Caelibatus delendus est! É preciso abolir o celibato sacerdotal obrigatório

 

Além de causar muito sofrimento, “o que dá coesão ao clericalismo é o celibato”

 

Victorino Pérez Prieto (na foto) , 14 de setembro de 2018

Tradução: Orlando Almeida

Está na hora de acabar com a lei do celibato obrigatório. Penso sinceramente que este é o kairós, o momento adequado para eliminar a nefasta união que se estabeleceu na Igreja Romana do Ocidente entre presbiterado e celibato.

Estou convencido, como mais alguns colegas que já estão se manifestando timidamente neste momento, de que o que dá coesão ao clericalismo é o celibato.

 

 

Na avalanche de publicações que nestes dias inundou a rede  sobre os abusos eclesiásticos de menores, li num artigo de Religion Digital que

* “a bomba da pedofilia abolirá em breve a lei do celibato sacerdotal,

pois o papa Francisco escreveu contra os abusos dizendo que

* “dizer não ao abuso é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo”;

* o que faria supor  que “o Papa já tem a ideia de ir eliminando o clericalismo e o celibato que o alimenta (Josemari Lorenzo Amelibia, https://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2018/08/24/religion-iglesia-opinion-pederastia-bomba-celibato-clerical-obligatorio-abolicion-papa-abusos-sexuales-poder-escandalos.shtml

 Mais ainda, a abolição da lei do celibato seria “algo próximo”, “os dias do celibato obrigatório estão contados”.

Eu pensei: Deus te ouça! É o que venho dizendo há mais de duas décadas, em artigos e entrevistas. Especialmente depois que me tornei um padre-católico-casado, reivindicando que sou ambas as coisas e agradecendo a Deus por isso.

Embora  isto não se tenha tornado o objeto preferencial do meu trabalho teológico – como sabem bem aqueles que conhecem a minha obra,  cf. meu post neste blog “Meus livros no dia do livro” –  mas eu sim tenha sido objeto de raiva e insultos por parte da caverna; os reacionários de sempre, mais papistas do que o papa e que, por isso mesmo, agora se tornaram “anti-papistas” … contra o papa Francisco,  que

  • quebrou as suas abordagens clericais e eclesiolátricas,
  • tão firmes como anti-evangélicas.

 

 

Estou convencido, como mais alguns colegas que já estão se manifestando timidamente neste momento, de que o que dá coesão ao clericalismo é o celibato.

  • O compromisso obrigatório do celibato – antes revestido de batina e de tonsura – intimamente ligado à ordenação sacerdotal,
  • converteu-se na lei fundamental dos padres da Igreja católica romana,
  • que os tornava “sagrados”,  separados;
  • com ele começavam a fazer parte da clerezia, a casta superior e governante da Igreja, com poder absoluto sobre os fiéis.

Uma clerezia formada apenas por homens; à qual já se opõe cada vez mais o movimento pela ordenação da mulher e a realidade já existente na Igreja católica de mulheres presbíteras, que não querem fazer parte desta clerezia mas sim quebrá-la para fazer da Igreja um “discipulado de iguais”,  em que elas buscam somente presidir a eucaristia e ser servidoras da comunidade.

Este clericalismo

  • é o que governa a Igreja,
  • desde que esta deixou de ser um movimento popular
  • para se tornar uma religião institucional e até oficial durante séculos.

“A obsessão de reivindicar o ministério presbiteral como poder e não como serviço, latente já no próprio nome de sacerdote, e tão contrária ao espírito de Jesus que

  • mandava rejeitar títulos de pai ou mestre
  • e proibia  que se aproveitasse do ministério para obter vantagens pessoais ( cf. Mt 23),
  • foi quase certamente uma das causas estruturais da peste que hoje lamentamos”

– escreve González Faus num dos seus últimos trabalhos (“¡Perdón! Reflexión de instituciones católicas sobre los escándalos de pederastia”).

Portanto, se o clericalismo começa a ser questionado agora a partir da própria cúpula da Igreja, como origem dos piores males desta –“cria uma cisão no corpo da igreja que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que hoje denunciamos” e serve para abusos e “para subir na escada clerical”, diz o papa na sua carta – os dias de celibato obrigatório estariam contados.

 

Não sei se será iminente o momento – oxalá! – da eliminação da obrigatoriedade do celibato na Igreja-católica-romana-ocidental,  ou ainda terá que se esperar absurdamente mais um tempo, que só irá corromper  mais a situação.

Mas o que sei é que,

  • mesmo tendo suas coisas boas,
  • o celibato sacerdotal  trouxe mais males do que bens à Igreja;
  • sobretudo pelo fato de ser obrigatório, pois a opção celibatária livre expressará melhor os seus valores, tornando os que a tomem pessoas livres, como livre foi Jesus de Nazaré.

