetraram distorções flagrantes à verdade histórica acomodando em seus livros os fatos de tal modo que confirmaram em vez de refutar os exageros e mentiras inventados para desprestigiar e afundar moral e politicamente o “inimigo” imperial e “papista”.

A autora de Imperiofobia y Leyenda Negra

  • não considera que tudo isso venha de uma conspiração conscientemente forjada pelos poderes;
  • tudo isso é, evidentemente, encorajado e às vezes financiado pelo poder,
  • mas também nasce de maneira espontânea, como uma excrecência natural do nacionalismo,
  • que se forma e fortalece sempre contra algo ou alguém,
  • pois precisa de um inimigo a quem odiar para poder subsistir.

E a Espanha do Século do Ouro, quando a lenda negra é mais ativa,

  • era o mais poderoso império da Europa
  • e, certamente, o inimigo obrigatório dos países que pretendiam substituí-lo.
  • E das denominações religiosas que queriam ser as mais genuínas herdeiras das verdades bíblicas.

Dessa maneira indireta, o livro de Roca Barea, sem sequer ter proposto tal coisa,

  • questiona as próprias bases da História como uma ciência objetiva,
  • pois sua pesquisa demonstra que em muitos casos
  • nela se infiltra, em razão das circunstâncias e das pressões religiosas e políticas, a ficção como um elemento que desnaturaliza a verdade histórica e a acomoda às urgências ideológicas do poder estabelecido.

E não há ácido mais eficaz e inescrupuloso na alteração das verdades históricas do que o nacionalismo, como os espanhóis têm a ocasião de comprovar atualmente com o desafio independentista da Catalunha, que, além de se rebelar contra a Constituição e as leis, se empenha em refazer a história e transformá-la em uma ficção a seu serviço.

O livro de Roca Barea

  • é muito bem escrito,
  • com uma prosa elegante,
  • argumentos pertinentes
  • e por vezes com uma ironia alegre que atenua a gravidade dos assuntos dos quais trata.

Salta às vezes do passado remoto à atualidade, para mostrar que há entre ambos uma concatenação secreta e, frequentemente, indica nas notas o dia exato em que fez aquela citação e verificação nos arquivos (algo que, acredito, se faz pela primeira vez).

A autora desse livro extraordinário

  • me dá um puxão de orelhas, em uma de suas páginas,
  • por ter lembrado que o romance como gênero literário esteve proibido na América Espanhola durante os três séculos coloniais,
  • porque as autoridades religiosas e políticas espanholas consideraram que as invenções disparatadas desses livros
  • poderiam confundir os indígenas e distraí-los dos ensinamentos religiosos.

É, acho, o único caso na história em que um gênero literário foi proibido. Roca Barea me recorda que naquela época surgiu na Espanha o romance picaresco (poderia ter mencionado também o principal romance: Dom Quixote).

Minha afirmação não é parte da lenda negra, mas se trata de uma verdade inequívoca. A proibição, que existiu e foi reiterada várias vezes ao longo daqueles trezentos anos, dizia respeito somente às colônias, não à metrópole. E, ainda que a proibição tenha funcionado no que se refere à publicação de romances, não impediu que, graças ao profuso contrabando, os romances tenham sido lidos fartamente nas colônias americanas. Mas o primeiro romance, como tal, só foi publicado no México, após a independência: El Periquillo Sarniento (1816).

Todas as boas histórias da literatura hispano-americana (recomendo as duas melhores, ou seja, a de Enrique Anderson Imbert e a de José Miguel Oviedo) reproduzem essas proibições que, desde meus anos de estudante, sempre me fascinaram. Por que a ficção foi proibida como tal?

O resultado foi que, ceifada a fonte natural da ficção, que é o romance, tudo na América Latina passou a ser impregnado pela ficção proibida:

  • não só os gêneros literários como a poesia e o teatro,
  • também a religião,
  • a política
  • e a própria vida da sociedade e das pessoas.

 

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Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/14/opinion/1536926149_207429.html

 

 

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