Um Plano Marshall para a África

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Fica aí textualmente o que disse nessa conversa, no contexto da leitura dos jornais do dia.

Sim, nós estamos perante uma questão dramática, que, no meu entender, será cada vez mais dramática. Estamos a tratar das migrações, dos refugiados. E eu quereria chamar a atenção para dois ou três pontos.

Em primeiro lugar, é evidente que

  • a Terra é de todos,
  • o mundo é de todos
  • e, por isso mesmo, há o direito de visita, de hospitalidade, de que já Kant falava.

Mas a Europa, neste momento, está com este problema, que é um dos maiores problemas, o das migrações.

Sobre isso gostava de chamar a atenção

  • para os direitos humanos,
  • e a defesa dos direitos humanos é qualquer coisa que está profundamente ligada à Europa – a Europa sempre se distinguiu por receber.

Mas gostava de chamar também à colação que esta é uma questão da Europa enquanto União Europeia.

Em segundo lugar, julgo que é preciso  entender que

  • não podemos, para resolver um problema,
  • criar problemas maiores, por exemplo,
  • criar xenofobia,
  • uma direita cada vez mais agressiva…

Depois, é necessário também combater os traficantes ­ – é fundamental perceber isso. O próprio Papa Francisco tem dito que o Mediterrâneo não pode ser um cemitério. Estamos completamente de acordo. Mas, ultimamente, chamou a atenção para a prudência. Chamou a atenção para qualquer coisa que me parece fundamental.

 

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Foto: Deutsche Welle

 

Há a pequena política e a grande política.

Se houver a grande política, vai-se perceber que,

  • como a seguir à Segunda Guerra Mundial, houve o famoso Plano Marshall,
  • que desenvolveu a Europa, que estava completamente destruída,
  • e isso foi bom para a Europa e também para os Estados Unidos,

algo parecido pode ser bom para África e para a Europa.

Eu penso que

  • é necessário, concretamente em relação a África, um Plano Marshall,
  • isto é, desenvolver África lá. Lá.

Com regras, evidentemente, pois sabemos que há governantes africanos que também não têm regras e apoderam-se dos dinheiros que chegam. Então,

  • um Plano Marshall para África,
  • para fixar as populações lá.
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Foto: Notícias ao minuto

 

Os africanos têm direito a viver bem e a desenvolver-se lá. Isso seria bom para África e isso seria bom para a Europa.

Sandra de Sousa observou:

  • porque é que a Europa se tem regido pela pequena política?
  • Porque tem pequenos líderes, não tem grandes estadistas?

Respondi: porque não há uma real união europeia.

Eu penso que a Europa,

  • sem união, sem estruturas minimamente federativas,
  • com o tempo, torna-se insignificante no mundo.

Veja: a Alemanha é um país grande, mas dentro da Europa; no quadro de um mundo cada vez mais globalizado, a própria Alemanha é pequena.

Portanto,

  • nós precisamos da grande política,
  • no sentido de estadistas que criem uma União Europeia forte.
  • Porque não é apenas a Europa, é o mundo que precisa da Europa.

Porque

  • os direitos humanos onde é que apareceram em primeiro lugar?
  • Foi aqui, na Europa.
  • Onde é que há segurança social?
  • É na Europa.

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Foto: jcps1969.blogspot.com

Para que a Europa possa responder a esta questão gigantesca – o problema das migrações e dos refugiados é um problema gigantesco -, precisa de estadistas.

Hoje,

  • os africanos podem viver em condições difíceis e em lugares recônditos,
  • mas em qualquer sítio há possibilidade de aceder através da internet à situação da Europa,
  • e a Europa aparece como um paraíso e, portanto, vão querer vir.

Depois, com a desertificação de África,

  • vão aparecer milhões de africanos às portas da Europa,
  • concretamente da Europa do Sul.
  • Então, é necessária a grande política, e por isso é que eu, há muito tempo, sou defensor de um Plano Marshall para África. Para que se desenvolvam lá.

Sandra de Sousa:

– não se resolve com muros, com portas…

Respondi:

– não é possível, não é possível face a milhões de africanos que vão chegar…

 

2. Fiquei, pois, muito satisfeito, ao saber que a França e o Benelux, numa reunião recente no Luxemburgo, que juntou Emmanuel Macron e os primeiros-ministros luxemburguês, holandês e belga, querem que a Europa concretize esta ideia. “A União Europeia deve implementar uma versão do Plano Marshall em África, com uma ambição operacional concreta com os parceiros africanos”, afirmou o belga Charles Michel.

 

3. Neste contexto, penso também que

  • o clero africano tem um contributo fundamental a dar,
  • desde que assuma as suas responsabilidades,
  • ultrapassando as razões que sustentam críticas de missionários e de bispos.

“O sacerdócio não pode ser um trampolim para sair de África porque é pobre”, disse à Agência Fides o padre Donald Zagore, da Sociedade de Missões Africanas, citando Marcelin Yao Kouadio, bispo da diocese de Daloa.

“As razões recorrentes (da emigração de pessoal eclesiástico) continuam a ser a procura de bens materiais e de prestígio.”

Além disso,

“muitos africanos pensam que são superiores ao resto, particularmente nos círculos eclesiásticos, porque vivem, trabalham ou estudam na Europa. É dramático pensar que a essência de África chegue à sua realização quando goza do prestígio europeu“.

Em Maio de 2018,

  • Ignace Bessi Dogbo, presidente da Conferência Episcopal da Costa do Marfim,
  • também denunciou o fenómeno dos “sacerdotes errantes”:
  • sacerdotes que se negam a voltar a África depois de estudos ou de uma missão na Europa.

Seria lamentável que o clero africano, concretamente o mais bem preparado com especializações no estrangeiro, fugisse às suas responsabilidades e não desse o seu contributo imprescindível à promoção e ao desenvolvimento do seu continente e dos seus países.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Fonte: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/15-set-2018/interior/um-plano-marshall-para-a-africa-9847252.html

 

 

 

 

 

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