O PAPA NÃO ESTÁ SÓ!

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Frei Bento Domingues – 16 setembro 2018

Foto: arcebispo Viganò pede a renúncia de Francisco

“Era urgente criar um clima que desse a impressão de que Bergoglio não era o remédio, mas o veneno. Tinha chegado a hora de o desmascarar.

O cálculo das oposições organizadas para derrotar o projecto reformador do Papa Francisco não estava mal concebido.

Impunha-se aproveitar os seus encontros com as Igrejas onde os clérigos pedófilos, padres, bispos e cardeais, fizeram mais vítimas. Era indispensável mobilizar os meios de comunicação para mostrar as dimensões não só da tragédia, mas a incapacidade do Papa em responder, com actos, à indignação das vítimas”.

     

 

1. No mês de Agosto, não pude responder às muitas solicitações telefónicas para comentar os acontecimentos em torno do comportamento do Papa Francisco perante a pedofilia clerical e nos começos de Setembro, também não. Ao agradecer a acolhedora hospitalidade deste Jornal,

talvez fosse oportuno esboçar um balanço das campanhas para

  • difamar o Papa,
  • desacreditar os seus objectivos
  • e os seus caminhos de reforma da Igreja.
  • Era urgente criar um clima que desse a impressão de que Bergoglio não era o remédio, mas o veneno. Tinha chegado a hora de o desmascarar.

O cálculo das oposições organizadas para derrotar o projecto reformador do Papa Francisco não estava mal concebido.

  • Impunha-se aproveitar os seus encontros com as Igrejas onde os clérigos pedófilos, padres, bispos e cardeais, fizeram mais vítimas.
  • Era indispensável mobilizar os meios de comunicação para mostrar as dimensões não só da tragédia, mas a incapacidade do Papa em responder, com actos, à indignação das vítimas.

O importante era encontrar algumas pistas para dizer que o responsável de tudo era o próprio Papa.

  • Não tinha sentido que ele andasse a pedir perdão, quando, de facto, ele era conivente.
  • Já tinha tido tempo para erradicar essa abominação eclesiástica e veio, afinal, a encobri-la, enchendo a boca contra o carreirismo de seminaristas, padres, bispos e cardeais.

Como quem diz:

  • anda a querer reformar a sociedade, a política, a economia que mata, a Igreja a todos os níveis,
  • quando o mais urgente é reformá-lo a ele.
  • Ou se demite ou deve ser demitido, pois é um herético e anda a levar a Igreja para a catástrofe.

Foi tal o entusiasmo com a sua eleição, com os seus insólitos gestos e atitudes, que muitos julgaram que o caminho aberto era irreversível. Esse acolhimento, que parecia universal,

  • distraiu muitos dos seus seguidores:
  • acreditavam, de forma ingénua, que as reformas propostas tinham apenas a oposição dos instalados na cúria romana e nas cúrias episcopais.
  • Puro engano.

Falava-se de alguns movimentos e organizações que não viam com bons olhos os atrevimentos de Bergoglio,

  • mas como a idade era muita
  • e a saúde era pouca,
  • a natureza encargar-se-ia de resolver o problema.
  • Falava-se sempre do próximo Papa.
  • Este já tinha os dias contados.

Os dias e os anos passaram e ele, apesar de tudo, resistia e estava sempre a anunciar e a lançar coisas novas.

Por outro lado,

  • os que tinham muita pressa
  • e julgavam que o Papa devia fazer as reformas todas por decreto, sem estar a olhar aos seus deveres de respeito para com os direitos de todas as pessoas,
  • tornaram-se aliados funcionais daqueles que se organizavam para vencer as reformas de Bergoglio.

 

2. Em Portugal, mas não só,

  • era estranha a atitude de distância de padres e bispos em relação ao Papa caluniado.
  • Era o cisma do silêncio, de surdos e mudos.

De repente,

  • a partir do comunicado exemplar do bispo de Aveiro, António Manuel Moiteiro Ramos,
  • incentivando toda a diocese a um apoio explícito ao Papa Francisco,
  • assim como várias cartas de leigos à própria Conferência Episcopal,
  • esta sentiu que não podia continuar alheia à calúnia.