Tem havido ao longo da história, e ainda há,

  • um grupo mais ou menos numeroso de bons presbíteros
  • que levaram o celibato com elegância e alguns até com alegria;

este gerou entrega e generosidade, disponibilidade para a evangelização e para o serviço dos mais pobres até o sacrifício da própria vida.

Mas o certo é que o celibato obrigatório produziu muito escândalo, até ao ponto de deixar de ser credível para o povo de Deus, incluindo grupo dos que o cumprem.

O celibato obrigatório causou sofrimento e verdadeiros tormentos a muitos presbíteros até perder a própria vida, e no mínimo sofrer por causa desta norma a intolerância da Igreja.

“O padre ou é casado ou é capado”, diz a expressão popular. Um pouco rude, mas não lhe falta razão, e o tempo o demonstrou ao longo da história da Igreja.

  • Padres rasos ou padres promovidos,
  • coadjutores e párocos,
  • vigários, delegados episcopais e padres com altas responsabilidades,
  • monsenhores, bispos, arcebispos, cardeais e até papas.

todos quebraram a solene lei do celibato.

* Alguns, sendo consequentes com um amor bonito que chegou inesperadamente, tornaram público esse amor e casaram-se; seja com a licença canônica da secularização – e a sua vergonhosa “redução ao estado laical” que pressupõe que os leigos são de segunda categoria na Igreja, e que implica para negar aos presbíteros o que haviam sido – ou sem ela, perante a sociedade com um casamento civil, e perante a Igreja, com a bênção de outro irmão presbítero e da comunidade.

* Outros, ocultando as suas relações,  às vezes bem sinceras e vividas com  imensa dor até ao extremo de morte;

* e outros abusando uma ou mil vezes

  • de solteiras e de casadas,
  • de jovens e de meninas ou meninos,
  • de mulheres e de homens,
  • com uma homossexualidade mal assumida e pior vivida e, para maior escárnio, caluniando os seus colegas.

 

“Quando a dimensão espiritual que acompanha o exercício da sexualidade não é o amor –  diz Faus no texto citado costuma ser muitas vezes a do poder: a experiência de um domínio absoluto a que nada resiste e que engradece quem o possui”.

A revelação da enxurrada da pedofilia clerical é um dos frutos envenenados desta lei; que tem sido muito mais do que um vício individual, porque com a proteção da instituição era mais fácil de exercer esses abusos contra o menor ou a menor.

“A bomba caiu contra a lei do celibato” – diz o comentarista que citei – “o tsunami da pedofilia clerical está provocando uma das piores crises de credibilidade na Igreja católica” e parece que vai  acabar com o clericalismo, disse Ramón Alario, líder MOCEOP (Movimento para o celibato opcional).

Creio que já está na hora de dizer categoricamente: delendus est caelibatus!,  devemos acabar com a lei do celibato obrigatório.

Penso sinceramente que este é o kairós, o momento adequado direito para eliminar a união nefasta que se estabeleceu na Igreja Romana do Ocidente entre presbiterado e celibato.

  • O presbítero é o servidor da comunidade
  • e não pode estar acima dela,
  • baseando-se em alguma norma absurda que o faça sentir-se separado e superior.

Essa é a raiz de clericalismo.

É urgente que se vá trabalhando – não se estará já? – para tornar pública e efetiva uma norma sobre o celibato sacerdotal

  • não obrigatório
  • mas opcional.

Uma opção tem que poder ser mudada em qualquer momento na vida de cada presbítero, pois

  • ser humano é estar em constante evolução,
  • mudar,
  • decidir,

mesmo dentro de uma opção fundamental, que para o cristão é seguir Jesus de Nazaré, o Cristo.

Já há um movimento de renovação profunda da Igreja – Refounding our Church in the aftermath of the sex-abuse scandals, (“Refundação da nossa Igreja depois dos escândalos de abuso sexual”) – que quer  tirar as consequências

  • da abolição do clericalismo
  • e da própria  casta clerical,
  • mãe dos abusos denunciados,

e  que está pedindo um novo concílio, com decisões radicais  a respeito.

Falaremos  sobre este movimento num próximo  post.

É hora de fazê-lo.  Já!

 

 

 

Victorino Pérez Prieto

 

Fonte: https://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2018/09/14/caelibatus-delendus-est-religion-iglesia-dios-jesus-papa-francisco-fe-esperanza-sufrimiento-clericalismo-casta-poder-kairos-cura-catolico-casado-ley.shtml

 

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