Tarde, mas lá cumpriu o seu dever.

Ao dizer isto, ainda não saí do mundo clerical: Papa, cardeais, bispos e padres.

Santo Agostinho[1], no início de um sermão sobre os pastores, já tinha tocado na raiz do clericalismo que envenenou as relações no seio da Igreja, ao dizer:

«somos cristãos e somos bispos.

  • Somos cristãos para nosso proveito, somos bispos para vosso proveito.
  • Pelo facto de sermos cristãos, devemos pensar na nossa salvação;
  • pelo facto de sermos bispos, devemos preocupar-nos com a vossa. (…) devemos dar contas a Deus pela nossa própria vida, como cristãos; mas, além disso, devemos dar contas a Deus do exercício do nosso ministério, como pastores.»

Inverteu a pirâmide.

Antes de ser bispo, é um cristão, mas aqui começam também os equívocos.

  • Cristão parece pouca coisa
  • e padre e bispo, uma promoção na carreira.

O importante é

  • chegar a padre
  • e, melhor, chegar a bispo
  • e, se for bispo de Roma, é o Papa de toda a Igreja.

Chegou ao topo da carreira. 

Pura asneira!

  • Ser cristão, isto é, seguidor de Jesus, é a aspiração maior de quem fizer a descoberta do Nazareno.
  • No Baptismo, pela graça do Espírito Santo, o ser humano torna-se membro de um povo sacerdotal, porque participa no sacerdócio de Jesus Cristo.
  • Quando lhe chamam o sacerdócio comum dos fiéis querem dar a ideia de que é um sacerdócio banal, comum a todos.

O Novo Testamento (NT) só conhece este sacerdócio. A graça do Espírito Santo significada e acolhida no Baptismo é o que há de mais essencial na lei nova do Evangelho, como lembrou Tomás de Aquino.

 

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Francisco no meio da multidão, na Praça S. Pedro / Franciscanos

 

Tudo o resto, todas as mediações, sacramentais ou não, são ajudas para o desenvolvimento dessa vida cristã.

Nunca será demais repetir.

  • Os padres e os bispos não mandam na Igreja, servem a Igreja.
  • Estão ao serviço das comunidades
  • para que estas percorram na sociedade o caminho aberto por Jesus, que não veio para ser servido, mas para dar a vida.
  • Como sublinha Santo Agostinho, essa é a sua glória.

O clericalismo vê tudo ao contrário: o clero é considerado, erradamente, como o mais fundamental na Igreja.

 

3. Contra esta perspectiva surge uma objecção de peso:

  • se é para servir,
  • não quero ser padre nem bispo
  • e cai por terra a pastoral das, falsamente, chamadas vocações sacerdotais.

Não é uma dificuldade desconhecida nas relações entre Jesus e os seus discípulos. Diz S. Marcos que os discípulos não entendiam nada do que o Mestre lhes exigia.

Um dia, resolveu tirar a limpo a discussão que ocupava as vocações que arranjara.

Perguntou-lhes:

  • o que discutíeis no caminho?
  • Ficaram em silêncio, porque pelo caminho tinham vindo a discutir qual deles era o mais importante.
  • Tiago e João romperam o silêncio: queremos que nos concedas o primeiro e o segundo lugares do grupo.

Este sincero atrevimento

  • obrigou o Mestre a uma reunião de emergência,
  • pois os outros dez ficaram indignados por não terem tido a coragem de se anteciparem.

Reacção de Jesus:

  • posso perder todas estas vocações, mas não vou alimentar um equívoco.
  • Quem de entre vós quiser ser o primeiro, que seja o servo de todos
  • e fica o problema resolvido.

Aconselho a leitura directa e íntegra dos capítulos nove e dez deste evangelista[2].

É normal que certas pessoas, grupos e movimentos desejem que o Papa se cale. Ele não parece disposto a fazer-lhes a vontade. Veremos porquê.

 

 

 

Frei Bento Domingues, O.P.

in Público 16.09.2018

Fonte: https://www.publico.pt/2018/09/16/sociedade/opiniao/o-papa-nao-esta-so-1843980

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